Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Mais de 60 anos se passaram e, desde a primeira publicação, Fahrenheit 451 segue “profeticamente” retratando com uma perfeição absurda o contexto da sociedade atual.

 Distopias são instigantes em vários sentidos. São pensadas por mentes brilhantes, muito à frente do seu tempo, e que, de alguma forma, acertaram em cheio o rumo que o mundo iria tomar. Em sua maioria, são pessoas sensíveis a sua época que enxergaram ali uma oportunidade de brincar com a história, trazendo para a cena literária aquele famoso “e se”…

E se os bichos se revoltassem contra os humanos? Pensou George Orwell em 1924 ao escrever o clássico “A Revolução dos Bichos”.  Se as mulheres perdessem seus direitos a ponto de terem limite de palavras diárias? Escreveu Christina Dalcher em Vox, sucesso de vendas em 2018.  E se, por acaso, um mundo virtual fosse mais atrativo que o real e as pessoas passassem a viver praticamente dentro dele? Essa é a história de Jogador nº1, do escritor Ernest Cline, adaptado para cinema em 2018, com direção de Steven Spielberg. Mas e se não houvessem mais livros? E se as pessoas simplesmente não se interessassem mais por eles? Essa é a história de Fahrenheit 451 e do bombeiro Montag, responsável não por apagar incêndios, mas por queimar todo e qualquer vestígio de literatura.

“E assim, quando as casas finalmente se tornaram à prova de fogo, no mundo inteiro ¬ já não havia mais necessidade de bombeiros para os velhos fins. Eles receberam uma nova missão, a guarda de nossa paz de espírito, a eliminação do nosso compreensível e legítimo sentimento de inferioridade: censores, juízes e carrascos oficiais. Eis o nosso papel, Montag, o seu e o meu”. (pág. 76/77)

Toda semelhança com a realidade não é apenas mera coincidência. De fato, é possível identificar em cada uma dessas distopias um interesse específico e real de manipular as pessoas, e fazer delas massa de manobra para os piores interesses possíveis.

“Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso.” (pág. 79)

Fahrenheit 451 choca, sobretudo por apresentar uma situação em que os livros foram deixados de lado pela sociedade, cada vez mais fútil e desinteressada. Onde o entretenimento é mais importante que o conhecimento. E o governo, claro, se aproveitou disso para promover a queima de livros, o fim das universidades e consequentemente a extinção da racionalidade.

“¬ A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?” (pág.73)

Engraçado como o autor fala das relações interpessoais. As pessoas não conversam mais e quando o fazem, os diálogos são vazios e praticamente incompreensíveis. A história se passa em uma época onde a população vive à mercê da tecnologia e praticamente não se relacionam. Por isso o bombeiro Montag estranha a abordagem da jovem Clarisse, que além de conversar com ele, passa a lhe mostrar as coisas simples da vida que foram perdendo sentido ou espaço no cotidiano das pessoas, como apreciar as flores e a lua, ou como as casas foram modificadas para impedir os relacionamentos.

“As pessoas conversavam demais. E tinham tempo para pensar. Por isso, acabaram com os alpendres. E com os jardins, também. Quase não há mais jardins nos quais sentar. E olhe para a mobília. Não há mais cadeiras de balanço. Elas são confortáveis demais.” (Pág.82).

Na distopia, as pessoas vivem imersas em seus mundos próprios. Dormem a base de remédios como é caso da esposa de Mortag, Mildred.  São alimentadas e manipuladas pelas grandes telas de TV e rádio. Nos ouvidos uma espécie de concha que passam músicas virais, que fazem as pessoas se sentirem felizes, mas não acrescentam em nada em suas vidas. Na sala das casas, uma espécie de parede monocromática simula o que conhecemos hoje, como os telões, que trazem programações também vazias e algumas que simulam as “famílias”, instituição em decadência.

“¬ Meus filhos ficam na escola nove dias seguidos e depois eles têm um dia de folga. Eu os aguento em casa três dias por mês; não é nada de mais. A gente põe as crianças no “salão” e liga o interruptor. É como lavar roupa: é só enfiar as roupas sujas na máquina e fechar a tampa. ¬ A senhora Bowles riu.¬ Para elas tanto faz me dar um chute ou um beijo. Graças a Deus, eu também sei chutar.” (Pág.120)

Nesse cenário, Mortag passa dias e dias queimando livros e bibliotecas. Porém, a amizade com Clarisse desperta nele o espírito “questionador”, que muda completamente o curso da sua vida. O fato que desencadeia essa “rebeldia” em Mortag é quando ele vê uma mulher sendo queimada viva para não desapegar do seu acervo. Afinal, o que os livros trazem? Por que é proibido lê-los?

