Grupo Giramundo traz o realismo fantástico de Rubião para o palco

 

Por: Selene Machado

Gosto de quem assume desafios (um bocado de ousadia, com três xícaras de chá, por favor) e o Grupo Giramundo assume um baita desafio ao levar para o palco (e telas e alto falantes), um pouco da literatura de Murilo Rubião.

Um dos representantes nacionais do realismo fantástico, o autor tem uma obra cheia de significados — que delira para falar do cotidiano e das questões humanas mais profundas. (Se Kubrick fosse brasileiro, não duvido que ele classificasse essa obra também como infilmável ou inteatrificável).

Como sou apaixonada por Rubião desde a adolescência, foi com receio (como se um chefe de cozinha fosse fazer a releitura de um de seus pratos favoritos, sabe?) que entrei no teatro. O meu maior medo era que transformassem uma obra que é um labirinto, em uma estrada em linha reta — impor um sentido fechado, para algo que venda seus olhos, te faz girar e te larga em diversas encruzilhadas (Rubião brinca de Marco Polo, ou cabra cega, com o leitor).

E, felizmente, isso é tudo o que a peça não faz:

Sombria e luminosa ela flerta com a coerência e o absurdo, que são próprios do autor (e da vida), proporcionando um espetáculo de realismo fantástico que desfila incessantemente frente a nossos olhos — no palco, e fora dele ( fui dormir e acordei e os personagens ainda se moviam, e luzes estroboscópicas e perguntas).

Com um primor, que também é característico de Rubião (perfeccionista inveterado), o espetáculo mistura cinema, animação, performance, técnicas modernas de projeção, bonecos, máscaras e atores — com ajuda da (genial) trilha sonora (que é o elemento que costura tudo, dando vida ao projeto transmídia — “It’s alive”) e da interpretação assombrosa de Antônio Rodrigues.

A peça tem certa lógica de Mise-èn-abyme (já no começo, a abertura das cortinas é procedida de outra abertura — dessa vez projetada). Além disso, não sabemos quem está contando e sendo contado — Antônio, parece, às vezes, representar Rubião, e, em outras, ele é um dos seus personagens.

Os contos se confundem e se mesclam, sem finais muito marcados — histórias dentro de histórias. Matryoshkas narrativas. E, a medida que a peça sobe, em um ato aflitivo, os personagens são colocados juntos, pelo grito.

O espetáculo morde sua própria cauda, em um movimento cíclico, ao mesmo tempo em que é disruptivo e escapa pelas margens (isso é possível?).

A obra é repleta de símbolos ricos — o feto ensanguentado é Teleco, mas também nosso desamparo absoluto. Interrogação de uma vida que é muito mais absurda do que a ficção e cheia de impotências (afinal, mesmo quando somos mágicos, não temos o poder de mudar a realidade crua do mundo?).

Existe um desamparo que faz parte da experiência de ser humano — não apenas um ser finito, mais um ser que — como diria Arendt- não existe, se não, em conjunto. Mas não anda muito fácil existir em conjunto, não é? O ruído, e a dificuldade de comunicação (comunicação verdadeira), também são pontos centrais na obra de Rubião — ocasionando em uma solidão avassaladora.

Mostra de relações que muitas vezes dão a luz, fetos mortos.

O Pirotécnico Zacarias, do Grupo Giramundo, é uma peça para se ver e rever, sem nunca assistir duas vezes ao mesmo espetáculo.

É uma obra que merce uma turnê pelo mundo, apresentando, de uma vez, dois ricos produtos culturais de Minas: os contos de Rubião e o teatro do Giramundo.

A peça está em cartaz no CCBB, até dia 08 de Abril.

P.s.: Teleco, querido, por que tentar ser homem? Está tão difícil “distinguir quem era homem, quem era porco”.

O texto é uma gentil colaboração da jornalista Selene Machado. Agradecemos imensamente a sua confiança. Sigam a Selene na página Mixórdia, na plataforma Medium.

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