Heróis demais | Laura Restrepo

Com mais de 10 livros publicados mundo afora, a colombiana Laura Restrepo é uma das principais escritoras da América Latina, e já adianto que vale muito a pena a leitura de suas obras, especialmente Heróis Demais (2011), publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.

Neste romance, Laura narra a busca de um filho para conhecer o pai, um militante com importante atuação na resistência argentina durante o regime ditatorial. Mas, para isso, sua mãe precisa dolorosamente remexer nas memórias do passado, cujo principal episódio é o sequestro do filho pelo seu próprio pai.

“Precisava enfim pôr em palavras essa história até agora marcada pelo silêncio. Sempre soubera que cedo ou tarde teria que encarar a tarefa, não havia mais remédio, porque passado que não foi amansado com palavras não é memória, é espreita.” (pág.211)

Pelas memórias de Lorenza, também integrante da resistência, conhecemos sutilmente um pouco dos bastidores da ditadura militar argentina, que durou de 1976 a 1983, a atuação dessas pessoas, as artimanhas para escapar da repressão militar, o comportamento popular frente ao regime, e, como em meio as atrocidades do governo ditador, nasceu o amor entre Forcás (Ramon) e Aurélia (Lorenza).

“_Vá se vestir, sua puta, ou vá mostrar o rabo numa boate!” Então soube que a ditadura não era exercida apenas pelos militares, mas também por uma parte da população sobre a outra e que não era só política como também moral, como uma água podre que ia se infiltrando por tudo, até nos recantos mais íntimos da vida.” (pág.73)

Mesclando entre o presente, com a viagem de Lorenza e o filho Mateo à Argentina e o passado dividido em dois momentos: o fervor do auge dos primeiros anos do regime com a atuação  do casal e o sequestro de Mateo com apenas dois anos. Lorenza conversa com o filho, esclarece suas dúvidas e vai aos poucos contextualizando o leitor. Essa narração é constantemente interrompida por Mateo, que é impaciente e, por muitas vezes, grosso com a mãe.

“_Tudo bem, continue contando, mas as partes dele… melhor pronunciar normal. Vão soar menos forçadas. _Pronuncio como me saem, kiddo, não encha. Depois, quase acabei. Ou prefere que deixemos a história por aqui? _Quero que termine. Mas sem sotaque. “ (pág.105)

A leitura é movida por pequenas de curiosidade: como Lorenza recuperou o filho sequestrado; por que Ramon nunca os procurou depois deste episódio; quando Mateo tomará uma atitude de enfim ligar para o pai, mas, principalmente pela riqueza do contexto histórico, que por si só já vale a leitura.  

Vale pela escrita da autora que é muito boa, ágil e precisa, ao ir entregando ao leitor pequenas doses de curiosidade, porém, o personagem Mateo é muito chato, mimado, indeciso e por vezes, nada merecedor da história que tem em mãos. Mas o leitor sim! Portanto não desistam da leitura por conta dele, a aula de história é muito valiosa.

Confira aqui um trechinho disponibilizado pela editora.

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