Uma protagonista precavida

Por: Roberto Marcio

“Conta uma… Por favor, papai!” – gritava Clara. “A mamãe sempre contava uma história legal!” – insistia, agitada, enquanto o pai fechava a janela. Ernesto já pressentia que ela não iria dormir enquanto não ouvisse a desejada história. A jornalista Ariele, sua ex-esposa, constantemente precisava passar temporadas no exterior como correspondente de um canal de TV (aliás, essa fora uma das causas do divórcio). À medida que constatavam que a vida a dois não mais teria futuro, tanto Ernesto quanto Ariele arquitetavam opções para oferecer o melhor à filha, que cada vez passava mais tempo com o pai. 

Já que naquela noite Ernesto estava certo de que Ariele não conseguiria voar de Tóquio até lá para exercer seu insubstituível papel de contadora de histórias, ele inferiu que sua única alternativa seria assumir o papel. Certo de que não levava jeito para contar ou criar uma história, resolveu pegar um livro infantil e ler para sua ouvinte de oito anos de idade. Na estante, aleatoriamente escolheu um e o abriu.

A sorte o guiou até o clássico “Chapeuzinho Vermelho”. Lembrou-se de ter ouvido o conto na infância, lido por sua mãe. Deu início à tão esperada leitura: “Era uma vez, numa pequena cidade, uma menina de olhos negros e louros cabelos cacheados…” E seguiu adiante até o trecho que mencionava que a avó de Chapeuzinho vivia sozinha numa casa na mata. “Papai, ouvi na TV que não podemos abandonar os mais velhos. A avó de Chapeuzinho Vermelho não ficou abandonada? A família não devia estar mais perto dela?” – questionou Clara. Ernesto queria prosseguir, “Espera o papai acabar a história…”. 

Então leu a parte em que a mãe mandou Chapeuzinho Vermelho à floresta levar comida para a avó adoentada: “Um dia, a mãe da menina preparou algumas broas das quais a avó gostava muito, mas quando acabou de assar os quitutes, estava tão cansada que não tinha mais ânimo para andar pela floresta e levá-las para a velhinha…” E assim a mãe incumbiu a filha de levar a cestinha de quitutes até a avó, adentrando a mata cerrada e escura. Clara interrompeu. “Papai… todo mundo fala que criança não deve sair sozinha nem ir para lugares desertos, pode aparecer gente perigosa tentando enganar a gente. Será que a mãe de Chapeuzinho não sabia? Muito estranho!” Na falta de uma justificativa plausível, o pai tentou desviar o foco: “É isso mesmo, tem que ter cuidado. Mas agora vamos prestar atenção…” Entretanto, não esperando o pai terminar a frase, Clara gritou: “Tem que usar máscara quando a gente sai na rua! Ela não tinha medo de pegar um vírus e morrer?” A única reação que ocorreu a Ernesto de imediato foi dizer que naquela época não havia muitos vírus, o que parece não ter convencido a esperta ouvinte.

Um pouco mais adiante, um perigoso momento. “A menina ia por uma trilha quando, de repente, apareceu-lhe um lobo enorme de pelo escuro e olhos brilhantes. Olhando para aquela menina, o lobo pensou que ela devia ser macia e saborosa. Queria mesmo devorá-la num bocado só.” Ernesto, ciente de sua inabilidade para narrar, tentava colocar uma entonação que causasse suspense ou emoção. Antes que continuasse a leitura, foi interrompido pelo protesto: “Tudo muito errado, papai. Não te falei? Criança não deve ficar andando sozinha. Tem muita gente má, igual a esse lobo aí.” Explicando à Clara que é conhecedor dos perigos que rodeiam crianças, Ernesto mais uma vez prosseguia. E narrava a cena do Lobo, ao se aproximar da inocente Chapeuzinho. “Papai, espera aí! Essa menina é burra demais. Ela não tinha medo de andar sozinha e falar com estranhos? Ninguém tinha nenhum tipo de cuidado naquela época?” “Mas, filha,” – tentava contornar a situação – “isso é só uma historinha, não se preocupe.” 

A partir dali a menina se rebelou e colocou a boca no trombone: “Todo mundo na Internet tá ensinando que é perigoso sair e falar com estranhos. Tem pedófilos por aí, papai!”. Subitamente chocado com o conhecimento revelado da filha por meio de um vocábulo (até então) restrito aos adultos, Ernesto, sem graça, mais uma vez tentou desviar a atenção. “Mas talvez naquele tempo não tinha nada disso, né?… Ou talvez não tivesse Internet nem TV, e as pessoas não ficavam sabendo de nada.” Porém, a garota, antenada e sagaz, protestou: “Para tudo! Não quero mais essa história. Não gostei! Nas histórias que a mamãe contava, todo mundo era mais esperto e ligado. Até os bichos tomavam cuidado, usavam máscara contra o coronavírus, e não deixavam seus filhos saírem sozinhos e falarem com estranhos. Ah, e não abandonavam os idosos!”

Sem argumentos para debater, o pai concordou e resolveu tentar inventar uma nova história! Sentindo o calor causado pela inusitada discussão, abriu a janela e a deixou entreaberta. 

O texto é uma cortesia do escrito e professor de inglês, Roberto Marcio. Agradecemos sua confiança! Se você também tem um texto especial, uma crônica, conto ou poema, envie para nós no e-mail: contato@literalmenteuai.com.br. Esse espaço é dos leitores. 

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