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Um lugar bem longe daqui | Delia Owens

Um lugar bem longe daqui é uma história de amor e superação, permeada de muito drama e uma pitada primorosa de suspense

A obra conta a história da construção da lenda da menina do brejo, Kya Clark, desde o seus seis anos, até a idade adulta. A vida de Kya é instigante e desperta, logo de cara, a empatia do leitor.

Dividida entre passado e presente, a autora Delia Owens intercala o crescimento de Kya no pântano e a investigação de um assassinato 17 anos depois do início da história.

De repente, a criança doce e sonhadora que, apesar de não viver uma vida plenamente feliz, vê o pouco que tem ruir, quando a mãe, cansada da violência física e psicológica cometida pelo marido, decide abandonar o lar. Esses episódios de violência são friamente contados ao longo do livro, e são determinantes para algumas tomadas de decisão de Kya.

Logo após a partida da mãe, é a vez dos seus irmãos mais velhos, um a um, tomarem a mesma decisão, fugindo do ambiente de violência e pobreza, sem perspectiva de futuro que o pântano apresentava.

Sobre o pântano: Nunca tinha lido nada sobre esse cenário. E, em muitos pontos da leitura, eu parava para reler as descrições e nuances que fizeram por vezes dar um Google para conhecer mais.

A vegetação, os animais, a condição que levaram as pessoas a morarem em um lugar hostil, mas que deixa de ser (quando sem escolha) essas pessoas começam a fazer parte daquele lugar seu lar, que pode ser a única opção para eles. Todo o contexto social do pântano é assertivo (e até atual), e a autora foi muito feliz da primeira à última linha.

Sozinha com o pai, Kya segue sua vida se descobrindo e se adaptando cada vez mais ao ambiente, encontrando formas de sobreviver. Até que chega a vez do pai ir embora, deixando Kya sozinha antes mesmo de completar 10 anos. Sua única companhia, além do ambiente como um todo, que é vivo, Kya tinha a amizade fiel de gaivotas e pássaros.

Viver no pântano não é viver em comunidade. Os habitantes são raros e obviamente sofrem na pele a discriminação dos moradores da cidade. O pouco convívio que há entre eles é carregado de hostilidade.

Desde sempre, as interações de Kya com outras pessoas se davam apenas quando ia a cidade comprar mantimentos com a mãe. Ou nos raros momentos em que saía de barco com o pai. Após sua partida, a menina teve que se virar, e contou com ajuda de pessoas bondosas e caridosas, como Pulinho, o vendedor de gasolina e sua esposa, pessoas negras, humildes e de bom coração.

Ressalto essas características porque um dos destaques da trama foi trazer um contexto histórico bem detalhado sobre a situação dos negros na época, e como o racismo explícito e violento era algo normal dos moradores da cidade de Barkley Cove. Em diversos momentos a autora relata ofensas, agressões e situações de humilhações a que eram expostos. Contudo, o que fica na obra são as lições de amor da população negra, uma das poucas a acolher a menina órfã, refugiada no pântano.

“Barkley Cove tinha escola para brancos. Do primeiro até o décimo segundo ano, as crianças frequentavam uma escola de tijolos de dois andares que ficava no outro extremo da Main em relação ao escritório do xerife. As crianças negras tinham a própria escola, uma estrutura de cimento de um andar só perto de Colored Town.” (pág.30/31).

Kya fugia do contato humano, sobretudo, dos agentes educacionais, que até tentaram incluí-la na escola, porém, o bullying sofrido logo no primeiro dia de aula, afastou de vez essa possibilidade. Preconceito que ajudou a construir a lenda e que a acompanharia por toda sua vida.

Kya era muito inteligente e dominava todo seu território de ponta a ponta, identificando e catalogando a sua maneira, cada detalhe do lugar onde morava. Foi na adolescência que Kya aprendeu a ler e escrever com Tate, um garoto fofo e apaixonado pelo pântano, que decidiu ajudá-la. Mesmo sendo da cidade, Tate era amigo do irmão de Kya e a conhecia desde pequena.

A amizade dos dois é linda. Depois de Pulinho e sua esposa, Tate foi a única pessoa que de fato entrou na vida de Kya. O amor pelo pântano uniu os dois. Aqui a autora utilizou uma escrita poética, quase contemplativa de amor a natureza, respeito e amizade.

Durante a leitura, toda possibilidade de ajuda a Kya me tocava demais. A relação dela com Tate é linda, eles se apaixonam e vivem bons momentos juntos. Contudo, o sonho de Tate é ser biólogo e estudar justamente o pântano. Logo, ele precisará ir para faculdade deixando Kya pra trás. E esse abandono dói demais. Mais do que todos os anteriores.

A expectativa sobre o retorno de Tate gera sofrimento, e isso, somado a solidão e a uma crescente necessidade de se arriscar mais, faz com que ela se relacione com Chase, a vítima do assassinato investigado nos dias atuais e também um dos provocadores do bullying sofrido no único dia em que ela esteve na escola.

Obviamente, Kya é uma das suspeitas de matar Chase. E essa dúvida sobre quem é o assassino e se de fato ela esteve envolvida aquece ainda mais a história.

Cada fase da vida de Kya é intensa e a cada descoberta faz com que, de repente, parece que fazemos parte de sua vida, somos alguns privilegiados escolhidos para conhecer sua história. E o final é surpreendente.

Toda a trama tem um contexto forte de sobrevivência, de superação, de como cada aprendizado mínimo fazem uma diferença enorme na vida de quem não tem nada, de como a sociedade pode ser cruel e de que SIM, é possível contrariar todas as possibilidade e ter sucesso na vida, além de ser feliz. Essa é a mensagem principal de uma história fictícia, mas que cabe em qualquer contexto de superação.

Depois de tantos adjetivos, dizer que VALE A LEITURA chega a ser irrelevante. 

É impossível ler Um lugar bem longe daqui e não viajar junto com a história, imaginá-la sendo adaptada para o cinema. Pois ela será!!!  Os direitos foram adquiridos pelo ícone Reese Whiterspoon, que gostou tanto da história, que chegou a indicá-lo em seu clube de leitura.

Um lugar bem longe daqui é uma publicação da Editora Intrínseca. 

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