6 motivos para conhecer a Casa dos Quadrinhos em BH

Prestes a completar 20 anos, e apoiadora do principal evento de quadrinhos na América Latina, o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), a Casa dos Quadrinhos recebeu a equipe do LiteralMente, UAI para um bate-papo sobre a sua história, o cenário mineiro de arte sequencial e gramática visual.

Confira abaixo alguns motivos pelos quais vale muito a pena conhecer a escola, que já se tornou referência na indústria criativa mineira.

Alfabetização visual

“Uma imagem vale mais do que mil palavras”. Esse antigo provérbio define bem a importância da figura na história da humanidade, sobretudo para a sociedade contemporânea. Uma das primeiras formas de comunicação do homem se deu, justamente, por meio de pinturas e desenhos nas paredes das cavernas. Milhares de anos depois, essa forma de arte ainda está presente no nosso dia a dia. Mas além de ver apenas um desenho, você sabe interpretar de forma crítica uma imagem?

Martin Scorsese, um dos cineastas mais renomados de Hollywood, questionou em uma entrevista concedida em 2006 para a Edutopia, canal da organização americana George Lucas Educational Foundation, que a alfabetização visual deveria ser ensinada nas escolas, além do tradicional conteúdo letrado. “Quando comecei a entender melhor o que era fazer filmes, eu estava começando a entender que se usam certas ferramentas que fazem parte de um vocabulário tão válido quanto o que é usado na literatura […] A história precisa ser ensinada, e a alfabetização visual também”, declarou o diretor na época.

Defendendo essa aprendizagem da gramática visual, a Casa dos Quadrinhos surgiu no cenário belo-horizontino em dezembro de 1999 e trouxe para o público mineiro os ensinamentos sobre composição, harmonia, luz e sombra, para ser aplicado em todos os conteúdos visuais. Segundo Cristiano Seixas, diretor da escola desde a sua fundação, todos podem aprender sobre desenho. “Qualquer um pode desenhar. Se a pessoa sabe escrever o próprio nome, ela consegue desenvolver qualquer base para o desenho”, afirma.

Cristiano Seixas – Crédito: Elis Souza

Para a quadrinista e ilustradora Carol Cunha, professora de roteiro, narrativa e história em quadrinhos, a leitura de uma imagem é tão importante quanto a leitura textual quando se trata de narrativas gráficas. “A disposição dos personagens nos cenários, o formato dos quadros e dos balões, até mesmo a aparência da fonte utilizada para escrever o texto, cada um desses elementos traz uma camada de significados adicionais que muitas vezes podem até mesmo mudar o significado da história, indo muito além daquilo que é expresso no texto escrito”, afirma.

Carol ainda utiliza a graphic novel Batman: Asilo Arkham como exemplo para descrever as formas de interpretação em um quadrinho. “O autor Grant Morrison, em parceria com o ilustrador Dave McKean, criaram algumas características visuais para reforçar aspectos das personalidades do Batman e do Coringa. O Homem Morcego é praticamente uma silhueta escura, seus balões são pretos e brancos, trazendo a ideia de um personagem depressivo e taciturno enquanto o vermelho e o verde se destacam no Coringa, seus diálogos são em vermelho e não são contidos por um contorno de balão, a fonte utilizada não tem uma uniformidade de tamanho nas letras reforçando a ideia de que o Palhaço do Crime é alguém maníaco, violento e sem limites. Portanto, compreender essas nuances visuais graças a uma boa alfabetização visual abre o espectro de interpretações possíveis de uma obra”, explica.

Desenvolvimento de habilidades

A Casa dos Quadrinhos é a única Escola Técnica de Artes Visuais em Minas Gerais com foco em artes aplicadas para entretenimento com diploma aprovado pela Secretaria Estadual de Educação.

Curso de Artes Visuais na Casa dos Quadrinhos/Divulgação

Os cursos são elaborados a partir do interesse dos próprios alunos, como o mangá (quadrinho japonês), anime (animação japonesa), computação gráfica 3D, escultura e ilustração digital, além dos já tradicionais cursos de desenho básico, pintura e ilustração publicitária e artística e histórias em quadrinhos. Além disso, a escola ministra palestras, desenvolve workshops e elabora projetos de eventos na área de artes visuais e afins.

Cristiano conta que o perfil dos alunos que procuram esses cursos mudou ao longo dos anos. “Antigamente os alunos eram meninos de classe média que queriam desenhar super-herói, e aparecia um ou outro para aprender sobre pintura. Hoje em dia é totalmente diferente. O público feminino, por exemplo, cresceu absurdamente, o que é ótimo. O que mais cresceu de importante aqui na escola foi essa diversidade”, pontua.

