O Girassol Vermelho

Eu não sei como será o fim dessa história, pois creio que ela ainda não acabou.

Tudo começou quando ele passou em frente a um palacete de cristal. Ele sempre soube da existência desse palacete, mas nunca se interessou por ele, até que um dia, por acaso, ele se viu parado observando um belo jardim, repleto de flores, das mais diferentes espécies. Ele nem se importou muito com elas, provavelmente viu que uma ou duas eram muito belas, mas não o suficiente para fazê-lo voltar. Ele não reparou nela, ou melhor, ele a viu por uma fração de segundo, mas continuou.

Hoje ele se encontra atraído por essa flor. Outro dia eu lhe perguntei o motivo então desse esforço hercúleo que faz apenas para impressioná-la. Ele me disse que não sabia. O certo é que ele voltou e dessa vez fixou os olhos no pequeno girassol vermelho.

Nesse dia lhe bateu uma vontade imensa de entrar e admira-la de perto, pois o girassol vermelho era diferente de todos os girassóis que já tinha visto. Ele passou então a voltar sempre que podia e, sabendo que nunca poderia cruzar o imenso gradil de ferro, ele apenas passava e olhava uma ou duas vezes, sem que o girassol percebesse.

Isso é o que ele pensava, mas um dia notou que o girassol não acompanhava o sol, mas sim os seus passos em frente ao imenso gradil. Isso o incomodava, pois cada vez mais queria chegar perto dessa bela flor. Ao mesmo tempo ficava amedrontado sabendo que o belo girassol vermelho nunca seria dele. Ele sabia que o girassol, assim como todos os girassóis, acompanhava o movimento do sol, exceto quando ele passava. Ele pensou em nunca mais se aventurar pela rua do palacete, mas era impelido por uma força sobrenatural que sempre o fazia voltar.

Foi quando teve a ideia de se fantasiar. Ele, que era um artista, um ator, sabia fazer isso muito bem. Passou a se vestir de forma a passar sem ser percebido. Começou a se mostrar bem diferente. Um dia aparecia de lorde, outro dia de mágico, de pintor, de mecânico. Cada dia com uma vestimenta diferente. Ele nunca me disse explicitamente por que fazia isso, mas eu sei que queria testar o girassol, sei também que nunca deu certo, pois o girassol sempre o acompanhava. Isso durou semanas.

Um dia ele me mandou uma mensagem onde me confidenciou que estava passando mais vezes por lá e que agora está tentando fazer com que o girassol o odiasse. Havia vezes que ele pegava flores do seu jardim e passava com elas para que o girassol deixasse de olhar para ele, outras ele contratava outros atores para irem juntos. Estava decidido a fazer com que o girassol vermelho deixasse de o acompanhar e passasse a acompanhar o sol como todos os outros girassóis do jardim, o que até hoje não aconteceu.

Sei também que ele transformou o seu jardim em um imenso canteiro de girassóis, na esperança de que aparecesse outro girassol vermelho, o que nunca aconteceu. Essa história acontece assim há muitos anos. Ele agora está cego, mas passa todos os dias pelo enorme jardim e vê o girassol que ainda olha para ele. Ele nunca mais falou comigo depois que ficou cego. Acho que porque só conversávamos por mensagens. De fato, eu nunca o vi pessoalmente e nem sei o seu nome, pois o chamo de Thor, que é o seu nome, no fórum de jardinagem em que nos conhecemos.
Hoje eu tive a curiosidade de ver onde fica o palacete. Fui então no ‘Google Earth’ e pesquisei. Curiosamente acho que o encontrei por acaso. Pois vi na imagem um homem de bengala vestido uma roupa esquisita, passando em frente a uma casa simples, sem muros nem grades, mas com um canteiro imenso de girassóis. Um deles vermelho.

O texto é uma cortesia do Rodrigo Antonio Sarmento. Agradecemos sua confiança! Se você também tem um texto especial, uma crônica, conto ou poema, envie para nós no e-mail: contato@literalmenteuai.com.br. Esse espaço é dos leitores. 

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