Alucinadamente Feliz | Jenny Lawson

Alucinadamente Feliz foi a maneira que a Jenny Lawson encontrou para conviver pacificamente consigo mesma e com os inúmeros transtornos mentais e problemas de saúde que tem.

“Todos nós temos a nossa cota de tragédia, insanidade ou drama, o que faz toda a diferença é o que fazemos com esse horror”. (pág. 17)

Nem sempre Jenny está de fato Alucinadamente Feliz, ela passa por muitos perrengues difíceis de lidar. Eu diria que Jenny é alucinadamente honesta por compartilhar conosco a intimidade do seu lar, o dia a dia da sua conturbada vida, com destreza e simplicidade. Embora os problemas sejam extremamente complexos.

“Quando comecei a tomar meu primeiro antidepressivo, o efeito colateral foi me deixar obcecada por suicídio (e isso é mais ou menos o oposto do que você quer).” (pág.82)

Jenny é casada com Victor há 18 anos, e tem uma filha de 10 anos. Victor é amoroso e até paciente em relação a diversas ações de Jenny. O amor do casal é admirável. Contudo é muito difícil ler sem julgar. Em alguns momentos ela tem atitudes infantis e irresponsáveis e obviamente prejudiciais ao seu corpo, como quando descreve os episódios de automutilação (uma das partes mais tocantes).

“Fazia anos que eu me feria. Mas nunca havia sido tão grave. Eu arrancava as minhas cutículas até elas sangrarem, mas e daí? Muitas pessoas fazem isso. Puxava cascas de feridas quando estava nervosa. É nojento, mas não é inusitado. Eu puxava meu cabelo. Arrancava. Pela raiz. E não conseguia parar até ter grandes chumaços no meu colo. Coçava o couro cabeludo e a testa. Profundamente. Com unhas lixadas num formato para cortar. Victor segurava minhas mãos quando estávamos na cama para me impedir, mas eu não conseguia evitar. Nem explicar.” (pág.105)

Ela tem absoluta consciência de que o que faz na maioria das vezes é errado, tanto que escreveu sobre isso, se julga em vários momentos, é irônica, divertida, dramática, e principalmente tem noção do impacto que os seus relatos vão causar nas pessoas com os mesmos transtornos que ela ou que lidam com pessoas assim.

“E, quando vemos celebridades que se deixam enganar pelas mentiras da depressão, pensamos: “Como podem ter se matado? Tinham tudo”. Mas eles não tinham. Não tinham a cura para uma doença que as convenceu de que era melhor morrer.” (pág.83)

A convivência com alguém com tantos problemas emocionais, de saúde e restrições alimentares, não deve ser nada fácil. Fiquei tão impressionada que listei alguns dos problemas de Jenny e concorde comigo que de fato temos que agradecer pelo que nos foi dado para sobreviver.

“De acordo com os muitos psiquiatras que visitei nas últimas duas décadas, sou uma depressiva altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada e distúrbio de automutilação brando proveniente de um transtorno do controle de impulsos. Tenho transtorno de personalidade esquiva (que é tipo uma fobia social chapada de anfetamina) e um ocasional transtorno de despersonalização …” (pág.25/26)

“Tenho artrite reumatoide e doenças autoimunes. E salpicadas como granulado sobre o bolo mentalmente desequilibrado, coisas como um TOC moderado e tricotilomania (o impulso de arrancar os cabelos) …” (pág. 26)

“Sou alérgica a látex –  ele deixa minha pele toda irritada”. (pág.46)

“Eu sofro de insônia crônica desde sempre” (pág.53)

“Sou muito intolerante à lactose”. (pág.67)

Esse livro desperta uma montanha russa de emoções, porque a Jenny é inconstante. Às vezes sentimos compaixão, empatia, às vezes estamos do lado do marido, porque esse cara é o rei da paciência. Senti empatia pela Jenny, mas refleti bastante sobre o marido Victor. É ele quem está ao seu lado em todos os momentos de crise, nas esquisitices, como quando ficou horas tentando montar um guaxinim empalhado em um gato. 

Alucinadamente Feliz funciona como uma espécie de diário, em que a Jenny vai relatando como seus transtornos e problemas de saúde afetam no seu dia a dia. Não é uma leitura triste, pelo contrário, dei boas risadas, mas também refleti bastante.

É um livro fácil de ler. A linguagem é simples, contudo no momento em que pegamos intimidade com a Jenny a leitura se torna arrastada e bem previsível. Quando entendemos pelo que Jenny passa, o livro vai perdendo a força, embora não sua importância.

Extraindo a essência da história, é tudo muito tocante e garanto que você sair desta leitura pelo menos grato com o que tem para viver.

“Às vezes, ser louco é como enfrentar o demônio. E às vezes o demônio sou eu.” (pág.154)

Alucinadamente Feliz é uma publicação da Editora Intrínseca

Leia todas as nossas resenhas aqui!

Deixe o seu comentário

comentários

Deixe seu comentário