Reverso – A solidão não é vã | Khacyus Rezende

A literatura espírita brasileira ganhou mais um representante: Reverso – a solidão não é vã, do escritor mineiro Khacyus Rezende.

A história acompanha a jornada de uma alma em busca de redenção e paz ao longo dos tempos. A maior parte da obra, transita entre Bonordre (interior de Minas) e a capital BH, por isso vem repleta de referências que vão despertar memórias e criar identificação com o leitor. Aqui já vai um ponto para o autor! É cada vez mais raras obras com um regionalismo tão marcante. Eu vibrei com várias referências.

Logo nos primeiros capítulos, temos uma noção do paradeiro desse espírito e uma vaga compreensão de como foi sua existência. Em seguida somos levados a uma vida de pobreza, sofrimento e humilhações do pequeno Raul.

“Enfim, seguiram para a missa de formatura. Tudo estava indo bem até que o padre, ao ver Raul tremendo feito vara verde para a realizar a leitura, aproveitou para fazer um grande deboche da criança. Sim uma criança, apesar dos 14 anos, como era muito baixinho e fraquinho, parecia uma criança de nove.” (pág.64)

Um panorama desde o nascimento, mostra que sua trajetória é marcada pela dor, abuso e violência. Por este motivo vai aí um alerta, há algumas cenas que mesmo com a delicadeza da escrita do autor, ainda são pesadas e podem despertar gatilhos.

Na adolescência tudo continua igual, até que o jovem consegue romper esse padrão e em nome dos estudos vai viver na capital em busca de um futuro e uma vida melhor. Em BH, novos desafios se revelam para o menino do interior que a trancos e barrancos vai vivendo um dia de cada vez, e se torna Renato, na tentativa de deixar para trás o passado de sombras.

Mas as sombras volta e meia aparecem para atormentá-lo, em sua maioria, elas vêm em forma de frustrações amorosas diversas e enfermidades. Renato era bissexual, mas até chegar nesse entendimento experimentará muitos sentimentos, em especial a culpa.

“Comecei a vida como Raul bem mocinho e vítima. Quase vinte anos depois, já como Renato, estou bem mais vilão! Ou será que apenas fiquei mais atento ao movimento do mundo e focado para alcançar os meus sonhos?” (pág.164)

Em meio ao crescimento de Renato, acompanhamos o contexto histórico de cada momento. Aqui também mais um ponto para o autor, por explicar fatos político-sociais, personalidades que marcaram a época em que a história se passava e até os principais points e locais de lazer da BH dos anos 1990 e começo dos 2000. Mas não precisava da lista completa dos álbuns da Madonna (rs) (pág.171) ou das características de uma pessoa ariana. Também não gostei dos poemas intercalados aos capítulos, em muitos momentos, apesar de muito bonitos e inspiradores, os poemas quebraram o ritmo da leitura e não fizeram sentido com os fatos apresentados. Fora isso, é uma obra que vale a leitura.

Diferentemente do padrão das obras espíritas, Reverso, não expõe os “pecados” do personagem, para que depois ele volte para pagar, pelo contrário, ele sofre bastante e só temos a compreensão de tudo isso, junto com o personagem.

Reverso – a solidão não é vã é um livro com vários sentimentos e uma história com muita força. Ao acompanhar a jornada de redenção deste personagem também acessamos a discussão de temas importantes, como: conflitos de relação parental, relacionamento abusivo, abuso sexual e psicológico, HIV, entre outros.

Outro destaque legal fica por conta da capa. Uma construção perfeita e certamente faz sentido com a trama apresentada.

Reverso – a solidão não é vã é uma publicação da Editora Chiado.

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