O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício. 
(Martin Luther King)

É assim que começamos a resenha do livro dois dos ‘Tempos do Ouro”, “A história de Malikah”, da escritora mineira Marina Carvalho. Marina é nossa escritora do mês de dezembro, confira aqui. E neste segundo livro da série “Nos tempos do Ouro”, ela vai nos apresentar à história da agora ex-escrava Malikah e como ela sofreu a vida inteira com os efeitos odiosos da escravidão. 

Malikah foi trazida ao Brasil muito novinha sofrendo as agruras de um navio negreiro. E neste ponto, assim como em muitos outros, Marina merece parabéns. Ela soube relatar muito bem, mesmo este não sendo o foco principal da sua história, o sofrimento e as péssimas condições a que os africanos foram submetidos até chegar nas colônias. Junto com a mãe, Adana, a assim que chega ao país logo é comprada pelo cruel Euclides de Andrade, um dos maiores dono de escravos das Minas Gerais.

Tão logo Malikah fica órfã, depois de presenciar sua mãe ser chicoteada até a morte no tronco. Sozinha no mundo, ela encontra consolo na amizade que começa a surgir entre ela e Henrique, o sinhozinho branco, filho de Euclides de Andrade. Juntos, os dois vão crescendo e se tornando cada dia mais cúmplices, sem perceber que, os poucos, nascia ali um grande amor. Claro que a vida e Euclides dariam logo um jeito de separar os dois, mas já havia ali o fruto da paixão, um filho.

Este segundo livro começa dois anos após os acontecimentos do primeiro, onde Malikah, agora livre, vive feliz com seu filho Hasan na fazenda de Fernão e Cécile. Por lá também está Henrique, que rompeu os laços com o pai e agora quer, mais que tudo na vida, o perdão de sua amada e construir uma família com ela. A ex-escrava, porém, vive uma luta interna diária: ao mesmo tempo que tem raiva de Henrique por tudo que ele a fez, ela o ama com todas as forças e sonha com ele o tempo todo.

Dividido entre capítulos no passado, que relatam o crescimento de Malikah e capítulos no presente, mostrando sua rotina e sua luta por não deixar transparecer seu crescente amor por Henrique, a narrativa é muito ágil e o livro flui rapidamente. Além disso, a história ainda é cheia de acontecimentos engraçados, aventuras e, claro, muitos momentos recheados de paixão e amor. Um livro doce, super leve e gostoso, que nos traz como principal mensagem que o perdão pode ser o princípio de uma vida absurdamente feliz.

Ahh, vale destaque para os versos de poemas, canções e orações consagrados inseridos antes de cada capítulo. Uma delicadeza incrível da escritora. Acrescento ainda, que uma canção dos escravos que é cantada no livro enquanto as escravas lavavam roupa na beira do rio causou em mim um efeito inesperado. Senti uma identificação tão forte com a letra da música, que até pude ouvi-la enquanto lia. Foi como se eu tivesse me transportado pra outra época. Uma época em que era eu que cantava aquela cantiga na beira do rio. Foi uma memória, eu senti, tive certeza na hora. Foi coisa de outra vida.

Muriquinho piquinino,muriquinho piquinino,/ Ô parente,/ De quissamba na cacunda./ Purugunta onde vai, purugunta onde vai,/ Ô parente,/ Pro Quilombo do Dumbá.

Marina Carvalho é a nossa escritora do mês do dezembro. Se você também tem um escritor nacional preferido indique ele para autor do mês. 

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