Querida Konbini – Sayaka Murata

Da premiada escritora japonesa, Sayaka Murata, Querida Konbini é um livro intrigante e que faz você refletir a cada situação vivida pela protagonista, Keiko Furukura. É daquelas histórias que, de tão bem escritas e construídas, despertam diversos sentimentos no leitor. 

Depois de uma sucessão de constrangimentos em ações ou falas consideradas inapropriadas, Keiko decidiu, ainda na adolescência, mudar o seu jeito de viver para que seus pais não fossem constrangidos. A partir dessa atitude, as relações de Keiko, seu modo de agir e seu modo de ser permanecem inertes e mecanizados, imitando pessoas que, na sua avaliação, são aceitas pela sociedade.

“Quando parei de falar o que quer que fosse além do estritamente necessário e de agir de forma espontânea, os adultos pareceram aliviados.” (pág.18)

É uma personagem que tem nossa simpatia e empatia, porque todas nós, mulheres, em algum momento nos sentimos assim, mas de alguma forma conseguimos romper essa concha e nos libertar. A forma com que Keiko encontrou para se ajustar, de alguma forma, foi o trabalho na Konbini — uma espécie de loja de conveniência 24 horas, com procedimentos padronizados a que ela se adequa muito bem. 

Com o passar da leitura vemos que, algo que era tido como temporário na Querida Konbini , foi se tornando parte dela, de tal forma que, quando não estava na Kombini, ela não sabia se portar devidamente e seus pensamentos eram totalmente dominados pela dinâmica de funcionamento da loja — até mesmo a forma como cuidava do seu corpo. Mas era ali que ela se sentia bem e útil de alguma forma. Seguindo o rótulo de “funcionária”, Keiko era igual a todos. No fim das contas, era isso que ela queria: ser aceita e se sentir igual.

É nítido que Keiko tem problemas, e viver a Konbini foi a única solução que ela encontrou sozinha para existir, e poderia viver assim para sempre, mas a pressão social para se casar, ter filhos ou, simplesmente, ter um homem, sufocam Keiko, que se vê praticamente forçada a romper sua concha para agradar a sociedade. Então escolhe, na minha opinião, um dos piores personagens masculinos que já li.

“Eu sempre quis me vingar de vocês, mulheres, que podem viver como parasitas. Sempre quis parasitar uma de vocês, para mostrar o que é bom. Agora vou continuar vivendo às suas custas, haja o que houver.” (pág.115) 

Shirara é um folgado e mau caráter. Um cara que quer arrumar uma mulher para que ela possa trabalhar e ajudá-lo a montar uma loja online — apenas. Ele não esconde isso em momento algum, proclama aos quatro ventos suas vontades, humilha Keiko a ponto de impor privações a ela — como a de usar um chuveiro pago e não o que tem em casa. 

Para se ver livre da imposição social e agradar aos que estão ao seu redor, Keiko aceita o acordo de, literalmente, manter o macho em casa com todas as mordomias possíveis. E como já era de se esperar, sua vida mudará muito com isso.

A leitura de Querida Konbini é breve, os fatos se desenrolam rapidamente e a escrita da autora é contundente. Keiko é uma personagem inteligente e, até certo ponto, dentro daquilo que se propõe a fazer, esperta, porém, com pouquíssimo traquejo social, algo que poderia ter sido trabalhado com ajuda psicológica lá na infância.

Vi Keiko como uma mulher que sobreviveu e tentou, à sua maneira, seguir com a sua vida sem incomodar ninguém, mas que foi impossível realizar esse desejo pelas normas de uma sociedade que, de contemporânea, não tem nada.

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