Da janela do ônibus ao submundo do “sobe e desce” da Guaicurus

O que desperta a curiosidade não é só o fato de muito do que acontece ali ser proibido. Mas também, as história que são silenciosamente narradas  e os personagens que constroem um mundo paralelo dentro de BH 

Todo dia o mesmo ritual: rezo o meu terço, durmo, leio, escuto música e converso com meu colega de viagem, porque sim, é uma viagem! São quase duas horas de ônibus para chegar ao trabalho, dá para fazer muitas coisas durante esse trajeto, inclusive fantasiar mundos.

O ônibus sai do viaduto e acessa a região central de BH, ou melhor, o baixo centro, ou ainda melhor a região “boêmia”, ou, se preferir, o usual reduto do sexo pago. Porque sim, essa é uma área tradicional de BH muito reconhecida pelas suas casas de “diversões” adultas e noturnas.

Quando chega nessa parte da viagem, fixo na janela e começo a observar o desenrolar do enredo que compõe essa cena obscura da cidade, que muitos podem considerar suja, medíocre e acúmulo de pecado. Mas eu entendo como um mistério sedutor.

É como se cada uma daquelas pessoas fossem um personagem de um filme que guarda um segredo. Ou então, que ali, bem pertinho da gente, não fosse apenas um bairro, e sim um mundo, aliás um submundo de sensualidade, prazer, sexo, luxúria e tudo que está à margem da sociedade.

Seria mentira da minha parte dizer que não fico espiando da janela do ônibus e torcendo para que o trânsito agarre bem ali na Guaicurus, só para ter mais tempo para observar. São tantos personagens.

Tem o porteiro acima do peso, que está sempre comendo e sempre lá. Fico pensando que ele provavelmente não sobe as escadas, caso contrário teria um infarto, ou seja, ele não deve aproveitar muito as atrações que o espaço oferece, porém, deve ter cada história para contar.

E um salãozinho que fica entre as casas de prostituição e stripper, será que é lá que as garotas se preparam para começar o expediente?

Certa vez, reparei em um rapaz que subiu e desceu de três casas diferentes e seguidas. Esse dia o trânsito estava bem agarrado. Mais uma vez fiquei cá com meus botões: será que ele não encontrou o que queria? Será que ele estava fazendo como fazemos nas lojas do shopping e passou só para dá uma olhadinha?

Ou será que o que levou ele até ali foi a curiosidade e não o desejo. As vezes ele também pode preferir fazer amor, e não algo especificamente físico.

Penso sobre as garotas de programas que lá trabalham. O que está por trás da maquiagem que provavelmente elas usam? O que elas dizem para a família? Será que gostam da profissão ou, de repente, se viram como garotas de programa e assim ficou.

Será que elas carregam sonhos? Será que ainda conseguem fazer amor? Não falo do ato sexual em si, mas da troca, do afeto, da energia que acontece quando existe muito mais que só tesão envolvido.

Considero a luxúria um pecado tentador, que envolve e muitas vezes provoca prazeres surreais. Entretanto, não sei se sou muito romântica, mas quando avalio essa situação, penso que é uma forma de se matar por dentro. Deixar de ser humano com sentimentos para se tornar um objeto.

E vejo isso para os dois lados, tanto de quem paga, quanto de quem recebe. Definitivamente não é uma profissão fácil, aliás, não é nem de longe uma vida fácil.

Não entenda isso como um julgamento, longe de mim. Mesmo porquê, como eu já disse no início desse texto, é um mundo que me desperta muita curiosidade.

Amanhã estarei lá novamente, da janela do ônibus, olhando atentamente cada movimento e rezando para que tenha engarrafamento na Guaicurus. Porque doa a quem doer, goste quem quiser gostar, o baixo centro guarda os maiores segredos de Belo Horizonte.

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