Casa de Bonecas | Henrik Ibsen

Acredito que alguns livros são encontrados pelos leitores e outros vão de encontro ao leitor. O livro Casa de Bonecas do escritor norueguês Henrik Ibsen, foi um livro que me encontrou de uma forma bastante inusitada.

A nossa história começou quando meu pai juntou uma pilha de livros clássicos para doação e eu mais que depressa peguei todos para ler no meu tempo livre.

Confesso que, ao abrir Casa de Bonecas fiquei um pouco frustrada de ver que a leitura era uma peça de teatro, gênero que não gosto muito, mas achei que valia a pena dar uma chance, ainda mais sendo um livro pequeno e de fácil leitura.

Dividido em três atos, a obra conta a história de Torvald Helmer, um sucedido gerente de banco, casado com Nora Helmer, a esposa modelo que era tratada por Torvald como se fosse uma delicada boneca de porcelana. A princípio Nora é descrita como uma mulher fútil, que gosta de gastar fazendo comprar. Só que esse “gasto” é justificado para pagar um empréstimo, que ela fez, para pagar uma viagem que salvou a vida do marido. Esse feito de Nora, não tem o reconhecimento do marido, pelo contrário, é fruto de uma fraude, já que mulher não poderia fazer empréstimo sem o consentimento de um homem.

Nora, apesar de secretamente forte, é tratada por todos como infantil, sendo sempre pejorativamente chamada no diminutivo pelo marido, e a leitura deles incomoda: Veja alguns: bichinho lindo; cotoviazinha; minha pombinha; menininha; pessoinha engraçada; minha perdulariazinha; meu esquilinho; sua louquinha; desprotegidazinha.

Todo esse tratamento infantilizado e as inúmeras tentativas de agradar ao marido, deixam claro, a tensão desse casamento regido pelas aparências, onde a mulher é sempre o lado mais frágil e fraco.

HELMER: “Meu bem, eu já vi muitos desses casos na minha carreira de advogado. Quase todo criminoso jovem tem uma mãe desonesta.” (pág.77)

A obra se passa em meio as impiedosas convenções sociais que recaiam sobre as mulheres no final do século XXVIII, com a sacralidade do casamento, seu papel na sociedade, e as perspectivas de futuro e independência feminina.

Em um casamento perfeito aos olhos da sociedade, na verdade esconde um dilema da bela esposa recatada e do lar, e uma atitude do passado poderá colocar seu matrimônio em risco.

HELMER: “Antes de tudo você é esposa e mãe”

NORA: “Não acredito mais nisso. Eu acredito que antes de tudo sou um ser humano, exatamente como você é ou, pelo menos, devo tentar me transformar nisso. Eu sei muito bem, Torvald, que a maioria das pessoas lhe daria razão, e que essa é a opinião que se encontra nos livros. Mas eu não posso mais me contentar com a opinião da maioria das pessoas com o que está nos livros. Eu tenho que pensar por mim mesma, se quiser compreender as coisas.” (pág 180/181)

Até onde uma pessoa é capaz de ir para salvar o seu casamento? Durante a leitura tive empatia pela situação de Nora, e vivi junto com a personagem a sua angústia em toda a trama. Sem dar spoiler, a personagem conseguiu me surpreender de tal forma que eu tive vontade de parar a leitura para bater palma por sua atitude.

Se atualmente o livro surpreende pela atitude ousada de Nora, imagina na época em que o livro foi escrito? Foi um escândalo! O livro foi considerado feminista, já que a luz da época, era praticamente impossível uma mulher casada tomar uma atitude tão firme e independente. E é exatamente esse ato, que torna a história tão marcante.

HELMER: “Você me amou como uma mulher deve amar seu marido. Só que você não teve discernimento suficiente para julgar os meios que você usou. Mas você acha que eu querê-la menos só porque você não tem capacidade para agir por sua própria conta? Não, não. Basta apoiar-se em mim, eu a aconselho e a oriento. Eu não seria homem se essa sua inferioridade feminina não a fizesse duplamente sedutora aos meus olhos…” (pág.171)

Casa de bonecas, Et Dukkehjem nome original em norueguês foi escrito por Henrik Ibsen, um dramaturgo também norueguês que começou a escrever a peça em 1878 e finalizou em 1879, ano que teve a primeira apresentação da peça, em 21 de dezembro no Det Kongelige (Royal) Teater, em Copenhage.

O conteúdo gerou muitas polêmicas por conta do seu conteúdo que trazia várias críticas a sociedade, denunciava a exclusão das mulheres e enaltecia sua liberdade. 

O livro foi um sucesso, com a primeira edição esgotada em menos de um mês, se tornando o primeiro sucesso internacional do autor, abrindo portas para sua estreia na literatura mundial.

Maria Luiza Mariano Sarmento escreveu essa crítica para o LiteralMente,Uai! Agradecemos a confiança! 

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