Seus dias eram doídos, maçantes demais e pouco proveitosos. Nada podia oferecer àqueles que o cercavam, pois o menor esforço o jogava contra a parede. Tinha coisas boas a contar, mas decidiu sair de cartaz e enterrar toda possibilidade de comunicação. Seu sono estava contaminado pela angústia, pela pressa e pelo desejo certo de não acordar mais. Mobilizou-se a encontrar respostas para suas dores e percebeu, mais uma vez, que elas se emaranharam ao tempo. Olhava para os lados e via gente feliz, gente com capacidade de rir dos despropósitos da vida e de conjugar os próprios dias, sem auxílio de remédios e de doutor. Com a cabeça baixa e a chama dos olhos extinta pelas lágrimas, escreveu sua despedida. Desculpou-se. Reconheceu o rosário de sofrimentos que sentenciaram sua existência. Era mesmo o momento final, de morte voluntária e de solidão. As palavras, que hoje se juntam às páginas da Bíblia de sua mãe, são a extensão em letras da alma de quem muito resistiu. No seu pescoço, tinha uma corda invisível e ninguém percebeu. Aquele rapaz morreu só.

Não há nada mais brutal do que enterro de suicida. Ninguém se atreve a opinar, mas todos perguntam, silenciosamente, as razões que foram sepultadas junto ao corpo. Nada se encerrou para aquela família porque o sentimento de culpa estará de volta. É coisa que vai além das estatísticas, é a frase lenta e quase impronunciável que rompe a garganta de quem perdeu alguém porque esse alguém decidiu morrer. O luto acontece a duras penas aos que permanecem. Isso dói demais. Não é possível pausar para aprender a seguir. É preciso acordar, trabalhar, responder às manifestações de solidariedade, arrancar força de solo infértil e parar de lamentar a falta de sensibilidade por não ter percebido que algo muito sério estava acontecendo. Tal como o bebê a dar os primeiros passos é a vida de quem se vê obrigado a ressignificar o acordar, o falar, o existir num mundo cruel demais. Todos os dias, de agora em diante, ficará a lembrança. Saudade é outro nome que geralmente usam. Machuca também.

Muitos poderes foram dados a nós e o mais belo deles é a capacidade que temos de alterar caminhos e salvar vidas. Evitar a morte precoce de outro, seja ele quem for, não garante a repercussão de um salvamento em massa realizado por bombeiros, mas é louvável. É sinal de que ainda há misericórdia no mundo. Hoje, eu escrevo para você que se mobilizou nas redes sociais, nas conversas informais com os amigos, no bate-papo na fila de espera e, de modo especial, se envolveu nas discussões sobre o combate ao suicídio. Eu imploro que você não pare. Por favor, não pare. Continue a se empenhar e faça de sua vida um consolo para aqueles minguados de alegria.

Quase 6% da população brasileira sofre de depressão, o que faz de nós o país mais depressivo da América Latina. É nosso o recorde mundial em prevalência de transtornos de ansiedade, com 18,6 milhões de pessoas diagnosticadas com esse problema. O primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio foi divulgado, dias atrás, pelo Ministério da Saúde. Nele, constata-se a morte voluntária de 62.804 pessoas, entre 2011 e 2016. São números alarmantes, tristes, e que deveriam incomodar eu e você. Esses índices impulsionam o trabalho de organizações sem fins lucrativos – Centro de Valorização da Vida e Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, por exemplo – e devem ser motivos de resistência e de coragem para olhar a vida que é banal e extraordinária ao mesmo tempo. O João, mas também o Marcos, a Valéria e a Paula, foram resgatados, nos segundos finais, por alguém que esteve disponível a doar afeto. Parece pouco, mas, acredite, é o que faz tantos nascerem novamente.

Crédito: Setembro Amarelo

Se alguém fala a respeito, está buscando ajuda e suporte. São os pedidos de socorro. São os 90% de casos evitáveis que a OMS aponta. Os suicídios, quase sempre, são precedidos de sinais de alertas verbais e/ou comportamentais. O desequilíbrio no cérebro de quem está prestes a tirar a própria vida é tenebroso. É a ambivalência sobre viver ou morrer, ainda que por impulso. Você tem noção da importância do apoio emocional? Muitas vezes, a vontade de se matar é temporária e específica a uma situação. Pensamentos suicidas não são permanentes. Também não é verdade que somente pessoas com distúrbios mentais tentam morrer. É um tema que mexe muito comigo. Guardo respeito por aqueles que se foram precocemente, sem ao menos dizer adeus. Talvez você não consiga dimensionar seu valor para os que sofrem e carregam o peso de vários edifícios nas costas, nem mesmo valorize a fala triste, mansa, que custa a sair da garganta e fala coisas “sem sentido”.

Daqui a 45 minutos uma pessoa entrará para as estatísticas do governo. Ou não, porque muitos casos não são notificados. Uma história será cancelada. Você pode condenar, dizer que foi fraqueza e até mesmo imputar o inferno para os suicidas. Eu escolho fazer o contrário. Quem se enforca, não tece os pedaços da corda de uma vez. É aos poucos. São socos diários no estomago. São mortes lentas. A notícia boa é que ainda é possível optar pela vida. E que você pode intervir.

Eu desejo que você olhe para o lado e seja sensível. Seja nobre. Seja misericordioso. Os solitários estão espalhados, vestidos de felicidade e publicando fotos distantes da realidade nas redes sociais. Já pensei em me matar. Já tentei me matar. Mas não era eu, era a doença. Chore, mas continue. Arraste, aos trapos, mas ajude quem precise. Nossos sofrimentos precisam ser vistos, percebidos, testemunhados. É isso que dá sentido à nossa vida. Quando mais precisei, recebi abraço e amor que perpetuam ainda hoje. Nunca me esquecerei de quem se dispôs a salvar minha vida. É esse poder que nós temos. É esse poder que você tem. 

Precisa de ajuda?

O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias. Saiba mais clicando aqui.

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) também oferecem suporte.

Em caso de emergência: SAMU (192), UPA, Pronto Socorro e Hospitais.

No site da campanha Setembro Amarelo, é possível ler depoimentos de sobreviventes e familiares, ler artigos científicos sobre o tema, saber os eventos que acontecem no país e apoiar iniciativas.

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One Reply to “[Crônica] – O que mata é a indiferença”

  1. Excelente texto! Infelizmente, a depressão (até mesmo o suicídio) está virando uma epidemia :'( . Precisamos realmente nos atentar para ela, pois ela mata e mata lentamente, na maioria dos casos.

    Aguardo com expectativas seus próximos textos, Paula.

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