Minha mãe sempre dizia que ouvir a conversa dos outros é errado. Algumas vezes ela, inclusive associava o costume a um pecado mortal. Mas assim como tudo na vida, até os pecados evoluem, porque no ônibus é praticamente impossível não saber da vida dos outros. Um pecado involuntário.

O que chama minha atenção é a conversa de duas senhoras que animadamente falam da vida de outras pessoas.

– Fiquei com muita pena. Até chorei! _ Diz a de cabelo curto, grisalho, que veste uma blusa fofa de seda com estampa de bolinhas. 

– Eu também _ Retruca a de coque perfeitamente alinhado no topo da cabeça, óculos redondos e vestido preto.

– Sozinha! O pai morreu e a mãe mora em outro estado.

– Trabalhadeira, né? Batalhou pra conseguir a faculdade. _ Diz orgulhosa a de coque ajeitando um mísero fio rebelde no reflexo da janela.

– Acho que ela perdeu muito tempo tentando tirar ele daquela vida de pecado.

– Mas era muito inocente, a coitada. “Essas menina nova” não sabem lidar com homem problemático. 

– Devia era ter levado ele pra igreja. 

– Mas ele tava tão envolvido amarrado que o capeta com certeza não ia deixar ele ir na igreja.

– Foi Deus que guiou os passos dela, porque sozinha não ia conseguir. 

– É! Não ia. _ As duas refletem

Minha mente trabalha a todo vapor. CO-I-TA-DA dessa menina. Que situação horrível ela deve estar passando. Tentando salvar o amor da sua vida, das drogas? Do crime? De algo muito errado e pecaminoso que impede a felicidade dos dois. Fico pensando qual o parentesco das senhoras com a garota e por que nenhuma delas ofereceu ajuda. Continuo ouvindo.

– Pelo menos ele é fiel. Tá difícil achar um homem assim hoje em dia.

– Misericórdia! Não adianta nada ser fiel se ele bate na menina.

Agora o MISERICÓRDIA está piscando o alerta na minha testa. Meu Deus tem gente que veio no mundo para sofrer. Compadecida com a história, meus olhos se enchem de lágrimas e faço uma pequena oração pedindo a Deus que olhe por essa desconhecida que sofre tanto em algum lugar de Belo Horizonte. Pelo canto do olho vejo que a de cabelo solto se levanta para descer. Fico pensando se deveria oferecer ajuda, quando as duas começam a se despedir.

– Vai com Deus _ Diz alegremente a de coque.

–  Amém! Fica com ele também. A noite termino, falta só um capítulo.

– Eu terminei ontem e adorei o final.

– Nada como um romance para distrair a gente né.

Quando ela passa por mim vejo que carrega um livro debaixo do braço.

Perplexa avalio a capa “Cinquenta tons de liberdade – E. L James”

 

Todo mundo tem um história engraçada que já viveu no ônibus. Conta pra gente! Envie para contato@literalmenteuai.com.br

Deixe o seu comentário

comentários

13 Replies to “[Crônica no ônibus] – Paradoxo Literal”

  1. Já passei por situações desse tipo… Ás vezes sem querer a gente escutsr a conversa alheia. E do anda nos interessamos..
    Acontece comig em sala de espera de médico hahahha

  2. Tudo bem? Realmente, eu também fui criada da mesma maneira, que ouvir conversa alheia é falta de educação, errado e etc. Mas as vezes é simplesmente impossível, não é mesmo? As pessoas estão ali, e falam em tom normal ou alto mesmo é o espaço é bem pequeno para nao ouvir nada.
    Quando estou sozinha, costumo usar fones de ouvido, evitando todo e qualquer barulho e até mesmo o povo que curte puxar conversa prefiro ficar na minha. Mas as vezes, não estou só, ou esqueço os fones, aí sempre ouço algo que não deveria sobre a vida de alguém. Acho que o pior que já escutei dentro de ônibus foi briga de casal ao telefone sabe?! Nossa! Quando a pessoa desliga, ela não sabe onde enfia a cara e nem eu.

    Percebo também, algumas pessoas em pé, observando a tela de conversa de whatsapp do que estaestá sentado.
    Eu nem mexo no meu celular nessas ocasiões, pois é difícil ter privacidade. Rsrs

    Beijos.

  3. Caramba! Me acabei de rir aqui dessa história!
    Se ouvir conversa dos outros for mesmo um pecado mortal, então minha mansão no inferno está mais que garantida!! kkkk Sou a rainha das fofocas de ônibus! Ainda mais hoje em dia que as pessoas falam ao celular como se tivessem pedindo ajuda para a polícia no meio da balada! Se elas gritam, não posso fazer nada!! Rs…
    Adorei essa sua crônica e já comecei a me lembrar de muitas histórias engraçadas que ouvi na vida!
    beijos
    Camis – blog Leitora Compulsiva

  4. Oi!
    Tento não me prender em conversas alheias, mas vou dizendo que é impossível principalmente quando falam tão alto, parece que quer que escutem mesmo! Eu acho que na sua situação eu ficaria do mesmo jeito emocionalmente, quando chegou ao final do seu relato comecei a rir, ao descobrir que era de um livro é hilário essas situações, mas não se aflija pois já passei por isso também. Bjs!

  5. Estou dando risada e me lembrando das coisas que já ouvi dentro dos ônibus e a que mais me chamou atenção foi de uma mulher falando no telefone pro marido que estava com dor de cabeça e muito cansada e agradecendo a preocupação dele. Ela acabou de desligar e ligou para uma amiga e começou a meter o pau no marido, falou tanto mal dele que só por Deus, em seguida ela desligou e começou a flertar com um contato do whatsapp que o nome era Gil Trabalho. Fiquei de queixo caído, mas só vi porque estava sentada no banco alto e ela no baixo da frente kkkk

  6. Haha, ainda bem que a moça em questão era uma personagem do livro, legal essa conversa entre as duas mulheres sobre leitura. Realmente, no ônibus não tem como não escutar a conversa alheia.

  7. Nossa, que susto que essa história me deu, fiquei perplexo pelo que a menina passava na mão do marido. Ainda bem que era uma personagem. Pegadinha do Silvio Santos… rsrsss

  8. Quem nunca ouviu uma conversa alheia e se pegou prestando mais atenção do que deveria?! hahaha
    Achei o texto bem perspicaz, me surpreendeu!

Deixe seu comentário