Os últimos dias de Lampião e Maria Bonita | Victoria Shorr

O livro Os últimos dias de Lampião e Maria Bonita relata com uma riqueza de detalhes, e contexto histórico fascinante, os momentos finais de dois personagens marcantes da nossa história.

Apesar de ser jornalista, apaixonada por história, conheço muito mais sobre a Segunda Guerra Mundial do que sobre a Ditadura Brasileira e outros fatos que fizeram parte da nossa formação.

Já é uma marca da literatura estrangeira usar acontecimentos históricos, como as guerras, como pano de fundo para romances e dramas. Essas leituras além de entreter e encantar os leitores, também informam e trazem muito conhecimento que passou despercebido nas aulas de história.

Cito aqui como exemplo, o programa Lebesborn, do nazismo que incentivava o sexo entre desconhecidos com o intuito de gerar bebês perfeitos, que formariam a futura geração de raça pura da Alemanha. Essa história bizarra, real e longe dos livros de história está na obra “As crianças esquecidas de Hitler”, dos escritores Ingrid Von Oelhafen e Tim Tate.

Quantas histórias nacionais também mereciam ser eternizadas nas páginas de um livro? Deixe seu comentário. E as que já são precisam ser lidas e divulgadas. É a nossa história, são os nossos causos, nossa cultura, nossas lendas.

Quando o assunto é Lampião e Maria Bonita, pouco sabemos, além de uma breve pincelada nas aulas dedicadas às revoltas nacionais. Sabemos o destino dos cangaceiros, mas o que muita gente desconhece é como foram os últimos dias, como viviam, por que optaram por esse caminho, o que temiam, quem eram seus aliados, quais eram os seus sonhos.

E é exatamente nisso que a escritora Victoria Shorr foca, ao mostrar um pouco da história do Cangaço, o clima pré-morte, os anseios em torno deles, da polícia e populares, que tiveram papel determinante na captura e morte.

O principal destaque da trama é Maria Bonita. Conhecemos a menina, que ansiava por um dia ver de perto os lendários cangaceiros. A jovem que foi obrigada a se casar para não morrer de fome. E sua transformação na mulher mais temida do Nordeste. Só isso aqui já vale a leitura.

Os últimos dias de Lampião e Maria Bonita é um romance de ficção, baseado em fatos e personagens reais, e literatura dedicada ao estudo do Cangaço. É uma narrativa íntima, emocionante, tensa e bem crua. São personagens que tiveram suas vidas marcadas pelo movimento, e que deixaram uma grande marca na história do Brasil.  

Intercalando passado e presente, a autora trouxe a visão de personagens importantes sobre os fatos: Maria Bonita (1ª dama do sertão); Joca, o corno (delator); Bezerra (policial); Zé Sereno (braço direito de Lampião); Cila (companheira de Zé Sereno); Pelos olhos deles, conhecemos um pouquinho da beleza do sertão nordestino, as dificuldades vindas com a seca, a violência e a corrupção do banditismo. Conhecemos também as tradições e costumes da época e, sobretudo o que foi de fato o movimento do Cangaço brasileiro.

“Nada ficava azul nesse lugar por muito tempo. Aos poucos, sem que percebessem, tudo ficava impregnado com a poeira marrom-acinzentada. Lembrava-se da tia idosa que lhe pediu para buscar seu “lenço azul”, que tinha deixado em casa. Sabia o que ela queria, porque a tia só tinha um lenço que nunca fora azul nos vinte anos em que Cila havia morado com ela.” (pág.164)

O Cangaço: Surge no Brasil no final do século XVlll, diante de um cenário de fome, desemprego e questões fundiárias, que levaram até camponeses a ingressar nesses grupos. Em sua maioria, os cangaceiros eram formados por mercenários que serviam a latifundiários, ex-capatazes das fazendas, proprietários de terra, e pessoas comuns movidas por vingança.

