Céu sem estrelas | Iris Figueiredo

Céu sem estrelas é um dos livros com histórias mais próximas da nossa realidade, que tive a oportunidade de ler.

A história da escritora carioca Iris Figueiredo traz algumas boas peculiaridades e uma gama de personagens que dificilmente teriam espaço em um livro há alguns recentes anos.

Quando foi que, em uma única história, tivemos a chance de conhecer os dramas de uma protagonista gorda e de cabelo cacheado, com uma amiga cadeirante e outra amiga negra, que luta para vencer o preconceito e ser aceita em um estágio pela sua técnica e competência e não pela cor da pele e o jeito que arruma seu cabelo. Ou, ainda, ter uma prima que, após se assumir homossexual, tem que lidar com os comentários maldosos da própria família.

Céu sem estrelas apresentou essas e outras histórias que, mesmo sutilmente contadas, levantam importantes discussões sobre como vivemos e lidamos com nossas próprias histórias reais. Esses personagens são totalmente factíveis e identificáveis porque são brasileiros.

Durante anos nos entretemos com a literatura estrangeira, sobretudo a norte-americana. Sabemos o que eles comem no café da manhã, como é a configuração de suas casas, como lidam com o amor, perdas e suas tradições e culturas, que, muitas vezes, são apropriadas por nós: o Halloween é uma prova!

Quando damos oportunidade para a literatura nacional, nos deparamos com algo que está literalmente próximo de nós. É a nossa vida e nossos costumes que estão ali. Conseguimos nos identificar e lidar com problemas e eventuais soluções que, se não nos afligem, estão bem próximos, acometendo nossos amigos e parentes.

Esse tipo de leitura, além de entreter, também presta o importante serviço de tocar em temas que, muitas vezes, não temos coragem de discutir. Por isso, leia nacionais e indique nacionais. Conheça e valorize os jovens autores.

A história:

Cecília é a protagonista que tem a missão de sobreviver dia após dia. É uma jovem com o emocional bem abalado pela indiferença da mãe e a gordofobia que está sempre ali, à espreita, nas expressões mais “comuns” do dia a dia.

“As pessoas me encaravam e automaticamente calculavam quanto peso ganhei ou perdi desde a última vez que nos vimos. Tinham sugestões de dieta, piadinhas prontas que ‘não eram para ofender’, diziam que meu rosto era tão bonito e se eu emagrecesse um pouquinho…
Aquilo me deixava louca. Simplesmente por não ter pedido a opinião de ninguém.” (pág. 48 e 49)

De autoestima prejudicialmente baixa, Cecília tem problemas de aceitação, em conviver com outras pessoas e em sair da sua zona de conforto, já bastante restrita.

“Odiava ser encontrada daquele jeito. Passava a maior parte do tempo escondendo meus sentimentos, medos e inseguranças. Não queria que vissem aquela parte de mim, vulnerável, e tentava ao máximo disfarçar quem eu era. Tinha perdido mais uma vez a batalha que sempre travava contra minha cabeça e minhas ideias loucas.” (pág.44)

Demitida no dia do seu aniversário, a protagonista divide com o leitor seu primeiro drama, contar ou não para a família. E percebemos que esse dilema aparentemente simples, para ela é penoso porque significa fracasso, desapontamento. A convivência com a mãe é tóxica, já que ela valoriza muito mais o namorado que a filha. A conturbada relação delas será o ponto chave para aproximar Cecília de Bernardo.

Bernardo é irmão de uma das melhores amigas de Cecília, Iasmin, uma garota original, gente boa, que coloca Cecília para cima e está sempre à disposição para socorrer a amiga. Juntas com Rachel, a amiga cadeirante, sensata, que sempre tem bons conselhos para dar, elas formam o trio de amigas existente desde o colégio, em uma época na qual Bernardo não era apenas o irmão mais velho de Iasmin, mas um dos primeiros crushes de Cecília. A convivência entre eles, obviamente, resultará em um romance com muitas dicas de leitura, já que a literatura é um forte elo.

“Cecília era uma caixinha de segredos e mentiras, tentando encobrir as partes feias da vida e pintar uma versão melhor de si mesma para o mundo. Ela não queria que sentissem pena.” (pág.161)

A história de Cecília não se resume ao seu romance com Bernardo, pelo contrário, questões psicológicas sempre vão aparecer e ditar o destino dos dois e de quem está em volta, com algumas reviravoltas angustiantes. Torcemos pela cura de Cecília, para que o amor vença e também pelos personagens secundários, que têm seus dramas e muito o que lutar.

Destaque para a avó de Cecília, Dona Marília, que é um amorzinho e faz de tudo para manter a família bem; e para a amiga do trabalho, Stephanie, estudante de direito que precisa vencer a barreira do preconceito para conseguir um estágio.

“… ela tinha me contado que um recrutador dissera que o cabelo dela não a deixava com aparência profissional, apesar de qualificada… Uma vez ela me disse que precisava ser duas vezes melhor do que todos os concorrentes. Que tinha nascido em desvantagem dupla, por ser mulher e negra. Tinha uma consciência enorme de sua própria identidade, o que tornava algumas coisas muito dolorosas.” (pág.150 e 151).

Além delas, conhecemos ainda a prima Taís, que precisa lidar com as piadas da família em relação à namorada; Iasmin que (infelizmente) se envolve em um relacionamento abusivo e os pais de Iasmin e Bernardo, que vivem um relacionamento de fachada.

Com histórias que se confundem com nosso dia a dia, Céu sem estrelas é um livro gente como a gente, com narrativas capazes de nos fazer refletir, mudar atitudes e abrir nossos olhos para enxergar o próximo.

A literatura tem o poder de nos inserir no contexto diário de cada personagem e é impossível fugir das semelhanças com a realidade. Em qualquer gênero que lemos, há ali o fragmento de um contexto histórico, social e o mais humano possível da vida do autor. No caso da literatura brasileira, vamos exaltar os novos autores que você precisa conhecer e valorizar. Eles têm apresentado debates importantes por meio de suas obras, tocando profundamente em temas que nos afligem diariamente.

Céu sem estrelas é uma publicação da Editora Seguinte

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