Cenário Mineiro

Segundo Carol, em Minas Gerais, especificamente, existe uma tradição na produção de quadrinhos independentes. “Depois de São Paulo, somos o estado que mais produz quadrinhos independentes no Brasil. Novos artistas são novas vozes para enriquecer essa tradição”, ressalta.

“Parafraseando Neil Gaiman, a importância de novos quadrinista se faz do fato de que cada pessoa é única, e cada uma delas vai criar coisas únicas, reflexos de suas experiências e vivências. Levando isso em conta, é importante darmos uma boa formação para esses artistas, de forma que possam utilizar essa bagagem técnica para dar voz a suas histórias”, completa a quadrinista.

Réplica do Batman na recepção da Casa dos Quadrinhos/Caroll Freitas

Literatura e os quadrinhos

Para muitas crianças, o primeiro contato com a leitura começa através  das histórias em quadrinhos. É um universo literário que atrai a atenção dos pequenos, principalmente pelas ilustrações. A partir daí que começa o primeiro aprendizado sobre alfabetização visual, desperta a criativa, percepção sensorial. Os quadrinhos acabam se tornando uma ponte para o mundo dos livros.

Sob esse ponto de vista literário, Cristiano fala da importância da Casa dos Quadrinhos para a literatura de uma forma geral, tanto para crianças quanto para os adultos. “A parte de roteiro e criação de personagem é a parte que mais dialoga com a literatura. A gente apresenta como criar uma história e, a partir daí, a pessoa vai usar a mídia que ela quiser”, enfatiza.

Já Carol considera os quadrinhos como parte da literatura. “Não vejo uma dissociação tão drástica entre eles e os livros que contém apenas textos. Mas, levando-se em conta que existem diferenças narrativas entre criar histórias apenas com palavras ou apenas com imagens ou através da junção de imagem/texto, pode-se dizer que a relação do autor ou mesmo a relação do leitor é diferente devido aos recursos narrativos empregados”, diz.

“Porém, se considerarmos a literatura apenas como textos escritos (livros), claramente existe uma importância nos quadrinhos, principalmente do ponto de vista temático, seja nas adaptações ou nas inspirações, como, por exemplo, em Sandman, de Neil Gaiman, que bebe da fonte de Shakespeare para criar duas histórias inspiradas nas peças: ‘Sonho de uma Noite de Verão’ e ‘A Tempestade’, trazendo os personagens da série de quadrinhos e o próprio bardo inglês como protagonistas das tramas”, completa

Casa dos Quadrinhos/Divulgação

Professores

O corpo docente da Casa dos Quadrinhos é composto por mais de 15 professores, em sua maioria, com currículos que merecem uma salva de palmas, como o da Carol Cunha, formada em cinema de Animação pela UFMG em 2015, onde realizou o curta Romance Zumbi, selecionado para as mostras Festival Anim!Arte (2015) e 2º Mostra Pajeu de Cinema (2016);

Já Cristiano Seixas é formado em Design Gráfico pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, fez intensivo de cinema pelo New York Film Academy e é mestre em animação digital pelo Art Institute of California.

A ilustradora e quadrinista Rebeca Prado, nossa autora do mês de novembro, também é professora na Casa dos Quadrinhos. Formada em cinema de animação pela UFMG, ela trabalha com ilustração para os mercados editorial e publicitário e é roteirista na Mauricio de Sousa Produções, além de ser autora de vários volumes independentes. Conheça mais sobre Rebeca aqui.

Além da extensa experiência, os trabalhos desses professores já publicados falam por si só. Como é o caso de Calango, projeto dos quadrinistas Cristiano Seixas e Eduardo Pansica. Leia a resenha completa aqui.

Por dentro e por fora

A Casa dos Quadrinhos do Circuito Cultural Praça da Liberdade. O projeto inclui todo o conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade e vários prédios na Avenida João Pinheiro, e tem o intuito de reunir, na área, pólos de divulgação de arte, ciência, cultura popular através de museus, centros de memória, salas de exposição e espetáculos, espaços para oficinas e cursos.

E, falando em exposições, para quem nunca visitou a Casa dos Quadrinhos, fica aqui o convite. A recepção possui diversas réplicas em tamanho real de heróis, como Batman, Homem de Ferro, e também vilões, como a cabeça do tiranossauro Rex e do Thanos, além de outros personagens famosos. É uma espécie de exposição livre que todos podem acessar. Basta se dirigir ao prédio histórico, localizado na Av. João Pinheiro, 277, no bairro Funcionários.

Vem ler outras notícias do universo literário. Clique aqui!

Deixe o seu comentário

comentários

Deixe seu comentário