Não é só sobre a Roda Gigante

2009

Meu medo de altura nunca me permitiu arriscar uma volta pela Roda Gigante. Sempre que pensava em entrar naquela fila – que, por sinal, era sempre a mais movimentada – imaginava que a queda dali seria uma provável morte. “Mas, nunca ocorrera nenhum acidente. Você não pode ser assim tão azarada” – meu subconsciente me alertou. Mas, não dava. Acho que muitos medos não podem ser explicados e aquele simplesmente não tinha explicação. Pelo menos, não para mim.

Olhei mais uma vez para aquela Roda Gigante colorida e pensei em como ela ficava mais linda a noite, quando as luzes eram acesas e piscavam como vaga-lumes no escuro breu. Desviei o olhar e mais um dia não venci meu medo. “Talvez amanhã”. Me virei e segui em direção a praça que fica próximo ao poço de água com muitos peixes. No caminho, parei algumas vezes para observar o topo das árvores e os raios de sol que se arriscavam em meio aos galhos mais altos e refletiam uma luz pálida nos bancos desgastados. Pessoas se espalhavam por vários lugares, procurando e se escondendo nas sombras, quase que brigando pelos bancos mais isolados. Os celulares nas mãos sempre me incomodavam. “Hoje em dia, o contato com o ‘coleguinha’ do lado parece ser abominável”. Pensei em como aquilo não era da minha conta e continuei caminhando. Também nunca fui um exemplo de pessoa sociável. Minha timidez fazia de mim um ser observador e detalhista, mas nunca me permitia o contato visual ou uma boa conversa.                   

Parque Municipal – Por Tiago Miqueias

 Andei por mais alguns minutos, passos lentos que me fizeram delongar aquele momento de prazer. Ouvir a natureza, observar as pessoas e energizar a vida. Esses eram meus pequenos prazeres. Me vi perdida em pensamentos, lembrei de meus passeios dominicais com o papai. Ele sempre alimentava os peixes com um carinho paternal, um sorriso no rosto de quem estava contribuindo para a paz mundial. Papai morreu há oito anos. Acordou, caminhou até a padaria, comprou nosso pão para o café, teve um mau súbito e morreu. Assim, sem me preparar para o golpe. Eu tinha oito anos. Mamãe, essa nem sei quem é. Me abandonou ainda bebê. Hoje, moro com minha madrasta, que sempre chamei de mãe.

Me forcei a sair daquele devaneio. Pensar demais sobre o rumo que a vida tomara sempre me deixava depressiva e essa era a última coisa que queria sentir. Segui meu caminho. Estava me aproximando da praça dos peixes. Meu lugar favorito no mundo. Caminhei mais alguns passos e senti alguém se aproximando. Olhei para trás com uma sensação estranha. Não havia ninguém. “Tô imaginando coisas. Era só o que me faltava”. Percorri os poucos metros que me separavam do pequeno lago e me sentei no banco mais próximo. Reparei que havia mais uma declaração de amor ali: PB, amor eterno. “Esses jovens. Sempre danificando o patrimônio como forma de provar sua paixão juvenil”. Sorri para mim mesma, pensando o quanto aquele casal PB iria durar. Não que eu fosse cética quanto ao amor, mas sabia que as chances de um relacionamento juvenil ir a diante eram bem pequenas. Na adolescência tudo é muito intenso. Choramos e sofremos por qualquer coisinha e nos apaixonamos com uma facilidade impressionante.

A minha direita um casal de idosos caminhava com um entusiasmo invejável. Ao passarem por mim, a senhora me cumprimentou com um sorriso de dentes postiços que refletia nos olhos. Sorri de volta e observei eles se afastarem. Era muito comum encontrar pessoas caminhando, correndo e praticando diversas atividades por ali, o que não era meu caso. Nunca fui fã de me exercitar.

