Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Uma das obras mais célebres do autor, Memórias Póstumas de Brás Cubas, comemora em 2020, 139 anos de sua primeira publicação.

Um clássico que já iniciou o ano em meio a polêmicas. É que a obra faz parte da absurda lista de livros nacionais censurados pelo governo de Rondônia, que não informou o motivo, mas voltou atrás após a polêmica. Bem-vindo ao Brasil 2020!

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” Com esta frase, a edição ilustrada da Editora Principis, abre as histórias póstumas do Brás Cubas.

No Brasil do século XVlll, temos um personagem que, desde sua infância, já usava e abusava dos privilégios da sua classe. Nasceu cercado de expectativas: o tio cônego já o via em um possível bispado. O tio militar enxergava no sobrinho um “certo olhar de Bonaparte”. O fato é que o bebê Cubas, cresceu mimado, pirracento e malvado. Chegando ao absurdo de montar no escravo Prudêncio e fazer dele seu “cavalo”.

O que esperar de um jovem mimado e privilegiado? Um adulto sem perspectivas, sem trabalho, que gasta o dinheiro da família entre festas e mimos para a espanhola Marcela. Porém, na hora de provar seu amor, a moça se nega a acompanhar o moço em seus estudos em Portugal. Partindo o coração do jovem Cubas.  

A propósito, estudar em Portugal, era uma alternativa que as famílias ricas tinham de salvar o futuro dos filhos, fazendo-os doutor. Essa ação do pai, reflete mais uma das diversas críticas de Machado de Assis à sociedade da época. Ele criou um personagem debochado, irônico e que sempre que pode dá uns pitacos críticos e pertinente a sociedade da época, com alguns reflexos na atualidade. 

Cubas passa um bom período em Portugal, mas nada que mude sua personalidade ou seus privilégios. De volta ao Brasil para ver a mãe que está à beira da morte, é hora de rearranjar o futuro do doutor e garantir estabilidade. Que tal um casamento?! Assim como nos romances europeus, o casamento no Brasil também representava stories e uma opção para ascensão social. 

Embora mesmo sendo branco e pertencer a uma família abastada, a atividade comercial (venda de tachos) exercida por eles, não era suficiente para manter o status social. Não era bem vista pela sociedade. É chegada a hora de casar, arranjar uma “boa moça”, com uma família influente, além do dote. Casar-se por amor, não era uma opção disponível a todos. 

Alheio aos arranjos do pai com a família de Virgília, Cubas se apaixona pela jovem Eugênia, se encanta por sua formosura, mas se decepciona ao notar uma leve deficiência na perna da moça. Preconceituoso, ele desiste dela, e foca todas as atenções para o casamento arranjado com a moça aparentemente perfeita.

Só que a bela Virgília, escolhe alguém com um futuro digamos mais promissor que o de Cubas, e se casa com o político Lobo Neves. Talvez daqui venha a grande polêmica, Cubas e Virgília se tornam amantes contrariando toda a moral e os bons costumes. Ele se aproveita do nome de Lobo Neves para criar uma rivalidade incontida e quem sabe desbancar o “corno” e assumir seu cargo na vida pública e na cama de Virgília.

“Sim, senhor amávamos agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamonos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no purgatório…” (pág.46)

 As memórias Póstumas de Brás Cubas para além da história, apresenta um panorama importante da sociedade brasileira no século XVlll, suas convenções sociais, preconceito enraizado e aparências que grande parte da população rica ainda ostenta.

O jeito Cubas de ser e sua narrativa são interessantes, porém pela linguagem não é tão de fácil compreensão. Por isso indico a versão dos quadrinhos, que além de ser reduzida, apresenta uma junção impecável de desenhos perfeitos e muito bom gosto.

Brás Cubas abre seu baú de memórias dedicando-as ao verme que “primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, mas quem ganha é o leitor que em toda leitura de época acessa um pouco dos costumes e tradições da sociedade da época. É uma boa leitura para reflexão, sobretudo quanto aos problemas sociais que estão entre nós há mais de 500 anos.   

Só depois de morto, e revisitando suas memórias, é que Cubas têm a dimensão de sua insignificância e mediocridade existencial. 

No Resenhando você encontra resenhas de todos os gêneros literários.

Deixe o seu comentário

comentários

Deixe seu comentário