A experiência única da leitura de Torto Arado, do escritor Itamar Vieira Junior

Sem sombra de dúvidas, Torto Arado é um dos livros nacionais mais falados nos últimos três anos. E quem leu, tem sempre algo a dizer. 

Lançado em 2018 (primeiro em Portugal) e só depois, em 2019, no Brasil, a obra do escritor Itamar Vieira atingiu, em 2021, a incrível marca de 100 mil livros vendidos. Um verdadeiro fenômeno, em tempos de descrédito da literatura nacional. 

Muito já foi falado sobre a obra, mas é unânime a genialidade de Itamar ao construir uma história única, a partir do que é nosso, da nossa terra. É impossível não enxergar o Brasil e suas mazelas atemporais (situações de abandono, pobreza e injustiça de todas as naturezas).

Conheci Torto Arado após a repercussão da entrevista do autor no programa Roda Viva, em fevereiro de 2021. A obra já havia vencido o Prêmio Jabuti 2020 e o Prêmio Oceanos, no mesmo ano. Porém, foi ao atingir o feito de 70 mil exemplares e o anúncio do contrato de adaptação, que elevou-se a obra ao status instantâneo de clássico e pipocaram as resenhas dos leitores e críticas da mídia especializada.

Superestimada ou não, a história carrega experiências de leituras únicas que vão tocar o leitor, a partir de suas próprias vivências. Quanto mais próximo você já esteve ou está da história de Bibiana e Belonísia, mais tocado e sensibilizado você será, sem dúvida. 

“Todas nós, mulheres do campo, éramos um tanto maltratadas pelo sol e pela seca. Pelo trabalho árduo, pelas necessidades que passávamos, pelas crianças que paríamos muito cedo, umas atrás das outras, que murchavam nossos peitos e alargavam nossas ancas.” (pág.119)

Torto Arado é sobre pertencimento, ancestralidade, sobre a desigualdade social que se perpetua em todas as épocas da nossa história, seja nos dias de hoje ou há 100, 300, 400 anos, eternizados por autores que tiveram coragem para abordar esses temas em suas obras. É muito importante reconhecer a luta contra racismo, escravidão e incontáveis injusticas vividas pelos residentes/escravos modernos das terras de Água Negra (destino de muitos negros após a abolição), em falas e ações que se assemelham a de personagens de outros grandes autores e histórias clássicas. Eu pensei muito na luta de Carolina Maria de Jesus e seu Quarto de Despejo  e Conceição Evaristo em Becos da Memória durante essa leitura. 

“… tinha cor de areia e ferrugem como a que se vê na beira do rio Santo Antônio. Usou essa cor de pele muitas vezes, nas discussões com Severo e com o povo, para dizer que não tinha nada contra ninguém, que ele mesmo tinha antepassados negros, dos quais se dizia orgulhoso.” (pág.210)

A saga da família de Zeca Chapéu Grande e Salustiana Nicolau é de luta, sofrimento e reviravoltas. Movidos pela curiosidade em saber qual das irmãs, Bibiana ou Belonísia, perdeu a língua em um acidente cercado de mistérios, logo nas últimas páginas, e se elas conseguirão, como mulheres fortes que se apresentam,  alterar o destino que já foi traçado para elas e várias gerações, muito antes de nascerem. 

“O gerente queria trazer gente que ‘trabalhe muito’ e ‘que não tenha medo de trabalho’, nas palavras de meu pai, ‘para dar seu suor na plantação’. Podia construir casa de barro, nada de alvenaria, nada que marcasse o tempo de presença das famílias na terra… Podia trazer mulheres e filhos, melhor assim, porque quando eles crescessem substituiriam os mais velho.”(pág.41)

A leitura de Torto Arado é intensa e tensa, e que lhe envolve em uma narrativa realista, que transporta o leitor para dentro da história, e o convida a caminhar lado a lado com as protagonistas — com emoção, indignação e absorção, mesmo que superficialmente (é até muita pretensão nossa), em cada conhecimento e sofrimento. 

Aguardo ansiosa pela adaptação e espero, sinceramente, que capture a essência da obra literária e não nos decepcione. 

Torto Arado é uma publicação da Editora Leya

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