O amor sem pecado de Doris Lessing em As avós

Da literatura ao cinema, as avós, invariavelmente, são retratadas de maneira semelhante. Senhoras fofas, que mimam os netos e estão em busca de viver a plenitude da longevidade, fugindo do etarismo, deixando sua marca nas memórias, culto às tradições e sabedorias únicas. 

Carregando essa memória até mesmo afetiva, é difícil se surpreender com uma obra cujo título é exatamente “As avós”, certo? É aqui que todos nos enganamos com a história desse livro que classifico como o maior plot twist de todos os tempos.

Doris Lessing não apenas engana os pobres leitores, como nos apresenta uma história fluida, impactante e babado… Mas tão babado que não dá para falar do livro ou da adaptação sem dar spoiler. Vou tentar! rs

Essas avós são mulheres de fibra, que amam sem pecado, como sugerem algumas traduções para o título da adaptação de 2013, que traz no elenco ninguém menos que Naomi Watts e Robin Wright no papel das avós Lil e Roz.

A história gira em torno dos laços de amizade que unem essas amigas desde a infância — da época do colégio. A força dessa relação vai muito além do tempo e, hoje, já avós, desfrutam dessa amizade e seguem juntas, unindo a família que construíram. A sintonia das duas famílias é perceptível até para os narradores que nunca se relacionam diretamente com eles, em especial as avós e seus filhos.

“Todos suspiraram, escutaram os suspiros uns dos outros e riram, uma risada franca e cheia que parecia reconhecer coisas não ditas.” (pág.12)

No livro, as passagens são bem curtas, a leitura é muito rápida. As cenas são marcadas pela potência da escrita de Doris Lessing, que te envolve a cada capítulo, a cada acontecimento, desnudando a vida dessas mulheres imperfeitas, porém, humanas.

“Meu casamento é uma droga. Não me dou bem com o Theo. Eu nunca…mas você sabia. E você e o Harold, sempre tão felizes… Sei lá quantas vezes não fui embora para casa com o Theo, depois de ter deixado você e o Harold, desejando que…” (pág.32)

A adaptação consegue dar vida às personagens, enfatizar as principais cenas e transmitir com fidelidade a mensagem da autora — mulheres são livres para amar e fazer o que bem entenderem, independentemente da idade. As noras seguem sendo chatas e a descoberta do grande segredo é diferente na adaptação — inclusive, achei bem mais dramática e bombástica.

O filme traz uma pegada mais erotizada, uma vez que no livro a autora não entra em detalhes nas relações amorosas, focando apenas no lado psicológico e nas ações e consequências de cada escolha. A adaptação foca em mostrar aquilo que ficou à mercê da imaginação individual de cada leitor e, na minha opinião, cumpriu bem a função.

A história fala sobre amor, liberdade, família, tabus, quebra de preconceitos, convenções sociais e o poder de uma linda amizade.

Essa história é fascinante e vale demais a leitura e depois a adaptação.

Assista ao trailer da adaptação com bastante spoiler clicando aqui. 

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