O infamiliar das emoções em Sabendo Que És Minha, de Fabrina Martinez

Eu vivi alguns anos sem saber sobre a lula-vampira-do-Inferno, um animal de aproximadamente trinta centímetros, aparência horripilante e o poder de sobreviver nas regiões mais profundas do oceano com baixa concentração de oxigênio. Deparei-me com sua existência enquanto lia uma história de auto ficção escrita pela autora brasileira Fabrina Martinez, e de todas as metáforas que já li na tentativa de entender o luto, essa sem dúvida é a minha preferida.  Sabendo que és minha, foi publicado em 2020 enquanto a pandemia de Covid-19 ainda estava matando muitas pessoas por dia. E mesmo não sendo essa a inspiração da autora ao escrever o livro, ler sobre o luto em um período em que ele está mais presente do que nunca, foi extremamente significativo.

Nesse livro de cento e quarenta e quatro páginas, conhecemos três personagens de gerações diferentes, que não são nomeadas e que experimentam a frustração constante de ser mulher. A narradora, que se refere às outras como Minha mãe e minha filha, nos apresenta pelo seu olhar a dor e a responsabilidade de superar a morte de uma e se fazer forte para garantir a existência da outra. As expectativas dos demais sobre o tempo aceitável do sofrimento e o extenuante trabalho de informar e consolar as pessoas sobre a morte de alguém querido, não são os únicos tentáculos da experiência do luto para essa mulher. Ela é gorda. GORDA. Assim mesmo, com letras maiúsculas. E enquanto indaga o leitor sobre a capacidade de pronunciar essa palavra sem o uso de eufemismos, ela também nos evidencia o silêncio, medo, vergonha e reprovação que envolve a experiência de ter um corpo malquisto no mundo.

Fabrina Martinez atualmente vive em Marília (SP), mas foi em Campo Grande (MS) que nasceu, viveu alguns anos e se tornou mestre em Literatura pela UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Este livro que começou a ser escrito em 2018 e recebeu um incentivo financeiro em 2019 através de uma bolsa do ProAc – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo – é a novela de estreia da autora que já tinha publicado outros textos em antologias e sites.

A mãe de Fabrina também morreu. Ela também tem uma filha. Mas o que a autora faz nesse texto é construir uma narrativa que permite a identificação de pessoas em vários momentos de perda. Apesar de distinguir as situações específicas que afetam uma mulher que perde sua mãe e enfatizar que só quem passou por isso vai entender como essa dor se manifesta, ela também nos apresenta questões que são compartilhadas por todos ao se deparar com a morte.

A lula-vampira-do-inferno aparece nessa novela como uma ilustração do que é o luto para a narradora. O infamiliar das emoções. A personificação de algo desconhecido, adaptável e complexo. A morte da mãe provoca na personagem a constante sensação de falta de oxigênio, mas assim como esse animal de sistema nervoso complexo vivendo em condições inóspitas, ela continua vivendo. Para essa mulher, viver com a falta não é um processo violento ou bruto, mas envolve dor. Acessar memórias que revelam ressentimentos, frustrações, e feridas que foram crescendo durante a convivência, trás também a sensação de impotência diante da morte. Não existe mais tempo para cuidar das feridas, mas ainda existe dor, e assim como a Lula Vampira ao se sentir ameaçada revira-se revelando uma parte menos agradável de si, essa dor também transforma, e quem essa mulher é depois de se transformar nem sempre é compreensível a quem ainda não passou por esse processo.

Sabendo que és minha não me trouxe respostas, alento, nem mesmo uma visão mais otimista sobre a morte, porém despertou reflexões sobre a nossa constante inadequação diante do luto, que para algumas famílias é mais intensa, para alguns corpos é mais violenta, para algumas perdas é mais desagradável, mas que faz parte de existir para sempre com a falta de alguém. Isso não nos ensina a viver, como a própria narradora diz: “ninguém aprende a viver”. Mas nos ensina, talvez, a ser mais empáticos com a forma como os outros lidam com o luto, e isso já é um bom começo.

“O problema de não falarmos sobre a morte ou o luto é que quando eles acontecem não temos referencial para lidar com eles. O que eu diria na cabeceira do caixão? O que eu diria para todas aquelas pessoas que também perderam alguém? Irmãs, irmãos, sobrinhos, primos, amigos e netos. O que eu diria para aqueles que estiveram com ela em muitos momentos de sua vida, mas não ali? O que você diz quando sua mãe morre além de Minha mãe morreu? Eu não disse nada.”

O livro Sabendo que és minha foi publicado pela editora Jandaíra, e está disponível nos sites das grandes livrarias. A ilustração de capa foi feita pela artista Eva Uviedo, e você pode conhecer um pouco mais sobre o trabalho da autora no site: https://www.fabrinamartinez.com/

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