Pachinko da autora Min Jin Lee, narra a história fascinante de uma saga familiar relegada à sua terra natal

Ao lado dos nacionais Torto Arado (Itamar Vieira Júnior) e Clara dos Anjos (Lima Barreto), Pachinko, da escritora coreana Min Jin Lee, foi, sem dúvida, uma das leituras mais surpreendentes de 2021. 

Eu gostei muito e já aguardo a prometida adaptação em série (Apple TV) que, mantendo a fidelidade da trama ou não, vai ser tão impactante quanto a leitura.

Primeiro quero destacar como é interessante ler autores internacionais, conhecer a cultura de seu povo, adentrar no cotidiano até então desconhecido, mas que acaba se tornando, com seus dramas e dilemas, muito semelhantes a nós em vários aspectos. 

Minha mãe sempre diz: “gente é igual em tudo que é lugar”. E ela tem razão! Quanto mais leio novas culturas, especialmente as sagas femininas que reforçam como é ser mulher e principal alvo de tantos preconceitos (machismo, reputação, violência, desigualdade, entre outras) em qualquer parte do mundo, mais encontro semelhanças com o que já vivemos e viveremos e que ainda precisamos lutar muito para conseguir derrubar. Com Pachinko, não é diferente. 

“… Sunja-ya, a vida de uma mulher é trabalho e sofrimento sem fim. É sofrimento após sofrimento. É melhor se preparar, sabe. Você está se tornando uma mulher, então, precisa aprender isto: o homem com quem se casar vai determinar sua qualidade de vida. Um bom homem vai lhe dar uma vida decente, já com um homem ruim você terá uma vida amaldiçoada… Mas não importa o que aconteça, sempre espere sofrimento e continue trabalhando duro. Ninguém se preocupa com uma mulher pobre… a não ser nós mesmas.” (pág.37)

Lançando mão de um contexto histórico com detalhes riquíssimos e pouco difundidos entre nós sobre a colonização japonesa, na até então Coreia (antes de se dividir em Norte e Sul), as consequências desse domínio registradas em pelo menos 5 gerações de coreanos da família: racismo, xenofobia, violência, escravidão, falta de pertencimento, entre outros. Tudo isso levou a muito sofrimento, dor, suicídio e poucas mudanças em perspectivas sociais e culturais ao longo dos tempos retratados na história. 

Pachinko narra a saga de uma família, por quase 50 anos, que começou com Sunja, uma adolescente iludida, apaixonada, grávida, sozinha, cuja honra é “resgatada” por um missionário debilitado, que assume seu filho, e livra sua família da “desonra” e da vergonha. Sunja é uma jovem pacata e obediente, que ao lado da mãe Yangjin (que tem um história incrível) trabalham para manter uma pensão sozinhas.

As duas estão são fieis às tradições coreanas e sabem que a melhor opção para a jovem no momento é aceitar o casamento com o pastor Isak, que vem se juntar a missão de introduzir o catolicismo em terras orientais.  O que prometia um recomeço no Japão , se revela uma saga de luta em que mudam as gerações, melhora a situação financeira, mas o que é estrutural permanece, geração após geração, com danos e dramas ainda mais pesados e praticamente indissolúveis. 

“Quando contou a seus amigos de Nova York sobre essa curiosa anomalia histórica e sobre o preconceito ético generalizado, eles ficaram incrédulos diante da ideia de que os amigáveis e bem-educados japoneses que conheciam pudessem pensar que ela era desonesta, preguiçosa, suja ou agressiva, as características negativas e estereotipadas dos coreanos no Japão.” (pág. 474)

Eu não tinha a menor ideia dessa parte da história mundial, e isso me surpreendeu demais. Os descendentes de Sunja estão presentes, entre outros momentos históricos,  na Segunda Guerra Mundial, sendo afetados pela bomba de Hiroshima, divisão das Coreias e na formação da Yakuza.

São muitas histórias e personagens em um livro só e muitos acontecimentos marcantes. Vou destacar alguns trechos que não contêm spoiler, mas que falam muito sobre o contexto social e o papel da mulher nesta sociedade ao longo de 50 anos de história e pelo menos 3 países diferentes.

“Amaldiçoado com quatro meninas e nenhum filho homem, o viúvo não tinha o que comer a não ser o que encontrava no bosque.” (pág.15)

“A família é tão pobre e os preços das noivas caíram muito. A garota não vai precisar de nenhuma joia.” (pág.15)

“Os sogros de Yangjin nunca lhe negaram comida nem roupas. Nunca a criticaram nem bateram nela, apesar de ela ter fracassado em lhes dar um herdeiro.” (pág17) 

“… E a noite, antes de fazer minhas preces, me ocorreu que há algo que posso fazer por elas: dar à mulher e à criança meu sobrenome. O que meu sobrenome representa pra mim? É apenas uma questão de graça divina que eu tenha nascido homem para poder dá-lo a meus descendentes.” (pág.78)

“… os três comiam juntos, em família, na mesma mesa de jantar baixa. Seu pai poderia comer antes das mulheres, mas nunca quis fazer isso.” (pág.84)

“Mas Yangjin sabia que tinha que ficar. Era responsabilidade dela cuidar do túmulo dos sogros e do marido.” (pág.106)

“… seu pai nos ensinou. Seu lar é ao lado do seu marido. Foi isso o que o pai disse a ela quando se casou com Hoonie. ‘Nunca mais volte para casa’, mas Yangjin não era capaz de dizer isso à própria filha. Construa um bom lar pra ele e para seu filho. Esse é o seu dever. Eles não devem sofrer.” (pág.108)

“A garota não parecia uma meretriz, nem falava como uma. Ela parecia tão modesta e simples que Yoseb se perguntou se não teria sido violentada por algum conhecido. Esse tipo de coisa acontecia e, ainda assim, a garota teria sido acusada de incitar um homem.” (pág. 112)

“Gostava de chegar em casa e encontrar sua mulher bonita e descansada, com o jantar pronto… O motivo ideal para um homem trabalhar duro, ele acreditava.” (pág.140) 

“Desde que se casaram, ele não havia negado nada a ela, a não ser a possibilidade de trabalhar para ganhar dinheiro. Yoseb acreditava que um homem devia ser capaz de manter sua família sozinho e que a mulher devia permanecer em casa.” (pág.193)

Pachinko é um livro bem grandinho, mais de 400 páginas, mas que vale a pena cada uma, cada passagem de tempo, cada pedacinho da história real da colonização japonesa (há situações de gatilhos) e da introdução do cristianismo nessa cultura. Das quebras necessárias de paradigmas e de como as mulheres ao longo dos tempos vêm perpetuando suas lutas.  

Uma dica fascinante para quem gosta de história mundial.

Pachinko é uma publicação da editora Intrinseca. 

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