O famigerado João Acácio Pereira, o Bandido da Luz Vermelha

Por: Bruna Batista

João Acácio Pereira, popularmente conhecido nos 60 como O Bandido da Luz Vermelha cometeu crimes em Joinville, São Paulo e Rio de Janeiro, indo desde roubos, assaltos a residências e roubo de carro a assassinatos e estupros. Preso em 1967, teve 88 processos em seu nome e condenações que somaram 351 anos de prisão. 

Ficamos sabendo de tudo isso logo no início do livro Famigerado!: A história de luz vermelha o bandido que aterrorizou São Paulo nos anos 1960” escrito pelo jornalista Gonçalo Júnior. O que nos interessa saber realmente é quem foi João Acácio, e como o Bandido da Luz Vermelha, com tantos crimes e aparições atribuídos a ele, pôde permanecer fora do rastro da polícia por tanto tempo.

O Bandido da Luz Vermelha é chamado assim por usar uma lanterna vermelha nas invasões a residências. Entretanto, durante sua vida recebeu diferentes apelidos. Um deles Ferida tem ligação com a vida nas ruas de Joinville. Ao ser preso, em 7 de agosto de 1967, o exame do Instituto Médico Legal, o IML, constatou cicatrizes de cinco perfurações de bala e vários cortes de faca e navalha em vários lugares do corpo. 

João Acácio ficou órfão quando ainda era uma criança. Por causa dos maus tratos do tio que foi designado como seu guardião legal, preferiu fugir de casa indo morar nas ruas. Enfrentou todo tipo de violência que as ruas guardam para uma criança sozinha: passou fome, apanhou de meninos mais velhos, foi estuprado. Acácio até tentou ganhar dinheiro como engraxate, mas seus materiais de trabalho foram roubados. 

É esse o início da vida de crimes, que tem muitos outros desdobramentos e algumas tentativas de redenção. Como o livro aponta, em muitas entrevistas João afirma que só seguiu a vida de crimes porque não foi amado na infância, também por causa dos maus tratos que sofreu desde novo. A veracidade da maioria das histórias contadas por ele é contestada, já que ao longo dos anos apresentou versões diferentes de algumas delas. Outras não batiam com documentos e registros oficiais.

No dia seguinte a sua prisão, o Bandido da Luz Vermelha foi apresentado à imprensa como um troféu da polícia de São Paulo. Ele contou sua história, confessou crimes e debochou da polícia. 

“O criminoso posou para fotos e confessou uma série de crimes, como se estivesse contando vantagem.”

João se orgulhava de ter enganado a polícia por tanto tempo. Até o momento de sua prisão, a investigação estava errada em muitos pontos – e ele sabia disso. Acompanhava os jornais e notícias para saber o que diziam sobre suas ações. A polícia de São Paulo nas buscas pelo bandido dizia, com muita certeza, que os crimes haviam sido cometidos por um homem chamado Roberto da Silva, havia inclusive um retrato falado. Acontece que o Bandido da Luz Vermelha foi preso em Curitiba, e seu nome era João Acácio.  

Pela comoção causada com a história, parte por causa da exploração da mídia sobre o caso – que era cheio de reviravoltas e tinha como ator central um homem perturbado psicologicamente, e parte pela violência dos crimes cometidos por ele, João foi manchete dos noticiários por bastante tempo.  Filmes, documentários, programas de TV, rádio, reportagens de jornal, dezenas de materiais foram produzidos sobre sua história e crimes. 

O livro de Gonçalo Júnior passa por várias dessas produções, explicando seu contexto e o crescente interesse social nesse tipo de produção. Fica claro que não é de hoje que o crime como espetáculo garante boa audiência. 

No ano seguinte à prisão de João Acácio, um filme começou a ser feito sobre sua vida. Entusiasta de filmes de faroeste e grande frequentador de cinemas em São Paulo, ele chegou a comentar que tinha interesse em trabalhar como ator em filmes de ação. 

