O Morro do Ventos Uivantes – Emily Brontë

O Morro dos Ventos Uivantes é um queridinho das escritoras contemporâneas

O Morro do Ventos Uivantes, da escritora inglesa Emily Brontë, é um clássico da literatura mundial publicado pela primeira vez em 1847.

Diferentemente do que já aconteceu com inúmeros clássicos, O Morro do Ventos Uivantes, só se popularizou de fato no Brasil após o sucesso da saga “Crepúsculo”, da escritora americana Stephenie Meyer. A história de Emily Brontë era a preferida da protagonista Bella Swan e despertou a curiosidade dos fãs da saga.

Isso só reforça a importância das leituras contemporâneas em despertar o gosto pela literatura, e abrir espaço para os leitores ampliarem seus conhecimentos e curiosidades em citações de filmes, músicas, séries e claro, livros.

O Morro dos Ventos Uivantes também une dois personagens literários: Josie Jensen e Samuel Yates, protagonistas do romance “Correndo Descalças”, da autora Amy Harmon. Veja a resenha aqui

Na contramão dos romances contemporâneos, a leitura do clássico de Brontë é difícil, não apenas pelas palavras e termos empregados, mas pela dureza da história. É uma leitura diferente e desafiadora, mas que vale muito a pena.

A história gira em torno do improvável casal Heathcliff (sem sobrenome) e Catherine Earnshaw. Quando digo improvável é que em nenhum momento senti amor, paixão ou até mesmo afinidade entre os dois. Aquela empatia, aquele famoso “clima de romance”, nada disso. O traço do romance não é o amor, mas o desamor que impede o casal de viver sua paixão.

A história é extremamente dramática e os personagens em alguns momentos insuportáveis. É interessante que a narrativa começa anos após o desenrolar da trama principal, com a chegada do Sr. Lockwood à região da fazenda de Morro dos Ventos Uivantes. Impressionado com o comportamento assustador e nada amistoso das pessoas que viviam ali, ele decide interrogar sua governanta sobre a história daquela família. Aos olhos da personagem Ellen Dean, também chamada de Nellie ou Nelly (em algumas traduções), conhecemos o que houve no passado daquela família que justificasse seus modos atuais.

“Pensei que, se eu tinha sido o causador do mal-estar, era meu dever tentar desfazê-lo. Eles não deviam se reunir daquele jeito todos os dias, com expressões tão sombrias e taciturnas; e era impossível, por mais mal-humorados que pudessem ser, que a carranca fosse seu semblante habitual.” (pág.14).

Instigados por conhecer esse passado, mergulhamos de cabeça na narrativa da governanta, que se envolve ativamente na história e participa ativamente de todo esse passado.

Heathcliff é um “órfão cigano” adotado pelo pai dos irmãos Catherine e Hindley. Com a chegada da criança na casa, a vida dos irmãos é transformada. Catherine ganha um amigo, aliás não é uma amizade saudável para nenhum dos dois, enquanto Hindley ganha um rival, visto que Heathcliff passa a ser o preferido do patriarca. Apesar de todos os maus tratos, Heathcliff não é bobo e revida à altura, jogando por terra todo e qualquer decoro que a sociedade impunha à época.

Nas inúmeras reviravoltas que a trama dá, após a morte do senhor Earnshaw, Hindley passa a comandar a casa, e com isso tem a chance de se vingar de Heathcliff. Vingança que move vingança é o mote principal da trama tendo como sempre, Heathcliff no centro.

Primeiro ele quer se vingar de Hindley pelos maus tratos sofridos. Depois o alvo é Catherine que, apesar de admitir para Nellie que ama o melhor amigo, se casa com alguém “mais adequado” que ele, o vizinho recém chegado à região, Edgar Linton. É claro que Linton não passará ileso da fúria de Heathcliff. São gerações de duas famílias amaldiçoadas pelo rancor de Heathcliff.

“Que fim absurdo para os meus esforços! Emprego todos os meios para destruir as duas casas, trabalho como um Hércules e, quando tudo está pronto e nas minhas mãos, descubro que a vontade me abandonou por completo! Meus velhos inimigos não me derrotaram; agora seria a ocasião precisa para me vingar deles nos seus descendentes; poderia fazê-lo; ninguém pode me deter.” (Pág.282)

Entretanto, não considere Heathcliff como o vilão absoluto. A trama gira em torno dele, mas os demais personagens, sobretudo Catherine, sabem muito bem o que fazem, onde se metem, e portanto, a vingança de Heathcliff não é de todo injusta, embora torçamos para que alguém quebre esse ciclo de ódio e seja feliz. Torci pelo Edgar Linton, talvez de todos o mais inocente. Até mesmo a governanta Nellie tem sua parcela de vilania, quando se absteve de algo ou quando facilitou os caprichos da patroa, que aliás é uma chantagista de mão cheia.

