Amor de Perdição | Camilo Castelo Branco

Amor de Perdição é daqueles romances clássicos que marcaram a adolescência e as aulas de literatura de muitas gerações.

Amado ou odiado, o drama publicado em 1862, continua até hoje fazendo parte da vida acadêmica de vestibulandos, chocando com o seu tom ultra dramático e trágico. Mas, sobretudo, mantendo vivo o legado do escritor português Camilo Castelo Branco.

A despeito do autor, consta em sua biografia que Amor de Perdição foi escrito enquanto o mesmo estava preso. O crime? Raptar uma mulher casada. Alguns estudiosos, inclusive, encontram várias semelhanças entre os dilemas vividos pelo autor e o protagonista deste romance. Suposições à parte, uma certeza: nunca achei que fosse ler um livro mais dramático que O Morro dos Ventos Uivantes, até me deparar com essa obra prima indicada pela minha amiga Áfia, que, aliás, ama esse romance.

Eu também gostei bastante, pela autenticidade de um romance de época, escrito na época, e por conhecer um pouquinho dos costumes e tradições de uma sociedade séculos antes da nossa. E, principalmente, ler histórias de personagens fortes, sobretudo mulheres, que, com atitudes devastadoras, mudaram paradigmas que nos deram hoje a possibilidade de casar por amor, por exemplo.

Leituras clássicas instigam a nossa mente e nos fazem refletir. Gosto de todo o capricho que os autores clássicos têm com o leitor. E as editoras aproveitam para nos brindar com edições que valem a pena a apreciação.

Mesmo sendo uma versão pocket, a editora Edições Best Bolso traz no início do livro todas os prefácios escritos pelo autor em várias épocas. Em uma, ele está surpreso pelo sucesso do livro, em outra, relutante em reler a obra, e se segurando firmemente para não fazer alterações na história. E prevalece em toda história aquele cuidado e dedicação que os escritores clássicos dão aos leitores, de dialogar com eles abertamente ao longo da narrativa. Esse traço é um dos que mais valorizo em leituras como esta. Separei alguns trechinhos que me chamaram atenção.

“O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria!”. (pág.20)

No ápice de história:  “Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil de falta de dinheiro”. (pág. 84)

“Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Fatos e não teses é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as funções ópticas do aparelho visual.” (pág.161).

Amor de Perdição é uma saga romântica de dois amantes para viverem seu grande amor. O empecilho é o ódio entre as famílias dos dois. E sabemos por experiência Shakespeariana que tem tudo pra dar errado. Durante toda leitura, influenciada pelo título, fiquei de fato a procura do amor e da perdição.

De repente, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque se amam loucamente. Enquanto Teresa vive a mocidade em casa com os pais, Simão Botelho se aventura pela cidade de Coimbra onde deveria estar estudando, mas a realidade é bem diferente. Simão nada mais era que um valentão arrogante, apesar de apresentar boas notas.

“ Simão emprega em pistolas o dinheiro dos livros, convive com os mais famosos perturbadores da academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e provocando-os à luta com assuadas”. (pág. 27)

Aos 15 anos, o rebelde Simão acaba se envolvendo em um evento trágico para defender um dos criados de seu pai, indo parar atrás das grades. Por este feito vergonhoso, ele ficou seis meses preso, perdendo assim o ano letivo. Ao voltar pra casa, repelido pelo desgosto do pai, e acolhido pela dureza da mãe, Simão precisará repensar suas atitudes, uma vez que o pai sequer lhe dirige a palavra.

“No espaço de três meses fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. As companhias da ralé desprezou-as. Saía de casa raras vezes, ou só, ou com a irmã mais nova, sua predileta… Em casa encerrava-se no seu quarto, e saía quando o chamavam para a mesa.” (pág.31).

O motivo da mudança? Teresa Albuquerque, a vizinha de 15 anos, que correspondeu ao amor sincero de Simão. Durante três meses eles mantiveram um romance discreto que não chamou atenção de ninguém.

Ciente do ódio entre as famílias, a promessa era de que após a formatura, Simão tivesse condições de sustentar a amada. Outra possibilidade era aguardar a morte do pai, para que Teresa pudesse enfim ter direito a sua herança. Enquanto isso, as cartas seriam o meio de comunicação entre eles.

