Relacionamento abusivo parte l: Quando a ficha cai

Não é só um ciúmes bonitinho

Tudo começou na noite daquele dia 21. Aquela brincadeira com a verdade mais explicita possível. Eu já era apaixonada por ele, eu já enxergava o sorriso dele mais bonito do que dos outros homens, já achava ele mais sofisticado e já considerava o cheiro dele o melhor do mundo. Mas eu? Eu era mais uma dentre a lista enorme de pessoas que eram loucas por ele. Naquela música “pra quê tanto lero lero meu bem?” eu fisguei ele. Era para ser um cheiro no cangote, mas eu virei o rosto para ele me beijar. E de todas as bocas que eu havia beijado, de todos os lugares que eu havia ido, aqueles eram os melhores do mundo.

Nós, supostamente, éramos parecidos. Eu amo pagode, ele também. Gostávamos de falar tudo com sinceridade, bom, pelo menos eu sim. Brincávamos o dia todo. Mensagens eram a cada segundo. A minha primeira vez foi com ele, e eu jurei ter sido a cena mais linda da história, e mais dolorida também, rs. Mas ele conseguiu me fazer doer muito além disso. Ele preparou aquela noite como preparou todo meu psicológico para viver a vida com ele.

Naquela noite ele foi perfeito, um quarto de hotel maravilhoso, vinho e música que eu gostava. Ele sabia conquistar e dominar. Eu me entreguei, não só ali, eu me entreguei totalmente a ele. No início, o ciúme era lindo, nossa, ele gostava mesmo de mim.  A cada foto que ele pedia para não postar eu falava “amor, eu sou sua, fica tranquilo”, mas não postava por medo de desapontá-lo.

Uma vez fomos almoçar num restaurante no Lourdes, o clima estava ótimo, estávamos comemorando uma conquista minha no trabalho. Chegamos, sentamos, ele conversou sobre o vinho com o garçom e eu perguntei sobre uma entrada. 2 minutos depois que o garçom se foi ele me disse com uma cara séria que deveríamos trocar de mesa, eu ainda ri perguntando o motivo. “O garçom está te querendo, eu vi a forma com que ele te olhou”, ele disse. Logo eu expliquei que não, que só havia tirado uma dúvida, mas ele não quis escutar, levantou, trocou de mesa e ficou me esperando. O resto do almoço ele ficou de cara fechada, mesmo abraçado comigo.

Ele não gostava de sair e para não desapontá-lo eu não saia também. Esporadicamente, eu ia em algum aniversário de uma amiga próxima. Naquela época eu não podia mais conversar com algumas amigas, elas eram más influências, de acordo com ele. Quando saia com as que ele deixava, as mensagens eram constantes, e o carro estava sempre na porta antes do anoitecer ou antes das 21h, para me buscar. Mas para, era fofo né? Ele estava cuidando de mim.

Até que um dia eu comecei a reclamar um pouco desse ciúme, no início ele pedia desculpa e explicava que eu provocava, por isso ele agia daquela forma. Eu provocava porque postava alguma foto no Instagram. Isso era provocar ele. Eu pedia desculpa e deletava, não queria estragar meu namoro por isso. Mas o ciúme aumentou de uma hora para outra, e eu não entendia. Ele chegou a gritar e chorar dizendo que me amava e não deixaria ninguém estragar o namoro ou me tomar dele. “Claro que não amor, eu sou sua, eu te amo e estarei eternamente contigo”.

Três anos de relacionamento depois eu entendi o ciúme. Ele me traía desde o início. Aquele ciúme louco e obsessivo dele era justamente porque ele estava com outras. Eu já havia pegado foto de conhecida minha no celular dele, só de calcinha, que eu sabia que ele já tinha ficado, mas ele dizia que era antes da gente começar e eu acreditava. Mas depois de três anos ele me chamou no escritório dele.

Sentada em seu colo ele me confessou uma traição, e disse que achava que a mulher, aquela que eu tanto odiava, estava grávida. Eu fiquei calada e ele perguntou como faríamos. Eu tentei dizer que terminaríamos, mas não consegui. Eu desci, sai de perto dele. Eu chorei como se tivessem enfiado uma faca em meu peito, estava doendo de verdade, uma dor jamais sentida.

Passei o dia todo trabalhando tentando segurar as lágrimas, que inevitavelmente caiam sem eu querer. Almocei com minha mãe forjando o sorriso mais falso da minha vida. O dia chegou ao fim, cheguei em casa sorrindo como se nada tivesse acontecido. Entrei debaixo do chuveiro e chorei, já não sabia mais o que era água do banho ou dos meus olhos. Eu sentei no chão, abracei as pernas como uma criança pequena que se esconde, enquanto acreditava que o banho também limparia tudo que estava acontecendo.

No dia seguinte encontramos para conversar, e eu que odiava chorar na frente de alguém, desabei. Ele falou que me amava e que não iria nunca mais encontrar um homem como ele, que faria tudo por mim. E eu acreditei, acreditei que ele seria o único homem da minha vida. Guardei o que tanto doía no bolso, e segui o namoro achando que era aquilo que eu merecia. Ele me convenceu que ele era o melhor e que eu pertencia a ele. Entreguei a minha vida a ele e acabei quase acabando com ela.

Só um pequeno aviso a todos: Relacionamento abusivo é coisa séria, e a depressão não é frescura, como dizem. Mas isso já é papo de outro texto, nesse já liberei tantos sentimentos que jamais imaginaria libertar.

Continua… 

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