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O Mordomo da Casa Branca | Wil Haygood

Fenômeno de bilheteria e crítica, o filme O Mordomo da Casa Branca fez história ao apresentar ao mundo o mordomo negro que trabalhou durante mais de três décadas no centro do poder do mundo, servindo fielmente a oito presidentes americanos.

A história de Eugene Allen foi originalmente publicada em um artigo do Jornal Washington Post pelo jornalista e escritor Wil Haygood três dias após a eleição histórica de Barack Obama e, posteriormente, virou filme e livro.

O livro: No momento pré-eleição em 2008, com a iminente vitória de Barack Obama, e todo o contexto da luta do movimento negro em prol de direitos igualitários, o repórter Wil Haygood estava à procura de alguém que tivesse vivido a época da segregação racial dos negros, de preferência de dentro da Casa Branca. A ideia era que essa pessoa falasse sobre o que a vitória de Obama significaria para ela e para os negros americanos.

“Eu queria encontrar um negro ou uma negra que tivesse trabalhado a serviço dentro da Casa Branca, que tivesse lavado a louça lá, que tivesse bebido água no bebedouro para negros na América de Jim Crow.” (pág.22)

Chega-se então ao mordomo aposentado Eugene Allen, um senhor de 89 anos. O livro, assim como o artigo publicado à época, traça um panorama da trajetória de Eugene, sua relação com cada presidente, as exigências do cargo de confiança e a expectativa para a eleição de Obama, com fotos e relatos mais que sinceros dele e de sua esposa, Helene. A história do casal, a propósito, é fascinante por si só, e emociona a cada linha lida.

Mesmo vivendo dentro da Casa Branca, Eugene e os funcionários negros não eram poupados da segregação, chegando a receber menos que os funcionários brancos, mesmo exercendo as mesmas funções. O filho de Eugene foi enviado ao Vietnã, enquanto o pai servia ao presidente Lyndon B. Jordon, responsável pela guerra.

Mais do que tratar do que a histórica vitória de Obama representou para Eugene e para os negros, o livro apresenta ainda um pouco da participação dos presidentes na luta pelos direitos civis dos negros e os fatos e personagens históricos que marcaram essa luta com seu próprio sangue.

O livro traz ainda a representatividade negra no cinema em face à realidade vivida nas ruas, o caminho percorrido para se chegar a uma produção hollywoodiana com um elenco majoritariamente negro na adaptação de O Mordomo da Casa Branca e os bastidores da produção.

Dizer aqui que o jornalista Wil Haygood foi feliz ao descobrir essa história é bastante injusto em relação ao caminho percorrido para mostrar esse relato e todo o contexto histórico que o envolveu. O livro é pequeno, portanto não é possível aprofundar em todos os fatos, mas levanta a bola para o leitor querer saber mais sobre as questões raciais americanas que a literatura e o cinema tem contribuído bastante.

O filme O Mordomo da Casa Branca, sem dúvidas, foi um marco na história do cinema americano.

Confira o trailer: 

O filme: A superprodução já impressiona pelo elenco por reunir nomes de peso como os consagrados Cuba Golding Jr (funcionário Casa Branca), Forest Whitaker (mordomo Cecil Gaines); Robbie Willians (presidente Eisenberg), John Cusaks (presidente Richard Nixon), Jane Fonda (Nancy Reagan),Terence Howard ( amigo da família de Cecil Gaines), a revelação David Oyelowo (Louis Gaine – filho do mordomo), além de estrelas da música e TV americana, como Oprah Winfrey (esposa do mordomo Cecil), Mariah Carey (mãe do mordomo Cecil) e Lenny Kravitz (funcionário da Casa Branca).

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A adaptação conta a trajetória do mordomo Cecil Gaines, desde a infância na fazenda de algodão, até sua espera pela chegada do primeiro presidente negro da América no hall da Casa Branca, intercalando com a participação do filho mais velho Louis Gaines nos principais movimentos de luta pelos direitos civis dos negros americanos.

A primeira cena é chocante e já começa expondo a brutalidade da escravidão, com o estupro da mãe de Cecil e o assassinato de seu pai na fazenda onde a família vivia. Os fatos mudam o rumo da vida do pequeno Cecil, que passa a viver na Casa Grande e, assim, aprende a função de mordomo.

A trajetória de servidão discreta, com o chamado “negro domesticado” do mordomo, é criticada e se contrapõe com a atitude do filho mais velho de Cecil, Louis Gaines, que de passivo nada tem. São duas gerações distintas, uma que vive e sobrevive a escravidão e outra que luta pela liberdade após a abolição.

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O filho de Cecil se envolve ativamente na luta pelos direitos civis, enquanto o pai, pacificamente, segue servindo aos presidentes brancos e acompanhando de perto as decisões e atuações de cada um diante dos conflitos e liberação histórica de direitos, como de voto e de frequentar os mesmos lugares que brancos. Ele está nos principais e mais marcantes acontecimentos que, além de expor o racismo nos EUA, mostram como a luta foi árdua e sangrenta. O personagem está no ataque ao ônibus da liberdade, em Birmingham, alvo da Ku Klux Klan. Foi preso 16 vezes em dois anos, em sua maioria por impor sua presença em ambiente proibidos aos negros. Esteve ao lado de Martin Luther King em busca de justiça com a família de Emmett till e ao lado dos Panteras Negras.

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Com isso, a adaptação de O Mordomo na Casa Branca é antes de tudo um tributo àqueles que lutaram pelos direitos dos negros, sejam os presidentes ou os civis, representados pelo filho do mordomo, que colocaram suas vidas em risco e pegaram em armas para garantir o simples ir e vir da população negra americana. A chegada de Obama ao poder, no cargo mais importante do mundo, representou muito mais do que a ascensão de toda uma população negra, mas um sopro de esperança e uma pequena trégua nessa guerra que já se mostrou incessante, contínua.

Usando como pano de fundo a história do mordomo, o filme foi oportuno por dar mais destaque a história da segregação racial do Estados Unidos e mostrar aos não americanos como se deu e por que foi necessária toda essa luta. Por isso, tanto o artigo quanto o livro passam como superficiais a nós, que precisamos de toda essa contextualização que o filme trouxe, ambas são obras primas à sua maneira. 

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