Há menos de um ano, Belo Horizonte ganhou um espaço especial dedicado aqueles que buscam o contato literário com a temática africana e a afro brasilidade. A ideia é da jornalista Etiene Martins que, cansada de procurar e não encontrar os escritores negros nas livrarias tradicionais, decidiu criar a Bantu, livraria dedicada a promoção da literatura negra. O nome da livraria é inspirado no povo africano, responsáveis pela criação de mais de 600 línguas, incluindo o português.

Etiene começou com a Bantu sem um espaço físico, trabalhando apenas em eventos literários e da questão racial na cidade. Em 2016, inaugurou a sede da charmosa livraria, com um acervo que contempla todos os gêneros literários muito bem representados por escritores de vários continentes, inclusive escritores de outras etnias que trataram da questão racial em suas obras. Como leitora, Etiene conta que tinha muitas dificuldades para encontrar esses livros nas livrarias tradicionais. Hoje, enquanto livreira, ela sabe que as editoras detêm esses livros, mas sob a alegação de que não há mercado, essas obras não estão nas vitrines e nos estoques. É o caso do livro “Um defeito de cor” da escritora Ana Maria Gonçalves, um dos campeões de pedidos na livraria. Os leitores procuram a Bantu, alegando a ausência da obra no mercado, o detalhe é que o livro já está na 14º edição e nunca esteve esgotado na editora.

A Bantu é referência em literatura negra e isso se reflete nos frequentadores da livraria, que vai desde militantes do movimento negro a professores de outros estados que não tem tanto acesso a literatura negra de uma forma mais ampla e específica, amantes da cultura negra, negros que querem conhecer a história, universitários, alunos e professores de Minas. Todos que se interessam pela cultura afro encontram na Bantu a representatividade histórica ausente na literatura brasileira. Se é difícil identificar escritores e escritoras negras nas vitrines das grandes livrarias, é mais difícil ainda identificar personagens negros nos grandes sucessos literários de 2017, por exemplo. Isso nos leva a uma questão extremamente importante, a ausência da literatura de massa no combate ao racismo. Lembrando que o autor tende a refletir nas suas histórias as suas vivências, experiências, trajetórias e outras circunstâncias decorrentes da sua cultura e do seu ambiente. Conhecer as obras de diversos escritores ajuda na disseminação de outras culturas, na quebra de preconceitos, na formação de uma opinião crítica e numa visão mais apurada da realidade, inclusive a do próprio país.

Por isso a literatura na primeira infância é tão importante na formação de um leitor sagaz. Na Bantu as crianças negras podem se enxergar enquanto príncipes e princesas em histórias infantis. As crianças terão contato com a cultura africana, a religião e a música sem o pré-conceito que muitas vezes, ao longo do tempo se transforma em racismo. “Ela não vai olhar para o cabelo de uma criança depois de ler um “Chico Juba” e ter a coragem de falar que o cabelo do coleguinha é ruim. Ela vai entender que o cabelo não é ruim, apenas crespo, diferente do meu porque ele é de uma etnia diferente”, ressalta Etiene.

Ela acredita que a literatura não vai vencer o racista, mas que podemos formar novas pessoas com conceitos diferentes, a partir de uma leitura eclética e livre de preconceitos. Para o leitor, a Bantu mostra que existem milhares de autores negros, para serem lidos e aclamados e que a literatura negra vai muito além de Machado de Assis. Ah! Não sabia que ele era negro? Pois bem, está na hora de fazer uma revisão na sua biblioteca e dar uma passadinha na Bantu. 

Um leitor ávido geralmente escolhe a sua leitura pela capa ou pela história, mas vamos fazer um exercício rápido: Quantos livros você leu este ano? Quantos destes livros tinha algum personagem negro? Quantos escritores negros você leu? Se assustou com as respostas? Eu também! Por isso decidimos dar uma ajudinha para você virar esse jogo e conhecer 10 escritores negros que nós, LiteralMente indicamos, Uai!

Madu Costa: Literatura infantil de qualidade é com a mineira Madu. Ela é professora e já tem 11 títulos publicados. Destes, 8 tem personagens negros, contribuição da escritora como cidadã e mulher negra para preencher essa lacuna histórica na literatura. Destacamos para as crianças “Meninas negras” (2010) e “Cadarços desamarrados” (2009). E para os adultos “Zumbis dos Palmares – Em cordel”(2013).

Jim Anotsu: Não se engane pelo nome internacionalizado. Jim é mineiro e já tem 10 livros publicados. Escreve para os adolescentes os gêneros fantasia urbana, new weird e pop. Destacamos os livros “A morte é legal” (2012) e “Annabel & Sarah” (2010), obras de Anotsu que você precisa conhecer.

Geni Guimarães: A simplicidade e a força da escritora paulista Geni Costa. Ela é poetisa e traz nas suas obras a própria realidade, abordando temas como o racismo, ser mulher na sociedade, sobretudo mulher negra. Indicamos “A cor da ternura” (1997), um livro que conta um pouquinho da história real da escritora Geni, em uma infância pobre, sofrida, permeada de preconceito, mas que passa uma mensagem tão linda e uma grande lição de humildade sobre como viver com ternura em um país racista. Veja resenha 

Carolina Maria de Jesus: Conhecida pelo livro “Quarto de despejo – Diário de uma favelada” (1960), Carolina nasceu em Minas Gerais, mas foi em São Paulo que viveu grande parte da sua vida. Moradora de favela, ela colocou em um diário detalhes do seu dia a dia sofrido como catadora de papéis, e as dificuldades para sustentar a si e aos seus três filhos. Amante da literatura, ela lia tudo o que recolhia do lixo. Carolina publicou 8 livros, muitos deles após a sua morte em 1977.

Lázaro Ramos: Engana-se quem achou que a sua estreia na literatura foi com o livro “Na minha pele” (2017). Além de ator, cineasta e apresentador, Lázaro já tem 2 livros publicados voltados para o público infantil: “A velha sentada” (2010) e “Cadernos de rimas do João” (2015)

Alice Walker: A escritora americana, antes de mais nada é conhecida pela luta pelos direitos dos negros e das mulheres. Seu livro de maior destaque é o premiado romance “A cor púrpura”, que inclusive já virou filme estrelado pela atriz Whoopi Goldberg, com direção de Steven Spielberg.

Bento Balói: É um jornalista africano. Já publicou diversos artigos literários. “Recados da alma” (2017) é o seu romance de estreia.

Lima Barreto:  Jornalista e escritor, o carioca publicou 12 livros. Por explorar em suas obras as injustiças sociais que sofreu durante toda a sua vida, Lima foi muito criticado na época. Homenageado da FLIP 2017, é até difícil destacar as suas obras. Destacamos é o “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1915) porque precisamos dar uma chance aos clássicos. 

Chimamanda Ngozi Adichie: Certamente uma das escritoras mais reconhecidas da atualidade. É nigeriana, feminista e além de escritora, também faz palestras mundo afora. Seu livro mais conhecido é o “Hibisco Roxo” (2003). Tem resenha aqui de outro sucesso da Chimamanda, “Sejamos todos feministas” (2014).

Conceição Evaristo: Uma das maiores representantes da literatura brasileira na atualidade. Escritora e poetisa mineira, aborda em suas obras o racismo e a condição da mulher negra no Brasil. Conheça “Ponciá Vicêncio” (2003).

Se for procurar algum dos livros citados, já sabe onde encontrar.

A livraria Bantu fica no coração de BH, na avenida dos Andrades, 367, Centro.

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