Minha filha nasceu no pior momento da pandemia no Brasil

Por: Carolina Valadares (Médica mastologista e uma mamãe de muita coragem!) 

Sempre que eu via uma mãe com uma criança de colo ou uma grávida fugindo de um bombardeio nos filmes de guerra, eu automaticamente pensava: “que mulher louca, engravidou nesse caos. Como pode?”

E eu sempre torcia para aquela mãe conseguir fugir com seu bebê e encontrar um lugar seguro para poder seguir a vida em paz com a sua loucura. Pois é isso que as mulheres fazem, não é? Sobrevivem nas mais adversas situações, desde que o mundo é mundo, sempre protegendo a sua cria.

Eu nunca tinha me visto como mãe. Tinha muitos planos, muitas viagens marcadas, muitos países para conhecer, muito a aprender, muito a trabalhar… sempre com muitos afazeres, e a maternidade ficava em segundo plano. Como muitas mulheres da nossa geração, criadas para serem livre, empoderadas e engajadas, eu estava feliz assim.

Até que algo mudou. O mundo mudou? As oportunidades mudaram? As obrigações mudaram? Não. Eu mudei! 

Eu estava pronta, queria e precisava ser mãe. De onde surgiu essa necessidade (porque se torna uma necessidade cada vez mais urgente)? Não sei! Talvez, seja o tão falado instinto maternal aflorando ou um fenômeno espiritual que ainda não compreendemos. Só sei que precisava ser mãe. Sonhei com minha filha, e no meu sonho ela conversava comigo. Falou naquela voz suave e inocente de criança: “mamãe, eu estou pronta.”

Estava tudo certo. Planejei, me programei e consultei com a obstetra. Estava tudo sob controle, sob o meu controle, como deveria ser (acreditava eu). Suspendi minha pílula e era deixar o destino atuar na minha vida e na vida do meu marido, que há muitos anos já queria ser pai.

Planejamento e controle: duas palavras que amamos e idolatramos. Então, o mundo se viu fora de controle. Um vírus, até então desconhecido, surgiu. E onde foi parar o planejamento de todos? O controle? Perdemos!

Em uma semana, deixamos de ter controle sobre nossas vidas. Quem controlava era o vírus. Ele estava ganhando e roubou o nosso planejamento.

Mas ele roubou o meu desejo de ser mãe? Não! Isso ele não roubou.

Inúmeras vezes ouvi frases de amigas na mesma situação: “vou adiar a maternidade”,  “pandemia não é época de ter filhos”, “você é louca de suspender a pílula, volta com ela agora”,  “não sabemos o dia de amanhã”, “como vamos colocar outra vida no mundo?”.

A Organização Mundial de Saúde recomendou adiar a maternidade. As minhas amigas estavam erradas? Não! Elas estavam certas. Vivemos em um mundo de incertezas. Mas eu estava errada de continuar sentindo uma necessidade de ser mãe? Também não! Como explicar esse paradoxo?

Veio a confirmação da gravidez. Meu grande momento havia chegado. Comemoramos muito a vinda do nosso tão esperado bebê. Mas comemoramos de uma forma diferente. Longe da família e dos amigos. Sem chá de fraldas, que deveria ser com muitas pessoas queridas, decoração, música e festa, como sempre foi.

Será que sempre foi assim? Que as mães da guerra tinham chá de fraldas? Que as mães da pré-história comemoravam a concepção com grandes aglomerações ao redor do recém-descoberto fogo?

Será que as mães de outras inúmeras pandemias anteriores a essas comemoravam esse fenômeno mágico de gerar outra vida, mesmo sem ter água encanada, esgoto, ar condicionado, iFood ou Netflix?

É o meu momento menos feliz pelo isolamento social? Não! Meu momento foi diferente e muito especial. O ser humano se adapta, e eu também me adaptei. Ia trabalhar com uma máscara N95 que me sufocava, álcool gel virou meu aliado, os cuidados com higiene e limpeza se multiplicaram.

Mas vai trabalhar grávida? Você não é do grupo de risco? Não deveria ficar em casa? Mas se você ficar em casa, seu serviço essencial não vai deixar de ser feito? Sim! Sim para todas as perguntas.

Está com medo? Estou morrendo de medo!

Nunca tive tanto medo na vida. Sair de casa com as ruas vazias, abandonadas, me dava pânico. Conversar com minhas pacientes que amo e admiro me gerava medo de contrair e de transmitir o vírus. Mas vai com medo mesmo!

Alguma força maior queria que eu ficasse grávida na pandemia. Então, essa força maior que cuide de mim e vai cuidar do meu bebê na barriga. A responsável por isso tudo é ela. Vamos em frente!

Foi então que eu percebi que eu não era a única. Várias mulheres estavam na mesma situação que a minha. Várias colegas médicas grávidas se arriscavam diariamente para prestar serviços essenciais na pandemia.

Muitas mulheres, que se encontravam em isolamento social, sem poder sair de casa, engravidaram. Várias mulheres engravidam em locais em que a seca assolou as plantações e não têm nada para comer. Isso ao longo dos séculos, desde que o mundo é mundo. 

