Ela entrou no ônibus pela porta do meio. Na cadeira de rodas, seu filho, um menino magricelo, de pernas tortas e rosto pálido. Apesar de não enxergar, ele sabia de cor o trajeto. “Aqui é perto do Independência, né, mãe!”. O sim que saiu da garganta daquela mulher era mais que afirmativo. Era amoroso, era o som de quem testemunha a luta por perceber, por ver além do que o verbo determina.

É incrível como ele é forte. Ele gosta de biscoito Passatempo. Sua mãe pede para ele comer mais um. “Valeu, mãe”. Não é obrigado que ele diz, é valeu. É pertencimento. É ser igual aos outros meninos, mesmo sendo diferente. O que me encanta e me coloca para pensar é saber que deficiência nenhuma significa o fim, quer dizer mesmo renascimento. É aprender a caminhar, mesmo sem a funcionalidade das pernas e  com o eterno breu nos olhos.

Quando subiu no ônibus, pelo elevador capenga, aquela mulher logo ajeitou o menino no espaço reservado. Puxou o cinto de segurança, ficou em pé em frente à cadeira e arrancou o pacote de biscoito da bolsa. Tamanha precisão me faz acreditar que ela já repetiu aqueles movimentos várias centenas de vezes. Com uma mão ela se equilibra, com a outra ela segura um dos lados da cadeira, já surrada pelo tempo, quando até o estofado sumiu e virou pó.

Ela tem resposta para todas as perguntas. Sabe bem que ser pobre é difícil e, em outras condições, o menino poderia apresentar um quadro diferente. Uma cadeira melhor, um transporte público melhor, uma assistência à saúde melhor. O que explica tanta alegria emanar de um contexto desfavorável, cheio de retrocessos e incertezas? É fé o nome. É coragem de acreditar que as coisas se ajeitam e que toda peleja não é inválida. O bonito do cotidiano é saber que o outro guarda muito de nós.

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