O avesso é o certo, de Andrezza Xavier

Experimente usar a blusa pelo avesso. Transitar por aí durante o dia com a etiqueta para fora e observar a reação dos outros. Talvez alguns não te percebam, outros apenas demonstrem o incômodo e lhes falte coragem de tentar um contato, mas é provável que em algum momento, alguém te informará “Ei! A sua roupa está do lado errado”.

Mas e se o avesso for o certo? 

Quando leio o título O AVESSO É O CERTO, penso automaticamente nas roupas, pois já tem um tempo que olho para o mundo interessada em entender como a forma que nos vestimos interfere na percepção do outro sobre quem somos. Entretanto, Andrezza Xavier evidencia em seus poemas outros avessos. Aqueles que não podem ser desvirados tão facilmente como uma blusa. Aqueles que são inerentes a nossa existência e, por isso, causam maior desconforto em quem observa de fora com vontade de interferir para que tudo volte a ser do jeito desejado.

“Às vezes mar

às vezes amar

às vezes rio

às vezes fico

fluidamente sou chegadas e partidas

me parto ao meio

e reinício”

Nesse livro que foi publicado em um formato que nos permite iniciar a leitura a partir de qualquer um dos lados da capa, encontramos poemas que tratam de temas diversos do cotidiano, mas que ao meu olhar se ligam pela linha do inquietante. Inquietante no sentido de quando se coloca em destaque aquilo que é esperado que permaneça escondido.

Como em um movimento de desvirar a roupa e evidenciar seus pontos, suas linhas, suas etiquetas, seus acabamentos, os poemas de Andrezza Xavier nos fala sobre o que inquieta, fricciona, causa desconforto. Esse desconforto muitas vezes de forma contraditória, também se aloja no corpo de quem viola a regra, como se o avesso fosse o contrario do certo, algo que precisa ser ajeitado, organizado, e que não vai parar de incomodar/doer enquanto permanecer assim. Mas da mesma forma que não negligencia o sofrimento de existir no avesso do mundo, os poemas de Andrezza Xavier também destacam a potência de quem se percebe e se aceita assim, do outro lado certo. É possível perceber nessa escrita a busca constante pela liberdade, de sentir, de ser, de existir sem medo, mas também o impulso para se movimentar e movimentar o outro. 

“Agora abro minhas barbatanas e nado contra essa tsunami 

aspiro com vontade minha ânsia de cuspir poesias

em minhas vias corre sangue de Constâncias e Marias.”

Como a própria poeta diz “existem urgências que são particulares”, mas seus poemas me tocam a partir de uma urgência coletiva de transformação do mundo. Saio dessa leitura com a roupa no mesmo lugar, mas com os pensamentos deslocados. Sei que o meu textão na internet não é capaz de ocultar nenhuma dor, mas me sinto impulsionada a aceitar e celebrar o avesso do outro e com isso perceber e amar o que não se desvira em mim. Agora eu entendi Andrezza, o avesso também é o certo. 

“Quando vocês aplaudem minha poesia, 

aplaudem minha dor

fico feliz, pois já não vivo visceralmente.”

O livro de poemas O AVESSO É O CERTO foi publicado em 2021 pela editora Venas Abiertas com recursos da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais. Conheça mais o trabalho da autora clicando aqui.

 

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