“E, Nelly, diga a Edgar, se o vir ainda esta noite, que corro o risco de adoecer gravemente. Gostaria que isso acontecesse. Ele me fez sofrer e gostaria de assustá-lo. Além do mais, ele pode começar a queixar-se ou a censurar-me; eu não poderia ficar calada, só Deus sabe onde terminaríamos!”. (pág.105)

O Morro dos Ventos Uivantes não é uma leitura fácil, em relação aos romances contemporâneos que o citam. Um dificultador a princípio é o nome dos personagens que repetem a cada geração. O início é confuso, mas quando se engrena de vez, a leitura voa. A propósito, Ellen Dean é uma excelente contadora de histórias, não deixando nenhuma ponta solta e sem se isentar das suas próprias responsabilidades.

Os personagens de O Morro dos Ventos Uivantes são petulantes, meticulosos, ardilosos, que agem sob um ciclo de maldade, maus tratos e violência. É material pra terapeuta nenhum botar defeito e trabalhar anos e anos.

Muito disso é justificado pela idade dos personagens. Eles são muito jovens, vivem afastados dos centros urbanos e a única forma que encontram de reagir a todo o drama e melancolia, o ciclo contínuo de mortes e vinganças, é com rispidez e grosseria. Eles não têm a quem se espelhar, alguém que possa orientá-los, alguém com lucidez suficiente para colocar as coisas em ordem. E assim vivem, sob a atmosfera fantasmagórica, gótica, em ambientes tristes, sempre escuros, frios, chuvosos, enfim… depressivos.

Heathcliff e Catherine se amam, mas se odeiam, curiosamente o nome de outro clássico da literatura definiria bem essa relação, “Orgulho e Preconceito” é o que faz com que eles não fiquem juntos, além da soberba.

Quando terminei a leitura, a espera pela adaptação é óbvia. Ver todo esse embate, esse drama, tomar corpo em um filme é algo natural e fascinante. Como livro, é uma obra prima, mas e a adaptação?

Veja o trailer: 

Adaptação: O Morro dos Ventos Uivantes já foi adaptado diversas vezes para os cinemas, teatro e TV. Sendo a primeira adaptação para os cinemas em 1920 e a mais recente em 2011.

A adaptação de 2011 pegou em cheio do boom cinematográfico da saga Crepúsculo, sendo lançado no mesmo ano que “Amanhecer parte l”. Mas o filme não pegou os fãs, como se pretendia, fazendo bem pouco  e ficando muito abaixo da história literária.

Ao ler O Morro dos Ventos Uivantes fiquei muito chocada com a idade dos personagens. Eles são muito novinhos, tudo começa entre 13 e 14 anos, e quase todos falecem antes de chegar aos 30.

São anos de sofrimento, sem que eles aproveitem nada da vida, eles não tiveram tempo para viver a plenitude da adolescência. Savemos que os tempos eram mais difíceis, contudo a governanta Elle Dean e até mesmo o próprio Heathcliff, e outros personagens (pra não dar spoiller) são sobreviventes do rancor propagado. O filme dá essa dimensão pro leitor, da idade deles, e até mesmo da passagem de tempo.

Os atores foram muito bem escolhidos. As atuações dão o enfoque do que era a vida deles, muitas cenas com pouco ou quase nada de diálogos, e quando há são as famosas imprecações e maledicências. Os atores variaram muito bem, entre zero diálogos, muitas expressões corporais e humor que muda num piscar de olhos.

Interessante destacar que algo que é marcante no livro é o fato de Heathcliff ser descrito como negro. Algumas adaptações antigas não fizeram jus a esse traço, que é importante para denotar o preconceito dos personagens e da sociedade da época. A adaptação trouxe o ator britânico James Howson como Heathclif na fase adulta e o ator irlandês Solomon Glave como o jovem Heathclif.

Foto: James Howson | Divulgação

O cenário é deslumbrante e bem fiel às descrições do livro. A adaptação por vezes é escura, com um aspecto sombrio, gelado, ora sujo, bem como imaginei no livro. Porém, algumas tomadas  são aflitivas ao se aproximarem demais de certos objetos, focar e permanecer em determinados pontos, como uma galinha morta, paisagens a perder de vista, insetos e escuridão.

Raras são as adaptações que conseguem manter a fidelidade do livro, mas algumas cenas importantes foram mantidas e bem absolutamente fidedignas, como a chegada de Heathcliff  à casa e as mortes. Mas peca demais quando corta um dos clímax da história, e não traz o final tal qual ocorreu no livro.

Apesar de bem produzida e trazer elementos importantes do livro, a adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, de 2011, não faz jus ao clássico e fica muito abaixo do que se espera para um clássico que há mais 170 anos encanta leitores mundo afora. 

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