On The Road, a bíblia subversiva que moldou uma geração

Ao dizer que “a estrada deve, eventualmente, guiar-nos por todo o mundo”, Jack Kerouac estava, sim, diante de mais um devaneio que, talvez, fosse sobre a jornada chamada vida mas, principalmente, a derradeira síntese de sua segunda obra, On the Road, lançada originalmente em 1957. Uma história sobre a busca pela verdade e pela vida autêntica.

Os fãs do movimento sociocultural Beatnik foram agraciados com a edição de bolso da L&PM contendo, pela primeira vez, o manuscrito original de 1951, além de quatro ensaios críticos sobre o universo do escritor. Movido por muita inspiração e benzedrina, Kerouac escreveu durante três semanas os anos de estrada que viveu com seus amigos percorrendo os EUA e o México.

Diferente daquele lançado seis anos depois, o texto original que, no Brasil ganhou tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito, em 2011, não passou pelos cortes, reescritas e mudança nos nomes dos personagens para se adaptar às exigências das editoras à época. O próprio Bueno defende a bíblia hippie dizendo que “nenhum livro do século 20 terá deflagrado uma revolução comportamental maior do que a obra de Kerouac.”

É preciso fôlego para mergulhar de cabeça nos 40 metros de rolo de papel telex ininterruptos de uma história semelhante às nossas vidas: sem enredo, sem pausa, sem descanso. Para muitos, a genialidade de Kerouac oriunda da sua capacidade de prosear de maneira livre, simples, espontânea, criativa, fluída, verborrágica, fugindo aos padrões acadêmicos vigentes há tanto tempo que tornam o diferente, errado. Ou seja, uma estética revolucionária.

Influenciando personalidades como Bob Dylan, Jim Morrison e o véio Buk – Charles Bukowski para os desavisados, Jack Kerouac apresenta em On the Road, um de seus 23 livros, seu plano e consequente execução quando, após a morte do pai, deixa Nova York rumo ao Oeste, onde encontraria seus amigos, com uma mochila nas costas e 50 dólares no bolso.

Apesar de Kerouac ser o narrador e de integrantes marcantes como Allen Ginsberg, William S. Burroughs, é perceptível que o personagem principal de On the Road é seu amigo Neal Cassady que, na versão ficcional é representado pelo dionisíaco Dean Moriarty. Um rapaz que passara boa parte da vida em um reformatório e que dosava entre a instabilidade e o fascínio daqueles que o reparavam. Outras características o definem: frenético, motorista alucinado, pai dos hippies, lenda imortal.

Neal, inclusive, pode ser frequentemente visto em obras do movimento, pois era amigo de vários autores da Geração Beat. E o maior de todos os heróis de Kerouac é, também, o objeto de seu desfecho, sendo este um dos mais emocionantes da literatura, pois é ao superar Cassady que o autor supera a si mesmo.

On the Road trata de algo que Bob Dylan bem definiu. “A felicidade não está na estrada que leva a algum lugar. A felicidade é a própria estrada”. Definitivamente, Jack Kerouac foi feliz na estrada e em seu livro.

Geração Beatnik

Movimento literário iniciado em meados de 1950 por jovens intelectuais cansados do modelo padrão estabelecido nos EUA pós Segunda Guerra Mundial. Buscavam o poder de se expressar livremente.

Movidos por álcool, drogas, jazz e sexo, a maioria de seus escritores produziam desenfreadamente enquanto viajavam e compunham, em um estilo laudatório, verborrágico, espontâneo e impressionista, com linguagem sonora e coloquial. Na literatura, o movimento durou entre 1944 e 1959.

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