Bom dia, Verônica escancara facetas não tão ocultas da sociedade

Netflix é fidedigna ao entregar adaptação de livro policial

O final de 2019 trouxe uma surpresa para os amantes da literatura policial brasileira: a verdadeira identidade de Andrea Killmore, autora de Bom dia, Verônica, um thriller eletrizante sobre uma escrivã da polícia que leva uma rotina burocrática e sem grandes emoções até que, ao presenciar um suicídio em seu ambiente de trabalho seguido de uma ligação anônima de uma dona de casa reclamando do marido, Verônica decide investigar os dois casos sozinha levando-a ao encontro de um serial killer.

O livro, lançado em 2016, é uma parceria entre Ilana Casoy – criminologia e escritora referência em literatura de criminologia no Brasil – e Raphael Montes, proeminente escritor que, aos 30 anos, já teve romances traduzidos em mais de 20 países, por exemplo, Suicidas, Dias Perfeitos, O vilarejo e Jantar secreto. Clique aqui para conhecer um pouco do escritor, que já foi nosso autor do mês.

A autoridade de Casoy oriunda de seus intensos estudos com os assassinos mais perversos e polêmicos do Brasil em combinação com a narrativa fluída e a construção de personagens cativantes, principais características dos roteiros de Montes, entregam uma história sem delongas, intensa e repleta de reviravoltas.

O sucesso da obra foi tanto que a Netflix lançou sua adaptação em 1º de outubro, tendo oito episódios de cerca de 40 minutos. A história é a mesma: Verônica (Tainá Muller) é escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo que, ao presenciar o suicídio de uma mulher na delegacia, acaba se envolvendo com a sua história. A investigação do caso faz com que Verônica conheça Janete (Camila Morgado), uma mulher que leva um casamento abusivo com Brandão (Eduardo Moscóvis).

Veja o trailer

A série mostra de forma alternada o dia a dia de Verônica e de Janete desenvolvendo suas histórias em paralelo. Por trabalhar diretamente na adaptação, Raphael mantém a série em sua maior parte fidedigna ao livro adicionando uma camada extra de machismo na personagem de Anita (Elisa Volpatto), delegada da Homicídios e superior de Verônica e, em contrapartida, torna Carvana (Antônio Grassi) um pouco mais tragável.

À primeira vista, a série parece um tanto genérica ao tratar de mais uma história sobre serial killer, mas Bom dia, Verônica surpreende o telespectador tornando-se, sem dúvida, uma das melhores séries originais da gigante de streaming brasileira. Utilizando do entretenimento para fazer críticas sociais de maneira pontual, o seriado escancara temas como corrupção, violência policial, misoginia e o machismo estrutural característica do sistema patriarcal em que vivemos.

Essa cultura está impregnada no dia a dia das protagonistas seja por Verônica ter que aguentar piadinhas sexistas de seu chefe ou quando policiais envolvidos no caso de uma vítima de golpe pela internet dão a entender que ela facilitou o crime por levar o rapaz para a sua casa no primeiro encontro e até mesmo Janete ao escutar de seu marido que não presta nem para engravidar.

A movimentação da câmera e a variação de enquadramentos contribuem para que o telespectador se sinta cada vez mais parte da própria trama e íntimo de Verônica sempre que as cenas mostram a protagonista em casa com sua família, momentos de maior movimento. Inclusive o elenco é tão natural mesmo ao tratar de temas muito sensíveis que fica impossível não os considerar o maior recurso de Bom dia, Verônica.

Apesar de ser o arco mais complexo da história, Camila Morgado e Eduardo Moscóvis tiram de letra os personagens Janete e Brandão, respectivamente. Mesmo sem o apoio de diálogos complexos, a relação do casal é facilmente esboçada por meio de gestos e olhares. E Eduardo consegue amedrontar o telespectador com as ações macabras e violentas de seu personagem, mas quase causa uma empatia em seus parcos momentos de gentileza com a esposa. Tainá, por sua vez, é genial em sua interpretação alcançando as nuances de uma personagem ambígua e humana.

Bom dia, Verônica é uma daquelas séries que não só vale a pena assistir como, de preferência, consumir de uma só vez. A obra utiliza o diálogo, principalmente por meio das falas da protagonista, para se posicionar contra o abuso doméstico e a violência contra mulheres de maneira geral, temas que devem ser cada vez mais debatidos. Em uma das cenas, a escrivã afirma que mais de 30 mulheres são estupradas por dia em São Paulo sendo dados verídicos conforme a Secretaria de Segurança Pública do estado.

Spoiler: o livro que Verônica lê para a filha antes de dormir chama Histórias de ninar para garotas rebelde – 100 fábulas sobre mulheres extraordinárias. A obra traz cem histórias sobre mulheres valentes que têm o poder de mudar o mundo, mostrando que o gênero não deve definir quão alto uma garota pode sonhar.

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