Me acomodei melhor no banco, fechei os olhos e me concentrei nos pássaros cantando. Alguns minutos se passaram. Tive um pressentimento estranho e abri os olhos subitamente. Olhei para os lados, tudo estava normal. De repente, senti medo e a sensação de estar sendo observada tomou conta de mim. Conferi meu relógio de pulso, eram 8:17. Me levantei e comecei a caminhar, era hora de ir embora.

Acelerei o passo desejando que o ritmo de minha caminhada distraísse meus pensamentos. De tempo em tempo, olhava para trás em busca de alguém que pudesse estar me seguindo. Há muito tempo não tinha essa sensação. Os meses que seguiram à morte de papai  foram de muito medo e apreensão. “Tem alguém me observando”. Virei de repente, não queria dar tempo do meu possível observador se esconder. Foi quando um misto de pânico e náusea tomou conta do meu corpo. Queria gritar, correr, mas não conseguia me mover. Vi de relance, mas estava ali, atrás de uma das árvores. Quando criança, contei ao papai sobre ele, mas sempre tive uma imaginação muito fértil. Papai não acreditou em mim. Se me perguntassem o que era, não saberia explicar. Não era assustador, era diferente. E o que é diferente, é assustador. A descrição que posso dar é que não era um ser humano, tinha menos de um metro, uma cor meio púrpura – talvez, sempre fui meio confusa com cores que fogem muito das mais populares – olhos grandes mas não assustadores, era mais para não expressivos. A boca tinha um formato estranho, como se ele quisesse rir, mas isso não fosse possível. Não existia nariz naquele rosto.

Senti como se o mundo ao meu redor tivesse parado, não tive reação. Fiquei parada olhando para a árvore. O pequeno ser havia desaparecido, mas eu tinha visto. Tinha certeza! Me esforcei muito, mas consegui projetar meu corpo para frente, em direção ao espaço vazio onde ele estava. Minhas pernas pesavam. Demorei o dobro do tempo necessário para me aproximar. Circulei a árvore e não encontrei nada. “Onde ele estava?”. Analisei o espaço com uma atenção exagerada. Senti novamente aquela sensação de estar sendo observada. Olhei para os lados e nada! Ninguém! Passei os dedos pela árvore em busca de alguma pista e nada. Estava prestes a desistir quando algo aconteceu. Meus cabelos foram jogados para cima e fechei meus olhos. Um vento, como um pequeno redemoinho, tomou conta do espaço onde eu estava. Por um segundo, consegui abrir os olhos e ele estava ali, bem na minha frente. Consegui observar apenas um detalhe a mais naquele rosto estranho: pouco abaixo do olho esquerdo, existia uma marca, como uma cicatriz, mas a pele se projetava para fora. O vento atingiu meu rosto bruscamente e fui forçada a fechar os olhos. Depois, senti meu corpo abandonar o chão e a sensação que se seguiu foi a de queda livre.

2017

Os olhos eram verdes e estavam fixos em um ponto distante. Algumas pessoas seguiam seu olhar – pelo simples fato de saciar a curiosidade – mas não encontravam nada em especial que pudesse despertar o fascínio daquela criança. Meninos e meninas da sua idade corriam e brincavam naquele parque enorme no coração de Belo Horizonte. Era domingo. Do lado de fora, uma feira fechava parte da avenida. Nada daquilo lhe despertava interesse.

Flora, nome dado pela avó, ouviu alguém chamando por ela, como um sussurro do vento. Tinha certeza de que viera daquela direção, mas não teve coragem de se aproximar, apenas observava com muita atenção. Na última quinta-feira, completou oito anos. Os pais resolveram fazer um picnic no parque como comemoração.  

