Nossas horas felizes – Gong Ji-Young

“Nossas horas felizes” é um livro coreano, mas os dramas são comuns em qualquer parte do Globo.

Fiquei até feliz quando terminei de ler porque consegui desmistificar um pouco aquele sentimento de vira-lata que habita em nós brasileiros, de que alguns problemas só acontecem aqui, como corrupção e impunidade. Gostei também de conhecer um pouquinho sobre a Coreia do Sul através das referências da talentosíssima escritora Gong Ji-Young, que apresentou fatos históricos, curiosidades, explorou detalhes da sua cultura e seus costumes, como a bebida “Soju” em que o pai do condenado Yunsu era viciado, as citações do escritor coreano Jang Jeong-ll, o hanbok, vestido coreano, e outra bebida aparentemente de uso mais social, o “Xerez”.

“Nossas horas felizes” é narrado na perspectiva de dois jovens destruídos psicologicamente e fisicamente pelas consequências da vida. Conhecemos a concepção de um criminoso através das memórias do passado do jovem Yunsu, condenado a pena de morte por um crime que chocou o país. E a sua redenção pela perspectiva dos dias atuais aos olhos da linda Yujeong.

De mundos completamente diferentes, os dois jamais se encontrariam não fosse a interferência da Tia Mônica, uma freira dedicada e devota que proporciona àqueles que estão no corredor da morte um fio de esperança em busca da salvação tardia.

O ano é 1997, Yujeong em sua terceira tentativa de suicídio recebe da tia a proposta de visitar o Centro de Detenção de Seul, onde vivem presos condenados a morte. Para escapar de um tratamento com um tio psicólogo, ela aceita de má vontade, fazer as tais visitas e acompanhar a tia que ela ama mais até que a própria mãe.

Yujeong vem de uma família rica e poderosa na Coreia, sempre teve de tudo, inclusive fama, mas nunca experimentou o amor e o carinho da família. Já Yunsu lutou a vida inteira pela sobrevivência ao lado do irmão mais novo, em uma vida extremamente miserável, violenta e cruel. Ela é pessimista, odeia clichês, mas é bastante previsível. Ele é realista, nunca teve tempo para sonhar,  mas foi capaz de amar muito, até receber mais um tombo da vida. Ambos perderam a vontade de viver e por isso cometeram tantos erros na vida.  Mas os encontros semanais vão mudar para sempre a vida dos dois e dar uma esperança de dias melhores, até mesmo para o leitor.

Permeado de citações bíblicas e frases de efeito, “Nossas horas felizes” é daqueles livros de tirar o fôlego a cada descoberta, a cada reviravolta. Interessante como a escritora traçou a história dos dois e expôs fatos que justificaram a opção de cada um de acabar com a própria vida. É um choque de realidade que mostra o quão pode ser importante a família em nossas vidas e o quanto um simples gesto pode mudar drasticamente o nosso destino. Encontrar a felicidade está justamente no inesperado, naquilo que muitas vezes ignoramos, e não damos valor.

É um livro sobre olhar para o próximo de maneira diferente. Sobre amar e perdoar, saber que por mais que você esteja sofrendo tem sempre alguém em algum lugar do mundo passando por algo bem pior do que a sua unha quebrada. É sobre encontrar um sentido para viver mesmo quando tudo e todos estejam contra você. Sempre haverá alguém, mesmo que você não enxergue. 

A escritora Gong Ji-Young coloca o dedo na ferida ao falar sobre suicídio um tabu aqui no Brasil, que só agora com campanhas como o setembro amarelo vem quebrando esse paradigma e desmistificando o tema. Precisamos enxergar aqueles que estão ao nosso lado e muitas vezes “O que mata é a indiferença”, como escreveu a colunista Paula Alves. 

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