Clara dos Anjos, um clássico da literatura nacional que não pode passar despercebido

Quando falamos em clássicos da literatura nacional, principalmente entre os leitores mais novos, raros os que citariam Clara dos Anjos, do brilhante escritor Lima Barreto, datado do início dos anos 1900, em sua lista de leitura ou entre os favoritos. Isso porque, o escritor negro, que lutava contra o racismo e a desigualdade, fazia duras críticas a alta sociedade em suas obras, sendo assim preterido pelos círculos literários durante vários anos. 

Mesmo com uma vasta experiência literária, eu só conheci Lima Barreto, e a riqueza de sua obra, em 2017, quando foi um dos homenageados da Festa Literária Internacional de Paraty e teve seu nome e suas obras amplamente divulgadas, apesar de assinar um grande clássico, Triste Fim de Policarpo Quaresma (ainda na minha lista de leitura).

Em Clara dos Anjos, o autor não foge à regra e aborda, entre outras questões, a exclusão,  desigualdade e injustiça sociais, corrupção, racismo, discriminação da mulher negra, machismo, com cenas icônicas, que nos faz perceber como avançamos pouco enquanto sociedade, e como Lima Barreto foi brilhante e visionário. A visão social que emprega em suas obras é muito importante para entendermos a conjectura social da época. 

“Por este intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias, noutros pontos do Rio de Janeiro.” (pág.95)

Os conflitos da história são tão atemporais que assustam, assim como a grande parte da realidade daquela época se perpetua ainda hoje.

A descrição da vida nos subúrbios cariocas, como aquelas pessoas foram parar lá e nada foi feito para melhorar a situação delas. Como o governo da época tratava as pessoas que faziam cultura, em especial os poetas. Como as pessoas ricas conseguiam se safar de práticas criminosas e como o jeitinho brasileiro, se consolida negativamente nos mais diversos campos sociais. 

“De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssima seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedicados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram.” (pág.20)

É um texto ácido e contundente. As descrições e a distinção de personalidade de cada personagem são marcantes, apesar de que as mulheres seguem a tônica da fragilidade e “inocência”, principalmente ao se referir a nossa protagonista, em vários momentos, como:

“A filha do carteiro, sem ser leviana, era, entretanto, de um poder reduzido de pensar que não lhe permitia meditar um instante sobre o seu destino, observar fatos e tirar ilações e conclusões. A idade, o sexo e a falsa educação que recebera tinham muita culpa nisso tudo; mas a sua falta de individualidade não corrigia a sua obliquada visão da vida.” (pág.117)

Mas nada se compara a apresentação do malandro/criminoso Cassi Jones. São pelo menos 10 páginas descrevendo sua aparência, caráter e crimes cometidos. Sim! Cassi era um criminoso contumaz, sob a carapuça de sedutor, era inconsequente, capaz até de matar, para satisfazer suas futilidades. 

“Se já era egoísta, triplicou de egoísmo. Na vida, ele só via o seu prazer, se esse prazer era o mais imediato possível. Nenhuma consideração de amizade, de respeito pela dor dos outros, pela desgraça dos semelhantes, de ditame moral o detinha quando procurava uma satisfação qualquer. Só se detinha diante da força, da decisão de um revólver empunhado com decisão…” (pág.35)

A protagonista da história é a jovem Clara dos Anjos, porém, o autor brilhantemente inclui e destaca vários tipos bem brasileiros, com suas vivências, experiências e dubiedades. Personagens que representam e evidenciam um pouco da formação do nosso povo. 

Os muitos detalhes da leitura Clara dos Anjos, seja nas descrições dos cenários, seja nos trejeitos dos personagens, em seus dilemas morais, não passam despercebidos e contextualizam as críticas sociais, e reforçam ainda mais a marca da escrita de Lima Barreto. 

Seguindo a história, apesar da rede de proteção, montada para tentar livrar Clara das garras de malandros como Cassi, ela infelizmente será uma das vítimas dele e finaliza sua saga, após ser humilhada pela mãe do cafajeste, com uma das frases mais impactantes e significativas da literatura nacional: “Nós não somos nada nesta vida”.

Vale demais a leitura, principalmente de uma edição com texto integral como a da Editora Gutemberg

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