É o caso de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Um camponês cego de um olho, que, após ver o pai ser assassinado, e a justiça silenciada, decidiu buscar vingança com as próprias mãos. Primeiro se unindo a um bando, para em seguida formar o seu próprio. Cujo lema era: “Amor, respeito e obediência…” (pág. 168)

Sob a bandeira do combate às injustiças sociais, os cangaceiros tinham apoio de grande parte da população, sobretudo os mais pobres. Filhos da terra e profundos conhecedores do sertão, tinham a fama de serem os “Robin Hoods” por poupá-los de saques e vandalismo, mas eram grandes aliados dos poderosos da região. Além dos acordos em troca de suprimentos, e munição, inclusive com policiais, os cangaceiros também ofereciam proteção àqueles que eram considerados amigos “aliados”.

“No início, Maria Bonita surpreendeu-se com os contatos tão próximos de Lampião com os ricos e poderosos, com os quais compartilhava ligações familiares e territoriais. O fato de Lampião viver à margem da lei não era um problema para eles, porque também a descumpriam quando necessário”. (pág.86)

É uma teia de corrupção, violência em um jogo de poder e política. Lampião era temido no sertão, mas também era respeitado, venerado, e constantemente caçado. O seu bando vivia em uma eterna fuga, e a iminência da morte era rotineira e até mesmo esperada, já que o cangaceiro previa que sua morte seria no mês julho, e de fato foi.

“Lampião sempre carregava um veneno de efeito rápido, caso fosse capturado vivo, com uma quantidade também para ela.” (pág. 92)

Conhecido por enganar e escapar dos melhores cercos da polícia de todos os estados do Nordeste e também do Exército Brasileiro, a sorte sempre fora uma aliada de Lampião, mas o que sobressaia mesmo era a sua inteligência, perspicácia e capacidade de liderança. Ele era um profundo conhecedor do sertão, e por anos viveu como uma verdadeira lenda, fazendo parte da história do Nordeste, inclusive, atrapalhando o seu desenvolvimento, já que impedia o andamento de obras que ele julgasse interferir em seu modo de vida.

“Até então, Lampião sempre conseguia interromper a construção das estradas. Aproximava-se do primeiro operário que via e dizia: “Estão construindo essas estradas para me perseguir!”. Avisava que mataria todos os operários ou qualquer pessoa que trabalhasse nas estradas do sertão. E cumpriu a palavra. Assassinou diversos operários, mas em geral não matava os mais jovens para contassem o que haviam escutado: Lampião não teria piedade e todos que trabalhassem nas estradas seriam mortos.”

Mas esse monopólio do Cangaço estaria com os dias contados. E até os cangaceiros já previam isso. Todos os seus passos já eram registrados na imprensa, inclusive Lampião sabia muito bem usar os veículos de comunicação para desmentir as suas inúmeras mortes e também destacar os seus feitos.

“Não se pode falar sobre o sertão sem citar três grandes forças: a seca, padre Cícero e Lampião”. (pág.161).

A propósito de padre Cícero, há uma passagem importante onde ele pede ajuda a Lampião para proteger a cidade de uma suposta ameaça comunista.

“Assim que souberam que padre Cícero não só tinha recebido Lampião, como também lhe havia dado armas, as críticas foram impiedosas. Houve comentários a respeito de punição e ameaças de processo judicial, mas o padre era um político experiente. Ele não teria mantido seu poder na região por 50 anos se não fosse um hábil negociador. ” (pág.159)

Lampião foi um homem corajoso, impiedoso, mas também soube amar. A relação dele com Maria Bonita é terna, em meio ao futuro incerto e nada promissor. A história dela é fascinante, e de uma coragem absurda, apesar de todo contexto de violência. O livro não os prega como heróis, pelo contrário, mostra que foram humanos, com desejos, defeitos, ambições e até mesmo privilégios, que os levaram a um beco sem saída, sem possibilidade de redenção.

O que mais me chamou atenção neste livro foi a simplicidade com que a escritora Victoria Shorr estruturou a história. A leitura é descomplicada, quase poética, e extremamente informativa. É uma leitura para conhecer e depois dá um Google para saber mais sobre essas pessoas.

O contexto histórico é forte e as revelações sobre a cultura e costumes de época são muito ricas e chocantes. Os relacionamentos em razão da fome chamam atenção, quanto a desvalorização da mulher, obrigada a se casar para não morrer de fome, e homem que se quer sabe o nome da esposa.