O diretor da produção, Rogério Sganzerla, fazia parte do grupo de cineastas que defendiam o Cinema Marginal. O grupo formava uma espécie de contra cultura à produção de Glauber Rocha e as influências europeias da Nouvelle Vague de Goddard. Sganzela nunca disse o motivo de ter escolhido fazer o filme sobre o bandido, mas a história de João Acácio, violenta e trágica, combinava com a estética pensada por eles. O filme recebeu muitas críticas por tratar Acácio como uma vítima de sua trajetória, deixando de retratar a violência dos crimes que cometeu.  

Gil Gomes, falecido em 2018, foi um famoso repórter policial, se destacando por sua autenticidade na narração das histórias que noticiava. Ainda estava no início da carreira quando o Bandido da Luz Vermelha tomou as manchetes em São Paulo – e Gil acompanhou tudo de perto. O jornalista assina o prefácio do livro, que de cara nos dá a dimensão da história na definição do jornalismo policial que conhecemos hoje.

Gonçalo Júnior apresenta muitos personagens no decorrer das 416 páginas do livro. Uma delas, é essencial destacar: Ingrid Yazbek Assad que, aos 22 anos de idade, levou dois tiros disparados por João Acácio ao resistir a uma tentativa de estupro. A entrevista para Gonçalo Júnior foi a primeira que deu sobre o caso. 

Outro personagem muito importante é Caboré, um importantíssimo receptador da mercadoria roubada por João Acácio. Gonçalo chegou a procurá-lo para uma entrevista, mas o homem não morava mais no endereço indicado e seu paradeiro era desconhecido pelo morador atual – apesar de o jornalista apontar o nervosismo do rapaz que o atendeu e sua semelhança com as fotos de Caboré nos anos 60. 

Gonçalo conseguiu conversar, entretanto, com o advogado de defesa de Acácio, o senhor Roberto Von Haydin que, aos 87 anos e de saúde bastante debilitada, falou sobre sua experiência como defensor público designado para o caso do Bandido da Luz Vermelha. Ele fala sobre como todos têm direito de defesa e a sua experiência no caso. 

“Por causa de Luz Vermelha, Haydin recebeu uma ‘cusparada’ no rosto, durante uma audiência no tribunal do júri, dada pela dona de casa Maria Molina Bredan, mãe do estudante Water Bredan Júnior, assassinado pelo bandido. ‘Peguei um lenço e limpei o rosto com a maior calma. O juiz viu o que aconteceu e disse que iria tomar providências contra ela. E eu retruquei: ‘Excelência, de maneira nenhuma faça isso, ela é mãe e está trazendo sua dor para nós todos, e eu relevo isso. ’ Situações assim não o abalavam.” 

A história contada por Gonçalo Júnior permeia questões bastante diferentes e que vão muito além da vida de João Acácio Pereira. Desde o choque da elite paulistana ainda desacostumada com a criminalidade – que existia, só não era vivida por eles, a ditadura batendo na porta, até a precariedade dos serviços públicos, a falta de preparo da polícia, a reação social, a exploração midiática sem controle da imagem do acusado. 

Todo esse trabalho é feito usando ainda imagens, documentos e relatos de diferentes fontes de informação, com uma produção gráfica que chama a atenção. Os ícones e páginas são muito bem trabalhadas. Ao final, são usadas imagens da época, fotos de João Acácio e seus comparsas encontradas pela polícia em sua residência, jornais da época e fotos da imprensa. Em uma delas, Acácio aparece segurando o cartaz do filme de Sganzela e sorrindo.

A biografia do Bandido que virou febre nos anos 60 tece uma história complexa, entrelaçando diferentes perspectivas de várias épocas. Às vezes, a história vai longe para explicar um ponto específico do caso, o que pode causar certa confusão ou nos fazer perder o fio da meada. Entretanto, essa contextualização é, por vezes, muito pertinente e dá uma dimensão maior da história, essencial para compreender algumas de suas entrelinhas. 

O grande sensacionalismo na cobertura e a espetacularização de crimes violentos são em boa parte os responsáveis pela proporção que o caso tomou nos anos 60. Certo ou errado, a questão é que se vemos esse tipo de cobertura ser repetida hoje em dia é porque ela teve um início em algum lugar. Muito mais que a biografia de um homem ou de um criminoso, “Famigerado!” é também uma aula de jornalismo policial.

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