A mãe chamou, Flora desviou o olhar e a encarou. Recebeu um sanduíche e começou a comer ainda com a desconfiança de que alguém dissera seu nome e não era nenhum dos parentes que se reuniam ali. O alimento era de atum, mas a menina nem se deu ao trabalho de perceber. Estava numa espécie de piloto automático. De repente, seu corpo congelou, a mão parou no caminho da boca, o sanduíche caiu no colo. Ouvira novamente alguém chamando seu nome. Uma, duas vezes. Olhou para sua direita, o som agora parecia vir de lá. Não havia ninguém. Se levantou, observou os pais, o lago que se estendia a sua frente e começou a caminhar. Sabia que uma das principais regras era não sair de perto dos adultos, mas eles estavam distraídos e ela só iria se afastar alguns passos.

Andou e virou a direita. Estranhamente, aquele pedaço do parque estava vazio. Poucas pessoas passavam por ali. Viu uma mulher falando ao telefone, mas ela nem notou sua presença, estava ocupada demais discutindo com a pessoa do outro lado da linha. Flora seguiu observadora, caminhando a passos lentos. Não estava com medo, estava mais para muito curiosa. Chegou a um espaço, onde as árvores ofuscavam toda a presença do sol. Ouviu a voz chamando seu nome e se virou na direção do som. Ali, a poucos metros de distância, uma coisa estranha estava de pé, olhando para ela. Na cabeça de Flora, parecia um ursinho de pelúcia estranho, mas quando aqueles olhos grandes piscaram, a menina teve a certeza que ele estava vivo. O medo, até então ausente, fez as palmas de suas mãos começarem a suar. Pensou em dizer um “olá, quem é você”, mas sua voz estava presa na garganta. Ao contrário do que sua cabeça mandava, Flora se aproximou para vê-lo de mais perto. A poucos metros de distância, notou que ele fazia um gesto estranho com as mãos, como se estivesse querendo se comunicar e não conseguisse.  

Flora agora estava tão perto que poderia tocá-lo se estendesse as mãos. Uma voz surgiu em sua cabeça: “preciso de sua ajuda”. A menina não teve tempo de responder, quando foi atingida por um forte vento. Tentou correr, mas não conseguiu. Era como se estivesse presa ao chão. Fechou os olhos e desejou estar sonhando. Quando voltou a abri-los, não estava mais no parque. Ainda avistava árvores, mas as folhas não tinham as cores verdes habituais. Olhou para os lados, mas não tinha ideia de que lugar era aquele.

*

8:20 foi considerada a hora do desaparecimento de Flora. As autoridades policiais e os guardas do parque foram acionados mais ou menos duas horas após os pais e parentes perceberem a ausência da menina. Primeiro, procuraram pelo parque. Em seguida, o desespero se implantou em cada uma daquelas pessoas. Foi então, que a polícia entrou na história. No mesmo dia, os familiares providenciaram cartazes com fotos de Flora e os espalharam por vários pontos da cidade. A mãe estava em choque e o pai se sentindo culpado. “Como deixamos isso acontecer com nossa filha”.

*

O desespero tomou conta de Flora. Queria seu pai, sua mãe. Chamou por eles, mas ali não havia ninguém. Gritou por socorro, mas só ouviu o eco de suas palavras que pareciam refletir nas árvores até desaparecer. Tomou coragem e decidiu procurar por alguém. Tinha no pulso um relógio, mas não sabia olhar as horas, o que também não adiantaria, já que os ponteiros estavam parados. As lágrimas insistiram a lhe escapar dos olhos. Precisava ser forte!

A menina perdeu alguns minutos observando o lugar. As cores marcantes lembravam um de seus desenhos favoritos, My Little Pony. Não conseguia ver onde o caminho, permeado pelas árvores, terminava. Flora respirou fundo por mais alguns segundos, mordeu o lábio inferior – o que costumava fazer quando estava nervosa – e deu o primeiro passo, seguido de vários outros. O desespero da menina começava a aumentar junto com a frequência de lágrimas que não mais conseguia conter.