Fahrenheit 451 traz várias críticas a sociedade, como o imediatismo e a troca das relações interpessoais em favor das tecnologias. O uso dessas tecnologias em favor do mau, como é o caso do Sabujo, um cachorro mecânico criado para identificar e matar àqueles que descumprem ordens. A maioria das ações são justificadas em prol da felicidade, mesmo que momentânea. E as mulheres aqui aparecem como tolas e fúteis, mesmo Clarisse que apesar de apresentar conteúdo é representada com sanidade questionada.

Ao mesmo tempo em que mostra a importância dos livros para a vida humana, Fahrenheit 451 estabelece com ênfase que esse interesse foi se perdendo ao longo dos tempos. As pessoas foram seduzidas pelas tecnologias e entretenimentos frívolos, deixando os livros à mercê da censura. Quase ninguém brigou por eles.

“¬ Mas, mesmo quando tínhamos os livros à mão, muito tempo atrás, não usávamos o que tirávamos deles. Continuávamos a insultar os mortos. Continuávamos a cuspir nos túmulos de todos os infelizes que morreram antes de nós.” (pág.198)

A adaptação: Várias adaptações deram vida a distopia de Bradbury ao longo dos tempos. Escolhi a mais recente de 2018, produzida pela HBO, com Michael B. Jordan no papel principal.

O que chama mais atenção no livro é a sensibilidade de prever as condições humanas e as tecnologias. Como já atingimos o patamar de evolução prevista na literatura, o filme avançou alguns passos trazendo ainda mais tecnologia e inovação em um cenário futurístico. Das conchas dos ouvidos para a imersão na realidade virtual, e a criação de software que reúne todos as obras clássicas da literatura, música e cinema, que pode ser espalhado ao mundo através dos pássaros.

A adaptação já impressiona na abertura, intercalando citações de grandes escritores que provocaram reflexões, com capas de grandes clássicos da literatura, como “Cem anos de solidão”, “Lolita”, “Édipo”, que desfazem em fogo com efeitos arrebatadores, mesclando com imagens reais de queima de livros durante a segunda Guerra Mundial. A perfeita destruição da memória.

A síntese do livro foi mantida. O bombeiro Mortag, queimador de livros, se impressiona com a paixão de uma mulher que preferiu ser queimada viva a se separar da literatura. A propósito essa cena foi muito tocante. Fora isso, tudo muda, a cronologia dos fatos, a relação dos personagens e o clímax da obra literária.

Na adaptação, Mortag tem voz de comando e é praticamente um braço direito do capitão Beatty (Michael Shannon). Está prestes a ser promovido, e tem fragmentos de memória de sua relação com o pai e a sua morte. Os Bombeiros queimam livros, computadores e quaisquer dispositivos que possam conter literatura (em uma tentativa de modernização os eBook também são alvos, já que o autor não vislumbrou essa possibilidade à época), além de clássicos da música e cinema.

A adaptação traz crianças e adolescentes, algo que não aparece no livro. Em uma espécie de palestra dos Bombeiros, eles exaltam o trabalho da queima de livros e cita os liberados para leitura, como a Bíblia e Moby Dick, algo que não ocorre no livro. O trabalho dos Bombeiros envolve ação e também muita violência. O filme traz várias cenas de violência, perseguição e consequentemente ação.

Outro detalhe importante é que no filme Mortag não é casado, com isso a sua relação com a personagem Clarisse é intensa e completamente diferente do livro. O primeiro encontro deles se dá em um ambiente completamente inóspito, sem a sensibilidade e o encanto do livro.

A adaptação se distanciou demais e se manteve pouco fiel a obra literária. O livro, apesar de bem parado e em muitos trechos confuso, surpreendeu pela eficiência com que trata as relações humanas, o que foi ignorado na adaptação. O desinteresse pela literatura é algo que também ficou vago na produção da HBO, deixando o telespectador, até mesmo aquele que leu o livro, confuso e cheio de perguntas.

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