Pequeno Manual Antirracista ensina a combater o racismo nosso de cada dia

Não é surpresa que, em 2020, o livro mais vendido no Brasil tenha sido Pequeno Manual Antirracista, segundo a Amazon Brasil. Cria da filósofa e pesquisadora Djamila Ribeiro, a obra surge em um momento que, se por um lado nos surpreendeu com a pandemia do novo coronavírus, por outro não nos deixou esquecer de que o racismo segue arraigado nas entranhas brasileiras.

Há dúvida? Que tal a denúncia por injúria racial apresentada pela prefeita de Ilhabela? A professora acusada de furto ao guardar compras em ecobag, em Curitiba? Ou um guia turístico de famosos que afirmou que a jornalista Maju Coutinho só estaria na TV “pela cor”? A lista é sem números, mas vou finalizar com o assassinato de um homem negro em um supermercado de Porto Alegre às vésperas do Dia da Consciência Negra.

Eu aposto que você é racista

Ao longo de 120 páginas que fazem jus ao título de tão compactas e, em contrapartida, geram surpresa pela grandeza de conteúdo em pouco espaço, a também autora de O que é lugar de fala? (2017) e Quem tem medo do feminismo negro? (2018) debruça sobre o racismo enquanto processo histórico de maneira fluída e didática. Uma das questões-chave, o Pequeno Manual Antirracista é necessário a todos, mas, principalmente, às pessoas que esbanjam privilégios em nossa sociedade, os brancos.

Em um de seus relatos iniciais, a autora afirma que “o início da vida escolar foi para mim o divisor de águas: por volta dos seis anos entendi que ser negra era um problema para a sociedade […] ser a diferente – o que quer dizer não branca – passou a ser apontado como um defeito. Comecei a ter questões de autoestima, fiquei mais introspectiva e cabisbaixa. Fui forçada a entender o que era racismo e a querer me adaptar para passar despercebida.” Ao final do parágrafo, Djamila cita a pesquisadora Joice Berth, pois “não me descobri negra, fui acusada de sê-la”.

E é com sentimento de revolta e culpa por reproduzir o racismo em diferentes escalas – acredite, você é racista – que o leitor encara a obra, se perguntando como nunca parou para refletir sobre usar expressões do tipo “minha inveja é branca”, “cabelo ruim”, “cor do pecado” ou “preto de alma branca”. Ou como nunca analisou sobre os papéis que são dados aos negros nos canais de entretenimento – aqui alternam entre palhaços, fortemente sexuais ou de empregados braçais –, sem contar o protagonismo de negros e negras no sistema penitenciário brasileiro ou a falta dessa participação nas escolas e universidades.

A filósofa faz uso de múltiplas referências nos 11 capítulos contundentes, mesclando opinião com informação embasada cientificamente e pesquisas próprias. São eles:

  • informe-se sobre o racismo;
  • enxergue a negritude;
  • reconheça os privilégios da branquitude;
  • perceba o racismo internalizado em você;
  • apoie políticas educacionais afirmativas;
  • transforme seu ambiente de trabalho;
  • leia autores negros;
  • questione a cultura que você consome;
  • conheça seus desejos e afetos;
  • combata a violência racial;
  • sejamos todos antirracistas.

Pecando pelo excesso de dados, continuo a crítica – já não sei mais se ao livro ou ao racismo  – informando que a maior parte dos brasileiros são negros (54%) mas, quase 96% dos parlamentares são brancos. Além disso, a cada 23 minutos um jovem negro é vítima de assassinato no país do futebol.

Minha primeira referência ao ver a capa foi a fala da filósofa e militante Angela Davis, de que “numa sociedade racista não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

Para tanto, inúmeras medidas são imprescindíveis, a começar pelo questionamento do espaço que os negros ocupam em nossa sociedade. Em um restaurante, quantas pessoas sentadas às mesas são negras e quantas servindo você, são brancas?  Se você trabalha em RH, por exemplo, quantas pessoas negras concorrem às vagas habitualmente? Quantas foram dispensadas mesmo tendo qualificação? No seu trabalho, quantos profissionais são negros?

É preciso que se tenha cada vez mais debates e conscientização acerca do tema, é necessário lembrar de pessoas negras por suas especialidades, não apenas para contarem como têm posições de destaque “mesmo” sendo negros.

Assim como acontece com quem busca combater o alcoolismo, para ser antirracista é preciso que se assuma o racismo internalizado em nós mesmos. Assuma o racismo e assuma a posição incômoda de lutar contra ele, de reconhecer os privilégios. Escute, apoie, lute.

Com certeza você ouvirá que é “mi mi mi” ou será convidado a “descansar enquanto militante”. Quando isso ocorrer, lembre-se da fala de Djamila Ribeiro de que “o batimento cardíaco do racismo é a negação”.

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