Depois de aproximadamente 30 minutos de caminhada, Flora ouviu uma voz angustiada soprando palavras que não conseguia entender. Desesperada, a menina cessou os passos, se concentrou e apurou os ouvidos. Não conseguia ouvir nada. Entrou em pânico e começou a correr. A cabeça baixa, se concentrando para não tropeçar nas pedras de diversos tamanhos que se espalhavam pelo caminho. Os acontecimentos seguintes foram confusos. Flora se chocou em alguma coisa com uma força exagerada e caiu de costas no chão. Instintivamente, colocou as mãos na parte de trás da cabeça que havia batido em algo duro, sentiu um líquido pegajoso escorrendo por ali e teve a certeza que o corte era fundo. Deixou-se levar pela escuridão que insistia em levar sua consciência e não viu mais nada.

Quando enfim acordou, Flora não tinha a menor ideia de quanto tempo esteve apagada. Forçou os olhos a se abrirem, mas a vista estava turva, as imagens eram apenas borrões. Precisava se levantar. Forçou o dorso para cima e se apoiou no cotovelo esquerdo. Respirou fundo, sentindo a cabeça latejar e as lágrimas escorrerem por seu rosto. Depois de alguns minutos de persistência, a menina conseguiu se apoiar nos joelhos e impulsionar o corpo para cima. Tateou os vultos às cegas até encontrar uma árvore para se apoiar. A vista já estava um pouco melhor, mas o simples fato de abrir os olhos tornava a dor de cabeça ainda pior.

Era hora de continuar sua caminhada. Com muita dificuldade, Flora esticou as costas e abriu os olhos. A primeira visão que teve foi muito estranha e um pouco assustadora. No susto, a menina teve que tapar a boca com uma das mãos para conter um grito. Ali, há poucos metros de onde estava, havia uma mulher parada, o rosto completamente inexpressivo, a pele tão pálida quanto alguém podia ter, os olhos vidrados num ponto à frente, os cabelos um emaranhado. Era a primeira vez que Flora encontrava alguém naquele lugar estranho e aquele “alguém” ela com certeza teria preferido não encontrar. Pelo lugar onde a mulher estava, Flora imaginou que era nela que havia se chocado.

Superado o choque de ver aquela entidade esquisita, Flora respirou fundo algumas vezes, tentando acalmar o coração que batia enlouquecido e deu alguns passos. A esperança era conseguir seguir seu caminho sem que a mulher percebesse sua presença. Havia caminhado apenas 20 metros quando ouviu uma voz dentro de sua cabeça. No susto, olhou bruscamente para os lados, perdeu o equilíbrio e quase caiu novamente. A cabeça parecia que iria explodir a qualquer momento. Lágrimas, antes contidas, começaram a correr pelas bochechas da menina. “Ajude-me” pediu a voz novamente. Abrindo os olhos com dificuldade, Flora olhou para a mulher e entrou em um pânico silencioso quando percebeu que seus olhos vidrados estavam voltados para ela. Queria gritar e correr, mas sabia que se o fizesse a dor que sentia iria torturá-la. Em vez disso, se concentrou e perguntou em um sussurro como poderia ajudar a mulher. Nenhuma resposta. Tentou novamente e nada. Decidiu tentar fazer a pergunta em pensamento, sem emitir som. A resposta veio em seguida: “precisamos abrir o portal e sair daqui”.

O diálogo que se deu na sequência foi a coisa mais estranha que Flora já havia presenciado. Ela estava conversando com uma mulher – que mais parecia um fantasma – usando a força do pensamento. As descobertas intensificaram os medos da menina que agora não conseguia parar de chorar. A mulher estava presa no lugar há muitos anos, mas não sabia tempo exato. Nada ali ajudava na contagem do tempo. Não tinha sol, não tinha lua, não tinha relógio, não tinha nada. Pelo que Flora entendeu, a mulher estava sentada no banco do Parque Municipal quando encontrou um ser estranho e, em seguida, foi levada àquele mundo. A história se repetira com Flora. O alerta em sua cabeça gritava: “não há saídas”.

