O Auto da Compadecida – Ariano Suassuna

O Auto da Compadecida é, sem dúvida, uma das histórias mais populares e amadas do Brasil. O imenso sucesso da minissérie produzida pela TV Globo em 1999 consagrou a obra do escritor pernambucano Ariano Suassuna. E o filme lançado nos cinemas em 2000, eternizou os personagens João Grilo (Matheus Nachtergaele)  e Chicó (Selton Melo) na memória do brasileiro. 

Apesar das diversas publicações e por fazer parte da leitura obrigatória em várias escolas, muita gente não sabe que “O auto da Compadecida” é originalmente uma peça de teatro, escrita em 1955. O livro, já passou da 30º edição. A peça foi traduzida para vários idiomas, com montagens em países como, Alemanha, Finlândia, Israel, Polônia, Suíça, Grécia e República Checa.

Como vi o filme (infinitas vezes) e a minissérie, ler o livro é quase uma obrigação. E ler tem um gostinho especial de reviver a obra, recriar na mente os cenários e os personagens inesquecíveis. 

Vamos relembrar: “O Auto da Compadecida” retrata as peripécias de dois brasileiros pobres que se utilizam do “velho jeitinho” para se dar bem em cima daqueles de melhor posição social. A Globo foi muito feliz na escolha dos atores, que encarnaram os personagens de uma forma incrível, e por isso citei no início, eles eternizaram esses personagens e será praticamente impossível um remake sem Matheus Nachtergaele e Selton Melo. 

O livro é pequenininho, e a leitura é bem diferente. Por se tratar de uma peça de teatro, temos acesso as marcações da cena, inserções da sonografia, e as propostas de reações dos atores e da plateia. A narração é feita por um palhaço, que representa nada mais nada menos que o próprio Suassuna. 

“Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia.” (pág.18)

A essência da história é a mesma das adaptações para o cinema e TV, embora alguns personagens de destaque como a Rosinha, grande paixão do Chicó, não existirem no livro. A esperteza de João Grilo garante boas risadas em um texto recheado de críticas a religião, ao preconceito racial e social. As deixas, os bordões do Chicó e a interação com o amigo Grilo são o ponto forte da obra. 

É sabido que Suassuna se inspirou na literatura de cordel para escrever a peça, utilizando um cenário completamente brasileiro, especificamente o nordestino, que mistura religião e pobreza em um texto leve e divertido, proporcionando uma rápida identificação com o leitor.

Suassuna participa ativamente das adaptações dos seus textos, tanto que no livro, temos acesso as sugestões dadas por ele na escolha dos atores que farão os personagens e na montagem dos cenários. No final da obra, edição Nova Fronteira, há um texto do escritor e poeta brasileiro Braulio Tavares, identificando os personagens e histórias que inspiraram o escritor.

Apesar das histórias girarem em torno das peripécias de “João Grilo” e “Chicó”, os personagens secundários são bem construídos e definidos no contexto da obra. Senti falta de mais histórias como as anteriores a morte do cachorro e depois da “ressurreição de João Grilo”.

A linguagem popular e a fluidez do texto, sobressaem ao formato “peça” de leitura. Li super rápido, dei boas risadas, e assim que terminei corri pra vê o filme. Queria um livro de 500 páginas ou uma trilogia, mas como isso não será possível, ficamos com essa belíssima obra que consegue agradar em qualquer formato.

Livros ou suas adaptações? É sempre polêmico, né? Veja outros comparativos aqui

Deixe o seu comentário

comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *