Quem passa pela rua Tamóios, com a pressa típica dos tempos modernos, não imagina que atrás de uma portinha pequena e simples, no número 748, se esconde uma preciosidade. Já na entrada, somos surpreendidos pela delicadeza e organização de milhares de livros, dispostos em estantes que vão do chão ao teto. O cenário encantador se completa pelas escadas que lembram as livrarias dos filmes. Ao entrar, somos transportados para um paraíso literário, rodeado de exemplares clássicos e contemporâneos, que vão de famosos romance a fantasias, passando por vários outros gêneros da literatura mundial. A Livraria Amadeu é uma dessas raridades que, felizmente, o tempo não foi capaz de apagar.

Prestes a completar 70 anos, a livraria é a mais antiga de Belo Horizonte. São sete décadas dedicadas à literatura e ao amor pelo conhecimento transportado de uma das maneiras mais belas, por meio das páginas dos livros. Com mais de 40 mil exemplares, a Amadeu está bem no coração da capital, pulsando firme, resistindo ao tempo, as crises e a todos os problemas enfrentados pelo país.

Há 40 anos, o sebo é comandado por Lourenço Carrato, filho do fundador, o Sr. Amadeu, falecido em 2009, aos 93 anos. Em contato com os livros desde criança, Lourenço conta que eles o tornaram a pessoa que é hoje, que o construíram, e que, crescer em meios às páginas amareladas, foi fundamental para solidificar sua paixão pela leitura e o manter firme todos esses anos à frente da livraria. “É uma coisa gostosa. Há sempre uma novidade, alguém pedindo um livro diferente. É gostoso. E, aqui dentro, estou no meio dos grandes pensadores. A gente fica com um suporte”, destaca.    

O espaço não é grande, o que torna sua organização ainda mais admirável. Não há sinal de mofo ou poeira. Pelo contrário, o ambiente é confortável e aconchegante, agradável para os visitantes e clientes. Os livros são limpos e muito bem cuidados. Lourenço caminha pelo local com os olhos brilhando, orgulhoso ao mostrar como os exemplares e as prateleiras estão muito bem conservados. Ele sabe de cor onde fica cada título e arrisca, sem consultar o computador, informar se a livraria dispõe ou não de algum exemplar. É com prazer estampado no rosto que Lourenço mostra como as escadas de madeira, encomendadas pelo pai há anos, ainda mantém as mesmas características de antigamente, os degraus apenas um pouco desgastados pelo tempo e o sobe-desce diário.

Foto: Josiane Gonçalves

Caminhando entre as prateleiras repletas de histórias, Lourenço explica que os livros precisam ficar afastados das paredes para que a umidade do encanamento não estrague as páginas. Uma valiosa dica para quem conserva em casa os seus livros em prateleiras ou nichos. Com um dos títulos mais antigos da Amadeu em mãos, um exemplar francês de 1862, ele avalia que os livros de hoje são menos elaborados e que as edições não têm o mesmo capricho e o trabalho detalhado encontrados nos mais remotos.

O entra e sai na Livraria Amadeu é constante. O espaço tem uma importância singular no cotidiano de Belo Horizonte. Por ele, passam personagens que podem contar a história da cidade, amantes de livros, recicladores de papéis, crianças, jovens, adultos e idosos. A livraria conserva a história e o prazer pela literatura por décadas. É um local que deve ser inserido no mapa turístico da capital e conhecido e valorizado pelos belo-horizontinos. Não é só a enorme coleção que a Amadeu abriga que faz do lugar especial, é a acolhida e o atendimento personalizado que ficam na memória dos visitantes. Para os leitores de plantão, nada melhor do que comprar memória e ouvir uma excelente história de amor à literatura.

Foto: Josiane Gonçalves

Ah! Uma curiosidade: a história da livraria do Sr. Amadeu se tornou um livro escrito por João Antônio de Paula, vice-reitor da UFMG. Ele fez a pesquisa e construiu a obra que foi reeditada no ano passado para comemorar o centenário do fundador da livraria. Quem quiser conhecer a história completa do sebo mais antigo de BH, adivinhe onde procurar? Isso mesmo, na Livraria Amadeu, que funciona de segunda a sexta, de 9h às 19h. O Sr. Lourenço vai adorar receber você!

A livraria como espaço de encontros e reencontros literários

Livrarias e bibliotecas são ambientes especiais para os amantes dos livros. Nesses lugares, acontecem encontros e reencontros que ligam pessoas por meio da literatura. Com seus quase 70 anos de existência, a Livraria Amadeu guarda em sua memória muitos desses momentos. Em busca de um livro específico, na procura pelo conhecimento e pela cultura ou simplesmente de passagem. São muitas as pessoas que já estiveram ali, naquele estabelecimento localizado em pleno centro de Belo Horizonte e que faz parte de tantas histórias.

Foto: Elis Souza

Num desses encontros proporcionados pela Livraria Amadeu, conhecemos Angélica Desimar, dona de Topa Tudo apaixonada pelos livros e cliente do estabelecimento há mais de 20 anos. “Eu venho à livraria há muitos anos, leio e também troco livros aqui”, conta Desimar, que conheceu o senhor Amadeu, dono da livraria, falecido há oito anos. “Eu vinha na livraria quando ele [senhor Amadeu] era moço namorador ainda”, brinca.

Antes mesmo de entrar na livraria, ainda nas escadas que dão acesso ao espaço, já é possível se deslumbrar com a vasta e distinta coleção de livros reunida ali. “Se você procura um livro, procure primeiro na Livraria Amadeu. Se não encontrar aqui, não encontra em lugar nenhum”, destaca Angélica, que é fã de livros de ficção e suspense.  

Os escritores Paulo Coelho e Pablo Neruda e os livros “O pequeno príncipe, “A hospedeira”, “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída…” e “A queda para o alto” foram algumas das indicações de Angélica Desimar. Leitora voraz desde os 15 anos, que não teve influência de ninguém para adquirir o amor pelos livros. “A leitura para mim sempre foi uma coisa muito gostosa e hoje é muito mais gostosa, já que nos dias atuais tem muita violência, fofoca, gente cuidando da vida alheia. Eu prefiro ler.  É um escape para esse mundo que está muito ruim”. Desimar destaca ainda a importância dos livros para a vida de qualquer pessoa. “A leitura é a melhor forma de aprender”.

Colaboração: Josiane Gonçalves

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