Em pensamento, a mulher tentava acalmar Flora, dizendo que se trabalhassem juntas conseguiriam sair. As chances de Flora eram maiores. Ela passara apenas algumas horas no lugar, suas forças ainda estavam completas.

A mulher explicou para Flora que no tempo em que esteve presa naquele mundo, havia descoberto algumas coisas importantes, mas que o portal de volta para o parque havia se fechado. O que mais surpreendeu a menina foi a revelação de que o ser que a levou para o mundo – que agora sabia ser chamar Coresland –  usava a energia de pessoas jovens para se manter vivo. A criatura que era conhecida como Corest saia para uma espécie de caça a cada oito anos. A mulher explicou que a lenda é contada há muitos séculos, sendo passada por cada pessoa que já esteve ali.

– Observe essas árvores. – a voz da mulher era quase um sussurro. – Cada uma delas é uma pessoa que foi caçada e trazida para cá. Em breve, estarei entre elas. Já não consigo mais me mexer sozinha.

O pânico de Flora foi aumentando enquanto olhava cada uma daquelas árvores coloridas. “São pessoas”.

– Vou lhe explicar melhor. Se você não conseguir sair daqui, conte tudo o que eu lhe disser e também o que descobrir no tempo em que ficar por aqui para a próxima pessoa, ok? – Ainda no modo automático, Flora fez um gesto positivo com a cabeça e se apoiou em uma das árvores. No mesmo instante, tirou as mãos em pânico quando lembrou que aquilo já havia sido uma pessoa.

– Há milhares de anos – continuou a mulher dentro da cabeça de Flora – haviam muitos corests por aqui. Sempre precisaram da força vital dos seres humanos para viverem. O principal portal para a captura da presa, é assim que eles nos chamam, fica localizado no Parque Municipal. O movimento de pessoas por lá, principalmente crianças, que são mais resistentes e tem mais energia, favorece a caçada. – Um silêncio se fez e Flora teve medo que a mulher tivesse perdido a capacidade de se comunicar. Se aproximou e olhou para ela que continuava imóvel. Ela era linda. Mesmo com as cores já desvanecidas de sua pele, dava para ver que seus grandes olhos tinham um tom castanho em contraste com os cabelos loiros e ondulados. Com cuidado, Flora levantou a mão e tocou o braço da mulher com um dedo. Era gelado. Teve vontade de gritar. – Me desculpe – disse a mulher – estou reunindo um pouco de energia para continuar a história. Estou bem fraca.

A dor na cabeça de Flora voltou com força total e ela se sentou no chão para ouvir o restante da história. – Um dia, um dos líderes da espécie encontrou um menino e o trouxe para cá. A criança era muito nova e achava que tudo fazia parte de uma brincadeira. O líder ficou encantado pela inocência da criança e, junto com outros corests que também não concordavam com a forma que usavam para ter energia, decidiu que não iria mais caçar. Depois de alguns anos, o movimento de corests que não mais queriam caçar aumentou e um acordo foi fechado para que isso não mais acontecesse. A espécie foi praticamente extinta porque não encontraram outra forma de conseguirem se alimentar. Haviam alguns rebeldes que ainda insistiam em sair para caçar. Então, o portal principal foi selado pelo último líder vivo da espécie e a extinção se tornou ainda mais real. – A mulher parou novamente e, em seguida continuou. A voz ainda mais fraca. – O Corest que nos capturou é o último da espécie. Ele descobriu uma forma de abrir o portal, mas só consegue fazer de oito em oito anos porque requer muita energia. Quando ele saiu para caçar você, eu o observei e descobri que ele colocou uma pedra no centro do selo para abrir o portal. Precisamos pegá-la. Ou melhor, você precisa pegá-la.

