Tudo aquilo que eu não disse – Duas Garotas. Uma Carta | Kathryn Hughes

 Ouvi uma vez que quando somos presenteados (ou no meu caso, uma colega de trabalho gentilmente empresta) com um livro significa que seu tema será importante para nossa vida em breve, uma espécie de premonição. Tudo aquilo que eu não disse fala, principalmente, sobre escolhas e recomeços. A afirmação sendo verdadeira ou não, eu preferi vestir a carapuça.

O romance da britânica Kathryn Hughes é ambientado em Manchester, na Inglaterra em três períodos diferentes: em 1939, um pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, na década de 70 e nos dias atuais.

A narração nos leva para cenários frios e sem esperança no sudeste de  Manchester, para os Estados Unidos e para o frescor da Irlanda e sua culinária, tudo em um vai e vem muito bem costurado.

Na narrativa, Chrissie Skinner é uma doce jovem de 19 anos que vive na Inglaterra em 1939 sob a vigilância rigorosa do pai, o médico Samuel Skinner, e a companhia da mãe. Em um movimento comum pra sua idade, ela se apaixona perdidamente pelo também jovem Billy Stirling.

Parte clichê da historia, o romance dos dois não é aprovado pelo pai de Chrissie que odeia Billy por considerá-lo um homem inadequado para sua filha, devido seu nível socieconômico e sua origem humilde e desconhecida por ter sido adotado ainda bebê. O sentimento de Dr. Samuel Skinner em relação ao romance e qualquer fruto dele foi decisivo para o desenrolar da história.

Na outra ponta da história, 34 anos mais tarde, temos Tina Craig, jovem que vive na mesma Manchester, com seu violento esposo Rick. O relacionamento dos dois é destrutivo e as narrações são sufocantes:

“Desta vez ia morrer, disso tinha certeza. Ela sabia que só tinha mais alguns segundos, e rezou em silêncio para que o fim chegasse rápido. Podia sentir o sangue quente e pegajoso escorrer em sua nuca. Ouvira o barulho repugnante de seu crânio rachando quando marido bateu com sua cabeça contra a parede.”

A permanência de Tina nessa relação extremamente abusiva foi responsável por causar a ela perdas importantes e assim como o sentimento do pai de Chrissie, foi decisivo para o encontro das tramas.

A história dessas duas mulheres é conectada por uma carta escrita em setembro de 1939. A carta não chegou ao destino, mas ao chegar às mãos de Tina causou inicialmente muita dor, mas também serviu como fonte de motivação em meio ao sofrimento.

Tina assume o desafio de localizar o destinatário da carta e, em um esboço da jornada do herói, embarca em uma verdadeira aventura para cumprir seu objetivo. Ela viaja para Irlanda, faz amizades e se permite distanciar da sua tragédia.

Sem que Tina percebesse, a procura fazia parte do seu processo de cura.

O desfecho da busca além de consolo para famílias, trouxe a oportunidade de recomeço para todos que tiveram a vida impactada pelo extravio (acidental ou não e pra descobrir você precisa ler o livro) da correspondência. A história também se encerra com uma carta:

“Entre risos e lágrimas, Tina levou a carta ao coração. Há muito tempo, um jovem na flor da idade escreveu uma carta. Se ele não tivesse feito aquilo, Tina não estaria parada ali, prestes a iniciar uma nova vida.”

O livro Tudo aquilo que eu não disse, nos leva a refletir sobre laços familiares, escolhas, perdas, amor e o meu item preferido, recomeços.

O livro mostra que às vezes a vida pode dar uma segunda chance de dizer o que não pudemos no passado. Ainda que não sejamos os mensageiros.

Tudo aquilo que eu não disse – Duas Garotas. Uma Carta é uma publicação da editora Astral Cultural.

Agradecemos imensamente a publicitária Raquel Sales, que gentilmente cedeu essa resenha literária.  

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