Prepare-se para divertir com a série Castles Ever After, da escritora Tessa Dare

Se você quer conhecer a escrita da americana Tessa Dare, uma das mais importantes escritoras de romance de época, comece pela série Castles Ever After, lançada no Brasil pela Editora Gutenberg do Grupo Autêntica.

São apenas três livros, três histórias com um ponto em comum: “o recebimento de um castelo como herança de um padrinho”. As condições que esse imóvel chegará pouco importa, o que vale mesmo é a luta dessas herdeiras por independência e reconhecimento. Se estamos falando de romance de época, é claro que vai rolar um amor, proporcionalmente impactante ao poder dessas heroínas, moderninhas demais para suas épocas. 

Tessa Dare entrega uma escrita tão agradável, a medida certa do romance, a química perfeita entre os casais, obstáculos pertinentes à época, porém, pouco explorados, como, por exemplo, a criação de uma cervejaria, a saga de leitores por uma série inacabada. Portanto, se você é fã de romance de época, mas acha que as histórias têm se repetido, leia Castles Ever After.

Vale lembrar que as escritoras de romance de época, especialmente as com maior notoriedade, Lisa Kleypas, Julia Quinn, Sarah Maclean, Loretta Chase, sempre indicam umas às outras e isso faz com que o gênero sempre apareça no topo de vendas. Um exemplo disso é o próprio crescimento da Tessa Dare no Twitter, comentando cenas da série Bridgertons da Netflix — adaptação de Julia Quinn. Ela acabou interagindo tanto com os fãs, que houve engajamento ativo durante o BBB e politicamente também. 

Castles Ever After é uma das principais séries da escritora, best-seller The New York Times e USA Today. É detentora de prêmios literários importantes como o RITA Awards.

Romance com o Duque

Receber um castelo como herança foi um alento para a jovem Izzy Goodnight. Sua situação atual é de penúria e solidão, lhe restando apenas algumas moedas e sua doninha de estimação. 

Depois da morte do pai, um famoso escritor que deixou uma saga literária inacabada – uma espécie de Harry Potter com milhares de seguidores mundo afora -, cuja protagonista era a própria Izzy,  sua vida virou pelo avesso. Toda a fortuna do pai foi deixada para o parente do sexo masculino mais próximo, um primo que ela detesta. Assim, a herança do castelo era tudo que ela precisava, um lar e uma renda pela propriedade. 

“Ah, mas este presente não é a mesma coisa que uma doninha. Isto é uma propriedade. Você não entende como isso é raro para uma mulher? A propriedade sempre pertence aos pais, irmãos, maridos e filhos. Nós nunca ficamos com nada”. (pág.34)

Só que o castelo, que a princípio parecia estar abandonado, na verdade, está habitado por um Duque recluso e misterioso, e que, claro, não vai abrir mão do seu lar. Ransom é um homem meticuloso, charmoso e muito direto. Izzy é uma jovem perspicaz, inteligente e tem uma certeza absurda sobre a vida e o que quer dela. Muitas surpresas com essa personagem, que é corajosa e muito autêntica. 

“E Ransom não tinha como adivinhar, mas ele acabara de articular tudo que ela vinha querendo há muito tempo. Ser notada. Não apenas ser reconhecida como a garota de uma série de contos famosos, mas notada como mulher”. (pág. 37)

O convívio entre esses dois opostos garante muitas risadas (eu me diverti lendo), a leveza com que resolvem seus dramas, a forma como fortalecem os laços de confiança e vão criando intimidade aos pouquinhos é muito legal. Isso torna a leitura ágil e muito agradável. 

Diga sim ao Marquês

Clio Whitmore foi criada e meticulosamente preparada para ser uma dama, fazer um bom casamento e viver feliz para sempre à sombra do marido e dos herdeiros. Por muito tempo, foi isso mesmo que ela desejou. Ficou noiva aos 17 anos do Marquês de Granville, porém, anos foram passando e nada do casamento se concretizar. 

Clio é alvo de chacota na sociedade (Srta. Wait-More – espera mais), e boatos em relação à fidelidade do marquês, que está há anos no exterior, cumprindo suas obrigações como diplomata. Assim, a herança do castelo era tudo que ela precisava, uma virada de página na vida de Clio, que quer usar todos os conhecimentos que adquiriu durante sua preparação para ser marquesa e seu dote para investir em uma cervejaria. 

