Teoricamente Princesa | Alyssa Cole

Teoricamente princesa é uma das sensações literárias de 2020. O primeiro livro da série Reluctant Royals se destaca por trazer personagens negros em papéis de protagonistas.

Apesar de tratar-se de um romance da realeza, a série é contemporânea, com pautas reais e discussões pertinentes ao nosso tempo, como racismo, machismo, assédio moral, prevenção de epidemias, cortes de financiamento à ciência, adoção e transporte público. Por este motivo já vale a leitura e, de fato, Cole acerta em cheio ao inserir tais pautas em seu conto de fadas moderno, lançando mão, inclusive, do seu lugar de fala como mulher negra.

Além disso, a trama traz personagem cadeirante e homossexual. A última vez que fiz uma leitura com tanta diversidade foi em Céu sem estrelas da brasileira Iris Figueiredo (tem resenha aqui).

Sempre reforço que é papel da literatura para além de entreter, abordar assuntos do dia a dia, como mais uma forma de fazer os leitores enxergarem suas realidades.

A história

Naledi Smith pega metrô, trabalha em restaurante, usa lingeries que não combinam e leva uma vida regrada enquanto luta para terminar sua pós-graduação em epidemiologia.

“Ela era uma mulher que morava com dois camundongos em um apartamento minúsculo, cuja dieta era constituída de macarrão instantâneo e que empacotava o celular em várias camadas de proteção, porque quebra-lo era inviável.” (pág.195)

A vida de Ledi não é nada fácil. Após a morte dos pais, peregrinou por lares adotivos até alcançar sua independência e lutar sozinha pelo seu futuro. Por meio da rotina de Naledi, a autora pincela a realidade imersa em racismo e machismo sofridos por uma mulher negra.

“Era muito “divertido” trabalhar com ele: no primeiro dia, depois de ela ter se apresentado, ele lhe pediu para jogar o lixo fora com mais frequência, pensando que ela fosse a faxineira. Ele constantemente explicava conceitos básicos para Ledi – apenas para Ledi – durante as reuniões do laboratório, enquanto pediu opiniões a Kevin, o novato, sobre como as coisas deveriam funcionar.” (pág. 11)

O que Ledi não sabe é que há uma busca incessante por ela, em um reino africano, onde um príncipe espera seu retorno para cumprir a profecia de se casarem. O passado de Ledi é um mistério até mesmo para ela, que se quer lembra da fisionomia dos próprios pais.

Thabiso sempre nutriu as esperanças de encontrar sua prometida, mas não se privou de curtir a vida de solteiro e deixar o término desses rolos a cargo de sua fiel assistente Lokotsi, o que lhe rendeu o apelido entre os tabloides de “playboy pan-africano”.

O príncipe é bonito, bem-humorado, mas um exímio chefe de estado que demite sem piedade e não conhece a realidade dos que os serve, apesar de governar seu reino com justiça.

Ao encontrar sua prometida, e manter sua identidade sob sigilo, Thabiso, conhecerá um mundo completamente diferente do que vive e descobrirá o amor ao lado da menina solitária e batalhadora. Mas comete um erro, ao se envolver com ela, sem contar quem realmente é… 

“As poucas conversas com Naledi já tinham feito com ele quisesse dar mais ao seu povo também. Ele queria fazer mais do que simplesmente seguir os planos do ministro. Sempre havia se importado muito, mas agora não se sentia refém dessa preocupação, com tanto medo de tomar a decisão errada que acabada não tomando nenhuma.” (pág.123)

Outro ponto importante, o reino sofre por uma doença misteriosa e a ajuda de uma epidemiologista será de muita valia no momento. Um mistério também paira sobre a trama, por que a família de Naledi fugiu de um futuro de glória do reino de Tesolo.

“Quando ocorre o surto de uma doença, são sempre as populações mais vulneráveis que sofrem as piores consequências. Quero que a minha pesquisa ajude a tornar o mundo mais seguro para essas pessoas.” (pág.55)

A escrita da Alyssa além de fluida é bem objetiva. Com poucas descrições, os fatos se desenrolam rapidamente, apesar do impasse entre a identidade do príncipe, aquele clichê “conta ou não conta” que, comumente, resultará na revelação feita da pior da forma possível. Essa objetividade ao mesmo tempo em que dá fluidez a leitura, também deixa algumas pontas soltas, e em alguns momentos dá impressão que perdemos algum fato importante que levou a outro mais importante ainda e a gente não percebeu.

Por ser o primeiro livro da série, a apresentação dos demais personagens não interferiu no andamento da trama principal, pelo contrário, despertou a curiosidade em saber mais sobre eles e o que o futuro lhes reserva, em especial a assistente do príncipe, Likotsi, que é homossexual e vive um romance americano até então malsucedido, e é um “partidão” entre as solteiras do reino. 

Teoricamente princesa é uma leitura divertida, atual e inteligente, com referências de hoje, inclusive ao Brasil, bem como personagens jovens e vibrantes com dilemas mais que humanos.

Me senti assistindo a uma comédia romântica de Sessão da Tarde, com vários clichês porque a gente ama, mas com representatividade, e questões importantes sendo sutilmente pautadas. 

A gente sempre pediu mais livros com representatividade e diversidade e os escritores têm acertado em cheio.

O livro é uma publicação da editora Essência, selo da Planeta de Livros. Saiba mais clicando aqui. 

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