As mulheres da Idade Média engravidavam, mesmo com o risco dela e do marido serem presos a qualquer momento, porque pensavam diferente dos dogmas da época. Várias mulheres engravidaram na ditadura, na época da Peste, na Revolução Francesa, em 1929 com a quebra da bolsa de Nova Iorque. Somos todas loucas? Acredito que sim!

Continuei me preparando, me planejando, fazendo tudo o que eu podia e ouvindo frases do tipo: “você vai vacinar grávida?”,  “você é louca? Não existem estudos em grávidas”, “o vírus mata grávida, você vai morrer”, “vai ser intubada, vai para o CTI, terá sequelas se tiver sorte de sair viva!”.

E os dias foram se passando e chegou a data mais esperada. O dia para o qual havia me preparado há tanto tempo. Li tudo a respeito, fiz tudo que poderia ser feito para me sentir preparada. Ioga, fisioterapia pélvica, alimentação impecável, vitaminas, enxoval, quarto de bebê, visita online à maternidade. E, mais uma vez, o vírus veio para mostrar que não temos controle de nada.

Minha filha nasceu na pior semana da pandemia no Brasil até o momento.

Fase roxa, hospitais públicos e privados lotados, falta de insumos, respiradores, leitos de terapia intensiva e de internação, até oxigênio faltava.

Tivemos o privilégio de ter o parto em uma das melhores maternidades do país, na maior cidade da América Latina. Não vai faltar recursos, mas faltou.

Estavam sem leitos e quartos. Dois andares da maternidade fechados às pressas para atender pacientes de Covid-19. Uma ala improvisada da endoscopia do hospital virou pré-parto. Todas as gestantes apertadas, sem espaço para andar, ou para praticar todos os exercícios treinados durante a gestação para o parto humanizado. Não tinha espaço.

Ficamos em uma maca apertadinha, aglomeradas, com a presença apenas dos maridos. Ouvíamos os gritos de dor umas das outras, sem podermos nos abraçar para darmos forças pelo protocolo de distanciamento. As mães da pandemia estavam tão próximas naquele espaço improvisado e na mesma situação: todas apavoradas com o caos que o mundo havia se tornado, mas, ao mesmo tempo, tão distantes, apesar de separadas fisicamente por biombos apenas.

Eu estava em uma maternidade privada referência nacional na cidade de São Paulo. Imagina quantas mães, naquele mesmo momento, se encontravam em situação pior que eu, às vezes sem conseguir vaga nas maternidades, mesmo estando em trabalho de parto? Sim, deu medo. Muito medo.

Minha mãe, médica pediatra, foi proibida de assistir ao parto. Não podia. Estávamos em pandemia e em guerra contra o vírus. E precisávamos ganhar. Todos precisavam lutar. E eu estava lutando pela minha pequena. Eu, meu marido, e a nossa equipe.

Lutamos juntos! E, graças a Deus, deu tudo certo.

Não teve família e amigos aglomerados na janelinha da sala de parto, com balões, câmeras, presentes, lágrimas de emoção e carinho infinito. Mas teve família e amigos assistindo ao parto na segurança de suas casas, mandando energia positiva e amor para o nascimento da minha filha. Carinho infinito. Que momento único! Que momento inesquecível! Que momento especial! Diferente, sim, mas único. Nosso momento! E foi lindo!

Hoje, na segurança da minha casa, olhando para minha pequena, cada dia maior e mais saudável, eu só tenho uma certeza na vida: valeu a pena!

Valeu a pena enfrentar o medo e a insegurança. Valeu! Por mais empoderada e no controle da vida a mulher seja, não se escolhe a hora de ser mãe. Você é escolhida. Não sei pelo quê ou por quem.

Mas, sim, você é escolhida. Pode ser na guerra, na escassez de alimentos, na pré-história, na Idade Média ou na pandemia que assolou o início do século XXI. Talvez, se assim não fosse, nossa espécie já teria entrado em extinção. Será isso um mecanismo de sobrevivência, então? Seleção natural? Será que, ao invés de sermos chamadas de loucas, não deveríamos ser chamadas de guerreiras? De sobreviventes? Como fomos desde Lucy, que nasceu há 3,2 milhões de anos e viveu em um ambiente inóspito, com animais ferozes e sem uma casa de alvenaria?

Acredito que daqui a muitos anos, quando alguma médica racional, que acredita estar no controle da sua vida, assistir a um filme de ficção que se passa durante a pandemia de coronavírus e ver uma mãe dando à luz na pior semana da pandemia, ela vai pensar: “que mulher louca!”.

Prazer, a louca sou eu. E muitas outras. São as guerreiras da pandemia.

O texto é uma cortesia médica Dra. Carolina Valadares. Agradecemos sua confiança! Se você também tem um texto especial, uma crônica, conto ou poema, envie para nós no e-mail: contato@literalmenteuai.com.br. Esse espaço é dos leitores. 

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