“Deveria ter perguntado seu nome, mas isso não tinha a menor importância. “Cida” ou “Graça” era sua mulher, ele a alimentava, lhe dera uma casa pra morar, ela limpava a casa e cozinhava e o “recebia”, como diziam, quando tinha vontade. Não era suficiente?” (pág.31)

O Cangaço brasileiro, assim como diversas outras revoltas e fatos, rendem muitas histórias e a literatura só tem a ganhar com isso. Os últimos dias de Lampião e Maria Bonita  vale cada linha.

O livro é uma publicação da Editora da Gryphus

*O Cangaço foi bastante enfraquecido após a morte do principal símbolo, Lampião. E teve fim no governo Vargas (1930), que promoveu uma intensa campanha para acabar com os cangaceiros.   

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comentários

9 Replies to “[Resenha] Os últimos dias de Lampião e Maria Bonita | Victoria Shorr”

  1. Sinceramente não é uma história que me desperta interesse pela leitura, no entanto durante a leitura de sua resenha mudei completamente minha opinião. Primeiro pelo fato de que a trama e bastante informativa, e tem como pano de fundo uma época bastante conturbada do Brasil. Outro ponto importante e que o cangaço e importantíssimo em nossa história e teve um papel importante no sertão. E o romance me pareceu trazer um conteúdo que prende o leitor. Enfim, acredito que será uma trama que vai me prender, até pela facilidade com que a leitura se tornou.

  2. Que post maravilhoso! Eu também sei mais sobre a segunda guerra mundial do que sobre as questões de legado brasileiros e isso acho que é um pouco enraizado mesmo no nosso interesse. Pelo menos eu sou assim. E olha que apesar de saber um pouco mais dos fatos do cangaço, eu temo eles. Acho que foi um pouco de muita maldade o que eles fizeram, claro que também queriam vingança, mas li coisas em livros que citavam coisas muito cruéis com civis mesmo e acho que este era o ponto errado, sabe?
    Obrigada pela dica de livro de As crianças de Hitler, é outro que vou ler.

  3. Oi! Realmente, eu também sei muito mais coisas sobre a segunda guerra, e sobre outros acontecimentos históricos de outros países, em detrimento ao meu. Reconheço que a história de Lampião e Maria Bonita é mesmo intrigante, interessante e rica demais! De pensar que todas essas aventuras, fugas, mortes, e politicagens aconteceram há não tanto tempo atrás e nem tão longe daqui! É incrível! Conhecer sobre estas pessoas, suas histórias de vida, suas motivações, é incrivelmente excitante! Obrigada pela dica!

    Bjoxx ~ Aline ~ http://www.stalker-literaria.com

  4. Oi!
    No meu tempo de escola eles foram os principais personagens brasileiros citados em debate, e não é para menos foram eternizados principalmente em questões de martírio, mortes, fome e pobreza e assassinatos, pois eram sem lei. Parabéns pela sua resenha anotei o nome do livro vou procurar saber mais sobre o autor também, obrigado pela dica, bjs!

  5. Nunca li nada sobre o Cangaço, e depois da sua resenha sinto que é algo que eu preciso saber mais, mesmo que seja com um livro de ficção. É muito importante conhecer melhor nossa país e culturas. Adorei a resenha!
    beijos

  6. Esse livro deve ser muito bom, confesso que fiquei bem interessado, pois é uma história baseado em fatos reais, o que me prende muito a atenção. Excelente dica.

  7. Você realmente tem razão: sabemos mais das guerras mundiais, as que nem nos envolvemos ativamente, do que os conflitos que aconteceram no nosso solo. Adorei a resenha, já quero ler este livro pra ontem.
    beijos

  8. Parabéns pela resenha! Muito completa e instigante!
    Já tinha lido outras resenhas a respeito desse livro e concordo com você a respeito da impotância de se falar e estudar essas histórias não contadas, não só do Brasil, como do mundo.
    Pretendo realizar essa leitura o quanto antes!

  9. Olá! ótima postagem e concordo, a nossa história também tem de ser contata nos livros, por que são história marcantes né, é a história do nosso país! Gostei de conhecer e já quero ler! dica anotada!

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