Dia de chuva não poderia ser dito, nem de longe, como um dia qualquer, apenas mais um dia. Não, de jeito nenhum. Agora, pra quem pega ônibus, definitivamente, não é um bom dia. Pegar transporte em dia de chuva exige uma calma sem igual, leveza de espírito, paciência de Jó. É como pagar os pecados ainda em vida. Você deve estar aí pensando: ‘nossa, que exagero’, se pensou isso é porque nunca viveu essa experiência.

A jornada de redenção já começa do lado de fora do busão, porque rapaz, pensa num trem que demora. Parece que os carros brotam do chão. Antes da chuva mil, depois, meio milhão, aí o trânsito fica uó. A sensação que tenho? Que meu ônibus, que passa pela Praça da Liberdade, dá umas duas voltas lá em Nova Lima, antes de chegar. Parece que o motorista pensa assim: ‘já que vai demorar mesmo, vou em casa jantar’. E aí, nessas três horas que você está no ponto, toda bondade do seu coração já se esgotou. O ponto de ônibus é um caso a parte. As pessoas que já são, geralmente, sem bom senso, se superam. Aquela cobertura de chuva cabe três pessoas, se tiver três pessoas e um cachorro, alguém tem que ficar de fora, porque o dog não pode molhar. Tem gente que chega, olha pra paradinha com 59 pessoas debaixo e pensa: ‘a não, me cabe também’. É um tal de chegar com um raio de uma sombrinha que esconderia metade de Minas Gerais e parar na sua frente, que não tenho palavras pra descrever o ranso que dá. Eu olho pra aquela sombrinha tampando minha visão do ônibus – que nesse momento já está 12 dias atrasado –  e penso que se eu perder o busão, mano do céu, eu sou capaz arrancar o pano daquela sombrinha e usar de mordaça na pessoa.

Quando o ônibus vem chegando é outra história. A começar que o motô não tem a delicadeza de encostar o máximo que puder para que as pessoas se molhem um pouco menos, não meu amigo, ele para lá na PQP pra você ter que andar meia maratona debaixo da chuva. Quando tu entra, lá no fundinho do olhar dele dá pra ver a satisfação, aquela  leve ruguinha de riso no canto da boca. Na porta, enquanto espera pra entrar, você descobre a sua capacidade de pensar em dezenas de coisas diferentes ao mesmo tempo. Tem que segurar a bolsa na frente pras mãos leves não acharem seu celular interessante e optarem por ficar com ele. Tem que segurar a sombrinha aberta, que nesse instante já tem uns 13 desconhecidos debaixo, e, detalhe, a pessoa não só se esconde com você como ela ainda te abraça. Não pode esquecer de se desviar dos ‘fincos’ dos guarda-chuvas que só vêm no seu olho. E, claro, já ir entendendo que não importa o que você faça, você vai se molhar. Ainda tem o principal pensamento: conseguir uma vaga lá dentro.

Aliás, o interior de um busão em dia de chuva também é um caso à parte, porque se lá fora tá frio e molhado, lá dentro é a própria comprovação que existe um inferno. As janelas todas fechadas, porque tem uns dodóis que já estão molhados até a alma, mas não podem receber mais um respingo sequer, com isso, fica um calor tão surreal que se o capiroto entrar lá dentro, vai se sentir mal. Lugar pra sentar, só que não. Jeito de se mexer, capaz.  E assim a gente vai, pedindo a Deus pra que só chova entre meia-noite e cinco da manhã.

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