Flora não sabia o porquê, mas começou a rir de maneira incontrolável, a dor na cabeça ficou mais forte e a visão, turva. A menina só pensava que não iria conseguir. Como iria pegar uma pedra tão importante assim sem ser notada pelo seu portador. Precisava se controlar. Respirou fundo algumas vezes e no segundo seguinte ouviu a voz novamente em sua cabeça. – Eu não posso fazer nada. Em breve, serei uma árvore. Mas você pode sair daqui. Depois que ele sai para caçar, fica em transe, como uma hibernação, durante alguns dias para se recuperar do processo de caça. Só depois então, ele virá até você para se alimentar de sua energia. – A menina nervosa perguntou como ele iria tirar a energia de dentro dela e a resposta a fez voltar a chorar. – O Corest tem unhas pontiagudas que penetram na parte de trás de seu pescoço. Assim, ele suga sua energia para o fortalecer. Precisamos aproveitar enquanto ele está fraco.

– Onde posso encontrá-lo. – perguntou a menina em pensamento.

– Seguindo por esse caminho, você vai encontrar uma bifurcação. Vire à esquerda e conte 16 árvores azuis à esquerda do caminho. Na 17ª, você verá uma abertura. É muito pequena, mas acredito que você não terá dificuldades para entrar. É uma caverna. Não sei onde a pedra fica guardada, você precisa achá-la.

Com dificuldade, Flora se pôs de pé e disse que iria conseguir. A confiança da frase era mais para ela mesma se convencer de que conseguiria. Se despediu da mulher e disse que em breve voltaria. O caminho até a caverna foi o mais longo já percorrido pela menina em toda sua vida. As pernas tremiam e pareciam pesar mais do que podia sustentar, a cabeça latejava e as lágrimas escorriam pelo rosto. Virou à esquerda e começou a contar as árvores azuis. Por instinto, Flora havia diminuído os passos. Sabia que teria que tentar, mas estava com muito medo. Quando chegou 16ª árvore procurou pela caverna e não teve dificuldades em encontrá-la. Secou as lágrimas e entrou. Lá dentro, a luz era bem fraca. Apenas uma flor verde brilhava no local. O espaço era pequeno, o chão, coberto por um tapete de folhas coloridas. Duas escadas irregulares davam numa espécie de trono improvisado, feito com galhos de árvores. Sentado lá em cima estava o Corest, olhos fechados, o peito subindo e descendo, numa respiração que parecia difícil.

Flora começou a busca pela pedra. Levantou folhas. Olhou nas paredes e nada. Não queria acreditar que teria que subir as escadas e procurá-la próximo ao Corest. Depois de uma luta interna entre o medo de subir e o medo de ficar ali até se transformar numa árvore, resolveu caminhar até o trono. Subiu os degraus com muito cuidado para não fazer barulho. Já no alto, começou a vasculhar os poucos lugares que tinham por ali. Enfim, depois de alguns minutos, tomou coragem e olhou para a criatura que estava sentada. Entrou em pânico quando percebeu que pendente ao lado do pequeno corpo, presa a um cipó amarelo que se enrolada ao redor do Corest, estava a pedra. Só podia ser aquela. Pensou em como iria tirá-la sem ser percebida e teve que espantar algumas lágrimas que voltaram a correr por seu rosto.

Com muito cuidado, colocou os joelhos no chão e se aproximou da pedra. Esticou a mão direita e tocou o objeto na esperança de conseguir tirá-lo sem muito esforço, mas estava presa. Tentou novamente, depositando um pouco mais de força e nada. Teria que cortar o cipó. Olhou em volta em busca de algum objeto cortante e tudo que achou foram folhas e galhos secos. O medo que estava contendo rompeu a barreira e tomou conta de Flora. A menina segurou a pedra e puxou com toda a força que conseguiu reunir. O cipó se rompeu e Flora caiu para trás com o impulso. A cabeça bateu no chão e a dor do corte voltou ainda pior. O lado positivo era que a pedra estava segura em sua mão. Abriu os olhos e descobriu que a visão estava turva. Quando olhou para o lado, percebeu que um vulto se aproximava. Era o Corest, ele havia acordado. Juntou toda a energia que lhe restava, apoiou o corpo no joelho esquerdo e deu um impulso para cima. Sentiu seu corpo perder o contato com o chão quando perdeu o equilíbrio e caiu das escadas.  

