Depois daquela montanha, livro ou a sua adaptação?

Um tema bem controverso entre os leitores são as adaptações de obras literárias para o cinema, TV e outras produções audiovisuais. Criamos a sessão “Livros x Adaptações” para justamente repercutir e botar mais lenha na polêmica, porque algumas adaptações conseguem sim superar o livro. E a ordem de conhecimento da obra, muitas vezes, altera o julgamento final. Assistir ao filme primeiro pode influenciar na forma como você encara o livro e vice-versa. Gosto de ler o livro primeiro, mas pela primeira vez encarei um filme e depois li o livro.

“Depois daquela montanha” do escritor Charlie Martin é um romance que não tem nada de fofo, pelo contrário, é bem tenso, intenso e sofrido.  Um casal que nunca se viu na vida, unidos pelo cancelamento de um voo, decidem fretar um jatinho para tentar a sorte e chegar aos seus destinos. A urgência? Ela está às vésperas de se casar e ele tem uma cirurgia para realizar em uma criança. No meio do voo, quando os dois ainda estão se conhecendo, o piloto um senhor simpático cheio de lições de vida, que leva a bordo o seu fiel cachorro, sofre um infarto e o avião cai no alto de uma montanha abarrotada de neve. Só o piloto morre (não é spoiler). Os dois sobreviventes e o cãozinho têm que lutar (e muito) pela vida contra as forças da natureza em um lugar completamente isolado. “Estávamos no meio de lugar nenhum. Não vi nada que tivesse sido feito por mãos humanas”. (pág. 87)

A semelhança entre o livro e o filme para na sinopse, porque muitos fatos que ocorrem na obra literária são simplesmente ignorados na adaptação ou alterados. No livro a personagem Ashley Knox sofre vários traumas na queda do avião e passa praticamente o tempo todo deitada, totalmente dependente do Ben. No filme a personagem “Alex” vivida pela atriz Kate Winslet (maravilhosa) é mais ativa e apesar das lesões a sua participação na história é  marcante, já que as decisões mais determinantes na história são impulsionadas por ela, gostei disso. Tanto no filme quanto no livro ela é espirituosa, dona de umas tiradas ótimas e apesar de sofrer pra caramba, vai encarando os momentos de peito aberto, sem mimimi. “Eu começava a aprender que ela usava o humor para afastar a dor. Já vira outras pessoas fazerem isso.” (pág.68)

Ben Payne é o narrador do livro, e vai alternando entre as lembranças do passado, da convivência com o pai rigoroso e a história com Rachel, o amor da sua vida. E o segundo mistério da trama, só perde para a batalha pela sobrevivência dos dois que é testada a todo momento, tanto no livro quanto na adaptação. Na leitura, fiquei pensando o tempo todo: se ele é casado como é que vai rolar romance na neve? Esse mistério se arrasta até as últimas páginas, enquanto no filme se resolve bem rapidinho. O romance no livro se justifica pelo crescimento de vários sentimentos que vão surgindo com a convivência, como o respeito, admiração e a confiança que se fortalecem a cada sobrevida. Por isso, estranhei quando na adaptação, de repente, pintou um clima (com uma pegada!) e  tudo aconteceu. Não passou a verdade do livro. Se eu disser que não teve química estaria sendo injusta com os atores, mas não teve aquela paixão apresentada no romance. Idris Elba (que dispensa elogios) encarnou muito bem o papel do médico solidário, paciente e tomado pela culpas do passado. 

O ponto positivo de assistir a adaptação primeiro é que facilita na identificação dos ambientes e nos personagens (se houver fidelidade).  No livro as descrições sobre o local do acidente as vezes se perdem, é tanta neve, frio e branco que é difícil imaginar um lugar assim. Por isso vai um elogio a escolha das locações e as tomadas da “imensidão de neve”, saí do cinema com frio e já pensando em colocar um isqueiro na bolsa para o caso de precisar me aquecer, a propósito tirei várias lições de sobrevivência. Achei o livro mais envolvente e emocionante, muito por conta da escrita do Charles Martin, com uma história que te prende e desperta várias sensações e sentimentos. No filme não dá tempo para se envolver com a história. Gostei também das mensagens de reflexão contidas nas páginas que não aparecem no filme. Sem contar o final surpreendente do livro, e do filme deixou bastante a desejar. 

O livro foi lançado no Brasil pela editora Arqueiro e já tem duas edições, sendo a mais recente com a capa do filme. 

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