“Mulheres bem-criadas bebiam limonada ou água de cevada. Talvez um gole de tônico ou uma taça de clarete. Cerveja fraca, em casa. Damas não bebiam cerveja ale. Muito menos porter. Nunca em público”. (pág.121)

Mas ela precisa pôr fim ao noivado e recorre ao irmão do noivo para assinar os papéis. Rafe é um lutador de boxe, sarcástico e com um passado marcado pela rejeição familiar. Um libertino, que nunca esqueceu a paixão de adolescência pela amiga que acabou se tornando noiva de seu irmão. Mesmo assim, por honra aos laços familiares que ainda unem ao seu irmão, ele vai fazer de tudo para que esse casamento aconteça e Clio se case com seu irmão. 

“… Rafe Brandon era uma ovelha negra. Um rebelde mal-humorado. O Filho do Diabo. Ele era conhecido por toda a Inglaterra como sendo rápido, rude, forte e perigoso. E tentador. Diabólica e irresistivelmente tentador”. (pág.95)

Esse livro também tem uma pegada de humor, proporcionada pela sagacidade da Clio, mas surpreende ao abordar uma temática interessante e pouco explorada nos romances de época: a saúde mental. 

“Oh, sim. Meus demônios. A tormenta escura que leva embora pequenos grãos da minha alma. É disso que você está atrás. Você acha que, se me mantiver em seu belo castelinho e me mimar com dezesseis almofadas eu vou aprender a me amar e assim talvez eu pare de submeter meu corpo a esse abuso horroroso”. (pág.52)

Tessa constrói uma química perfeita e divertida entre o casal. As cenas de amor são sensuais e muito quentes. 

A noiva do Capitão

Sem dúvida foi a história mais cativante e emocionante. Para não ter que frequentar os salões de baile e agitação das temporadas de Londres, Madeline, uma jovem extremamente inteligente, inventou que havia conhecido um capitão das terras altas escocesas e se comprometido com ele durante um período em que passou em uma escola para moças. 

A mentira foi tão bem elaborada, que ela escrevia periodicamente para esse noivo e toda família acreditou nesse enlace, livrando Maddie do martírio da exposição pública. Isso fez com que ela pudesse se dedicar ao que realmente gostava: as ilustrações e observações da natureza, apesar de que para essa última há um motivo específico. As cartas (escritas e respondidas por ela mesma) duraram até o momento em que Maddie percebeu o ridículo da situação e decidiu matar seu capitão, tornando-se reclusa em seu luto. 

Quando herdou seu castelo, Maddie viu uma oportunidade perfeita para sua independência e paz, vivendo com sua tia e se dedicando ao seu trabalho como ilustradora. Porém, o capitão fictício não apenas existe, como reaparece, recitando todas as cartas e  reivindicando sua noiva e uma terra para seus soldados. 

“Os homens reunidos ao redor dele representavam os últimos de seus soldados dispensados. E também os que estavam em pior situação: sem teto, feridos, deixados para trás”. (pág.32)

O Capitão MacKenzie, oficial do Royal Highlanders, recebeu, durante todo o tempo, as cartas da adolescente Maddie, em que ela se abria e expunha todos os seus anseios. O aparecimento dele não apenas é um constrangimento, mas uma ameaça à liberdade e à reputação que ela conquistou.

“Para a jovem Maddie, aquelas cartas funcionaram como um tipo de diário. Ela escrevia as coisas que não tinha coragem de falar em voz alta. Todas as suas reclamações tolas, todos os pensamentos nada caridosos que nasciam do temperamento e das decepções adolescentes. Seus sonhos ingênuos do que podia ser o amor entre uma mulher e um homem. Maddie tinha enviado aquelas cartas para o Capitão Mackenzie exatamente porque não queria que nenhum conhecido as lesse”. (pág.36)

Esse é um livro com uma carga dramática mais pesada. Os dois carregam traumas que precisam ser compreendidos para que possam viver um amor verdadeiro. Gostei muito da criação dos personagens, da genialidade da Maddie e da inserção de temas importantes e atemporais, como a garantia de vacinas para uma população que sofre com uma doença viral — traumas que uma guerra pode deixar. 

É uma história que trata de recomeços e redenção. 

Mesmo com as mensagens poderosas, a leitura toca cada pessoa de uma forma diferente. Para mim, Castles Ever After é uma leitura de entretenimento e paz de espírito. Foi durante poucos dias (li muito rápido), um alento para a dura realidade que vivemos neste Brasil de 2021. 

Vem ler outras notícias do universo literário, filmes e séries. Clique aqui!

Deixe o seu comentário

comentários

Deixe seu comentário