Clube de Leitura das Minas valoriza a literatura feminina e empodera leitores

O que as escritoras têm a dizer? O que elas têm dito ao longo dos séculos? Construir diálogos a partir de perspectivas femininas e fomentar discussões acerca de temáticas que permeiam as sociedades mundo afora são os principais objetivos do Palavra de Mulher – Clube de Leitura as Minas.  

Há um ano, o Clube se reúne mensalmente no Centro de Referência da Juventude em Belo Horizonte para falar sobre literatura e discutir obras escritas apenas por mulheres.

Aliando o prazer da leitura à necessidade de ler mais mulheres, o projeto já está na 10º edição. “Foi uma iniciativa que surgiu em um grupo de mulheres do curso de comunicação da UFMG, com o objetivo de criar um espaço para que nós pudéssemos ler e comentar a literatura feita por mulheres. Falar de forma aberta e sem preconceitos, em um ambiente acolhedor e seguro. Esse sentimento nasceu também de uma percepção geral de como estávamos lendo poucas mulheres. O grupo logo cresceu para além do curso de comunicação, por meio do convite das membras a amigos e conhecidos”, conta a jornalista Livia Campolina, uma das organizadoras do grupo.

Apesar das inegáveis conquistas femininas ao longo dos tempos, a literatura ainda é um espaço de predominância masculina. Uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea Universidade de Brasília (UNB), divulgada em 2017, mostra que entre 1965 e 2014, mais de 70% dos romances publicados pelas grandes editoras nacionais foram escritos por homens, 90% deles são brancos e pelo menos a metade veio do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Ainda segundo a pesquisa, cerca de 60% desses romances são protagonizados por homens, sendo 80% deles brancos e 90% heterossexuais. Os dados desse estudo só reforçam a importância do leitor em quebrar esse padrão e diversificar a leitura buscando livros que discorram sobre assuntos e cenários mais próximos de sua realidade.

Se o cenário literário em sua maioria reflete a vivência e o lugar de fala do escritor, conhecer histórias de mulheres, pelos olhos dela se faz cada vez mais necessário.    

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A escritora Ana Rapha Nunes ressalta a importância da leitura de mulheres, sobretudo para as leitoras.  “Ler livros de autoria feminina é sobretudo enxergar o mundo pelos olhos de uma mulher, compartilhando seus dissabores e suas conquistas. Por meio da escrita, podemos descortinar vários tabus que permeiam a nossa sociedade, mostrando nossas dores através do tempo, denunciando nossas angústias e destacando o nosso papel no mundo. Quando você lê uma obra escrita por uma mulher, você dá mais voz a ela e a todas as mulheres. Assim, ganhamos mais espaço na Literatura e no mundo.”

 

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A escritora e pedagoga mineira Madu Costa, especialista em literatura afro-brasileira, endossa a importância de diversificar propositalmente a leitura diária. “Precisamos, cada vez mais, ler autoras femininas para termos referências desse lugar de fala. É um exercício necessário e urgente para desconstruir os modelos masculinos e machistas de literatura autoral masculina. Ao lermos mulheres, beberemos em fontes mais ou menos feministas e teremos parâmetros para nossa própria elaboração de um mundo feminista. Um mundo em equidade de gêneros.”

 

O Clube de Leitura das Minas, além apresentar essa diversificação, prioriza autoras de todas as partes do mundo, trazendo para a roda de discussões os desafios, anseios e tabus que essas escritoras imprimem em suas obras. Já foram lidos pelos membros do clube: Quarto de Despejo (Brasil, Carolina Maria de Jesus); Outros jeitos de usar a boca (Canadá, Rupi Kaur); Olhos d’água (Brasil, Conceição Evaristo); O Conto da Aia (Canadá, Margaret Atwood); O que é lugar de fala? (Brasil, Djamila Ribeiro); A Filha Perdida (Itália, Helena Ferrante); A cor púrpura (EUA, Alice Walker); Pornô Chic (Brasil, Hilda Hirst); Um útero é do tamanho de um punho (Brasil, Angélica Freitas).

A comunicadora Isabela Fachardo, uma das organizadoras do Clube de Leitura das Minas, lista os principais benefícios da leitura de livros escritos por mulheres. “Acreditamos em construir diálogos a partir de perspectivas femininas, dessa forma os livros de autoras mulheres mais do que nos inspirar, nos tocam, nos guiam e nos apontam caminhos que em encontros com outras, conseguimos explorar e organizar os pensamentos, sentimentos e lutas. Desta forma, fazemos do nosso clube um espaço de resistência para mulheres, suas questões, rostos, vozes e vivências coexistindo e dialogando, pautas que são caras para nossa sociedade atualmente.”

A participação no Clube de Leitura das Minas é sempre gratuita e conta com uma média de 10 participantes mensalmente. Os livros são escolhidos democraticamente por meio de enquete nas redes sociais. Não é necessário ter lido o livro para participar.

O Clube de Leitura das Minas é aberto a todos que desejam compartilhar o prazer da leitura de obras femininas. “Nossa intenção desde o início foi criar um espaço e um meio de fazer obras de autoria feminina circularem mais, serem mais faladas e discutidas por aí.” Afirma Isabela.

Os clubes de leitura e as adaptações literárias recentes têm impulsionado a venda de livros escritos por mulheres. Sobretudo as distopias, como é o caso do Conto da Aia, da autora canadense Margareth Atwood, na lista dos livros mais vendidos no Brasil, segundo a revista Veja, há 58 semanas. O livro lançado em 1985 desponta só agora no Brasil e no mundo, após o enorme sucesso de sua adaptação para a TV. O choque das cenas de violência, e algumas semelhanças com a realidade atual dos governos conservadores, despertou a curiosidade dos leitores. O Conto da Aia traz um mundo distópico que narra a perda dos direitos das mulheres, frente ao fundamentalismo religioso.

Madu Costa reforça a importância da escrita feminina no processo de empoderamento da mulher na literatura. “Nossa sociedade é machista. Nós ainda somos discriminadas pela condição de gênero, por isso nossa voz feminina deve cada vez mais assumir o seu lugar. Nós falando de nós e sobre nós. Nós falando de nossa visão do mundo masculino, do mundo feminino, político, ficcional, científico, religioso, estético, ético, etc.”

Diante de registros cada vez mais baixos de índices de leitura do brasileiro, os clubes de leitura cumprem sua função de aproximar o leitor à literatura, cada um à sua maneira, incentivando, auxiliando no processo de formação de um leitor crítico, aproximando pessoas e criando e fortalecendo laços de amizade.

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