Contudo, os planos são frustrados quando o pai de Teresa descobre o romance. Aqui entra em cena a força dessa personagem.

“É mulher varonil, tem força de caráter, orgulho fortalecido pelo amor, desapego das vulgares apreensões, se não apreensões a renúncia que uma filha faz do seu alvedrio às imprevidentes e caprichosas vontades de  seu pai.” (pág.42)

Obrigada a se casar com o primo, Teresa dá uma aula de feminismo. Enfrenta o pai e o primo e afronta toda a família ao preferir ficar enclausurada em um convento a viver um casamento sem amor. Respostas rápidas e ácidas, argumentação concisa e firme, Teresa Albuquerque está anos luz à frente do seu tempo e eu posso provar.

“_Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de falar!… Quem pensaria que os seus dezesseis anos estavam tão abundantes de palavras!…

_ Não são só as palavras, primo ¬ retorquiu Teresa com gravidade ¬, são sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe mentisse, ficaria mais bem-vista de meu primo? (pág.39)

“_ Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo… Decerto não caso; e morro contente, mas não caso.” (pág.69)

Consumido de paixão, Simão sofre com a distância da amada. As cartas, muitas vezes mediada por uma mendiga, são sempre tristes, mas sinceras. O pai de Teresa pressiona. O primo chantageia. Mas Teresa segue firme no propósito, enquanto Simão está de mãos atadas. Porém, o espírito rebelde do jovem fala mais alto e, em uma tentativa de ver a amada, Simão se envolve novamente em uma tragédia.

Salvo pelo ferreiro João da Cruz, Simão se vê obrigado a ficar na casa do homem, enquanto se recupera. Nesta casa ele conhece Mariana, filha do ferreiro, moça bondosa e solícita, que se apaixona imediatamente por ele. Nasce aqui um amor fraterno e fiel. Mesmo Mariana amando perdidamente o jovem Simão, ela se torna uma das mediadoras das cartas de amor entre ele e Teresa reclusa no convento. Eterna cuidadora de Simão, inclusive enquanto este amarga mais uma prisão.

Com o avançar das páginas a separação entre eles parece algo inevitável. A impossibilidade desse amor é triste, porque eles são jovens, têm uma vida inteira pela frente, mas de nada vale isso se não tem um ao outro. Amor tem de sobra, só nos resta então esperar pela perdição.

Amor de Perdição trata de tempos de homens dignos que honravam com a própria vida as suas palavras. Tempos do poder totalmente soberano masculino e do machismo impetuoso. De amor sincero e arrebatador, mas também de tragédias, mágoas e violência.

Camilo Castelo Branco sutilmente incutiu diversas críticas à sociedade da época, estamos falando aqui de 1860, e muita coisa não mudou de lá pra cá, como o privilégio de quem tem dinheiro e poder e o preconceito da sociedade. Escancara algumas realidades surpreendentes como a vida nada puritana de um convento português, e a submissão feminina na hierarquia familiar. Em um determinado momento da trama, o pai de Teresa, a julga indigna de casar com o primo, por conta da desobediência.

A propósito, ler sobre as mulheres no século XXlll é algo importantíssimo. Saber que hoje podemos casar por amor, que os nossos pais não precisam pagar um dote para o casamento, poder sair de casa sozinha pra ir a esquina, trabalhar, deve-se muito àquelas que como a Teresa, lutaram firmemente em prol da independência feminina. É uma personagem literária que representa a força das mulheres reais que com corajosas atitudes mudaram o nosso destino.

Amor de Perdição é uma novela ultra romântica, com uma dose de aprendizado gigantesca. Não é fácil de ler, pelo vocabulário rebuscado, além de expressões tradicionais do português de Portugal. Além disso, a carga dramática é pesadíssima e profunda. A esperança de um final feliz vai esvaindo a cada virada de página. Quando o livro termina fica aquela sensação de perda e tristeza diante de tanta infelicidade.

Vale a leitura por diversão! Quando se tem a obrigação de ler para fazer uma prova ou um trabalho acadêmico, a tarefa é sempre árdua, independentemente da história.

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