Sobre encontros

Ela passa as mãos pelos seus cabelos que um dia já formam compridos e negros como a noite. Hoje, estão curtos e em alguns pontos é possível ver a sua cabeça de tão poucos que eles se tornaram. A neve ao entardecer da vida, fez com que a cor dos seus cabelos agora seja cinza. Seus olhos já não têm o brilho que tinham até a alguns poucos meses atrás. 

Acordou cedo, mas não sabe o que fazer com as longas horas do seu dia. Sua vida parece vazia e os dias sem graça. O que fazer com esse dia de hoje? 

Vai para o jardim cuidar das suas flores. Morar sozinha nunca foi um problema na sua vida, sempre teve a casa cheia de amigos e parentes, pois quando se sentia só bastava, ligar que eles apareciam. Mas hoje já não é mais assim. Hoje só dá pra conversar e ter contato com as pessoas através das máquinas. No início não foi tão ruim, mas agora que um tempo já se passou, não é mais legal. As pessoas foram se afastando, os encontros virtuais foram se tornando cada vez mais raros, as ligações mais distantes.

Sente falta de abraçar alguém. De sentir o calor e a energia vindos de outros corpos. Sente frio. 

Começa a conversar com suas plantinhas, como sempre. Elas sempre alegraram a sua vida, mas agora percebe que por mais que receba a beleza das suas flores, elas são frias. 

De repente, leva um susto ao ver um arbusto se mexer. Opa! Mexeu novamente. Ela se aproxima devagar, bem devagar…um gato! Um gato desses que parecem de rua, sujo, assustado e com cara de faminto. O que ele faz por aqui? 

– Vem aqui, não vou te fazer mal. 

Ele ameaça ir embora e ela resolve mudar sua estratégia. Vai até a cozinha, pega um pires e coloca um pouco de leite. 

– Você deve estar com fome. 

Nunca gostou muito de animais, principalmente dos gatos. Mas aquele momento tornava tudo diferente. Devagar ela toca o seu pelo negro como os seus cabelos de outrora. Ele a olha nos olhos com seus olhos verdes penetrantes e ela se arrepia. A meses não sentia a profundidade do olhar de ninguém. 

– Você é quente, tão quentinho. 

Pega o gato no colo e o abraça…ah…o abraço que tanto precisava. Parecia que ela estava acordando de um sonho ruim. O telefone toca e ela entra para atender com o gato nos braços. 

– Oi tia Ana! Estou ótima! Lembra quando você me disse que ninguém merece viver só? Pois é, meu companheiro acabou de chegar. 

O texto é uma cortesia da escritora Jaqueline Rolim. Agradecemos sua confiança! Se você também tem um texto especial, uma crônica, conto ou poema, envie para nós no e-mail: contato@literalmenteuai.com.br. Esse espaço é dos leitores. 

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