A consciência lutava em se esvair e Flora lutava para se manter acordada. Não podia se dar ao luxo de desmaiar. Olhou para cima e viu o vulto se aproximando lentamente. A menina respirou fundo, se levantou com dificuldade e começou a caminhar. Saiu da caverna e começou a correr o mais rápido que seu corpo conseguia aguentar – o que não era muito rápido. Olhou para trás e percebeu que estava sendo seguida, mas não muito de perto. O Corest era muito lento, talvez por estar sem energia.

Flora dobrou a esquina e gritou ao ouvir uma voz carregada de ódio em sua cabeça. Se ele a pegasse, ela tinha certeza que iria morrer. Viraria árvore em menos tempo do que todas as outras pessoas. Ele estava com tanta raiva que não iria se alimentar dela por oito anos, iria tirar sua energia em poucos minutos, mesmo que isso significasse sua morte. 

Continuou correndo. Sua cabeça latejando enquanto a voz gritava palavras que Flora não entendia direito. Chegou até o ponto onde havia encontrado a mulher e disse que havia conseguido. Quando a resposta não veio, resolveu que não tinha tempo para perder. Mesmo sabendo que isso iria atrasar sua fuga, Flora pegou a mulher pelo braço e começou a puxá-la junto no trajeto de volta ao portal. O lado bom da história, era que o caminho só tinha um sentido. Olhou para trás e não viu o Corest. Pensou que esse talvez fosse o seu dia de sorte, já que seu perseguidor estava mais fraco que ela própria. Mas a voz ainda estava furiosa em sua cabeça.

Depois de alguns minutos torturantes de medo e cansaço, Flora chegou ao portal selado. Era um símbolo estranho desenhado na parede e no meio tinha um buraco. A menina olhou para trás e o viu a poucos metros de distância. As mãos erguidas, as unhas em destaque. Sem perder tempo, Flora encaixou a pedra e sentiu os pés saindo do chão. Olhou para o lado e a mulher também estava flutuando. À sua frente uma pequena fresta se abriu e se tornou uma pouco maior até que o corpo de Flora se fundiu ao portal e ela foi arremessada para fora.

*

Quando acordei, Flora estava caída ao meu lado. Estávamos próximas a uma árvore. O local era familiar. Parque Municipal! Próximo ao lugar onde eu estava antes de ser levada para o outro mundo. Me levantei e fui até a menina. Ajoelhei ao seu lado e a sacudi com delicadeza. Lentamente, seus olhos se abriram e ela sorriu. Um sorriso doce de dentes tortos.  

– Olá – disse eu sorrindo de volta.

Sem responder, a menina sentou-se e me abraçou. Flora começou a chorar e, entre os soluços, tudo o que conseguiu dizer foram muitos “obrigada”. Eu não sabia o que responder porque na verdade eu quem deveria estar agradecendo. Fiquei naquele lugar por longos anos e foi a chegada da pequena Flora que me deu esperanças de conseguir fugir.

Nos levantamos. O sol estava quente, mas nuvens se acumulavam no céu. Sem dizer mais nada, começamos uma caminhada em busca de ajuda. Ao passar pelo poço de água com muitos peixes, lágrimas se acumularam nos meus olhos e me lembrei de papai. Ele estaria orgulhoso de mim. Aquele era o lugar perfeito para o ponto de partida de meu novo primeiro dia de vida. Me sentia como se tivesse renascido!

Na caminhada pelo parque, pensei que voltaríamos cada uma para sua casa, mas minha ligação com Flora estava eternizada e não deixaria que aquela menina saísse de minha vida. Ela me deu um recomeço, me deu novos motivos para sorrir, me deu minha vida de volta. Um pensamento passou por minha mente e eu disse:

– O que acha de irmos dar uma volta na Roda Gigante?

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