Capitães da Areia – Um clássico atemporal, histórico, político e social

Capitães da Areia é a obra mais vendida do escritor baiano Jorge Amado, com mais de 5,3 milhões de exemplares.

O clássico da literatura nacional revela um contexto histórico valioso, e apresenta uma crítica social e política acerca de problemas antigos que perduram até os tempos atuais, como a desigualdade social e seus efeitos mais devastadores. É uma obra que serve de entretenimento, mas, sobretudo, como denúncia e registro social.

Eles têm no máximo 16 anos de idade. São mais de 100 garotos perdidos, abandonados e carentes, maltrapilhos, porém extremamente organizados e muito bem liderados. Em busca de sobrevivência e redenção, os garotos vagueiam pelas ruas de Salvador sem perspectiva de vida, futuro, cometendo delitos e aterrorizando a sociedade baiana.

“…levavam vida nem sempre fácil, arranjando o que comer e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmola…” (pág.46)

Os personagens são apresentados ora pelos apelidos, ora pelo físico ou alguma deficiência que apresentam. A diversidade chama atenção, entre brancos, negros, estrangeiros, sendo os principais: Pedro Bala (líder do grupo – imponente e solidário); Gato (malandro – mais bem vestido do grupo); Pirulito (religioso – sonha em ser padre); João Grande (tem bom coração); Professor (é o único que sabe ler, escrever, pintar e é ótimo estrategista); Volta Seca (o mais violento e revoltado – afilhado de Lampião); Sem pernas (se infiltra nas casas para facilitar os roubos, é o mais carente de afeto); Boa Vida (malandro e folgado); Dora (única mulher, entra para o grupo após ficar órfã); todos miseráveis.

“Nestas noites de chuva eles não podiam dormir… Muitos deles eram tão crianças que temiam ainda dragões e monstros lendários. Se chegavam para junto dos mais velhos, que apenas sentiam frio e sono. Para todos, estas noites de chuva eram terríveis”. (pág.98)

A história começa com uma série de notícias sobre a invasão do grupo Capitães da Areia a casa do Comendador José Ferreira, que mereceu destaque e primeira página. Em seguida, a repercussão e os pronunciamentos das autoridades locais, um verdadeiro jogo de empurra, empurra. Trazendo para os dias de hoje, é como se fossem as famosas notas de repúdio que não resultam em nada.

O fato é que desta vez os Capitães da Areia mexeram com gente grande e despertaram ainda mais a atenção das autoridades locais. Mas quem são eles? A apresentação dos personagens, suas peripécias e o motivo que os levaram às ruas, em sua maioria histórias trágicas, tendo como pano de fundo o abandono e a pobreza, estão nos primeiros capítulos.

Cena filme | Reunião – Capitães da Areia

Não há uma sequência ou organização dos fatos. São pequenos acontecimentos que mostram a esperteza dos Capitães da Areia, expondo as mazelas em que vivem, ressignificando o conceito de carente, pois faltam-lhes tudo, principalmente amor. São crianças, formadas na rua, vivendo como adultos, cometendo atrocidades, como estupro e violência, bebendo muito e fazendo sexo, inclusive entre eles.

“Ficavam todos juntos, inquietos, mais sós, todavia, sentindo que lhes faltava algo, não apenas uma cama quente num quarto coberto, mas também doces palavras de mãe ou de irmã que fizessem o temor desaparecer”. (pág.99)

O futuro dos principais meninos e a sobrevivência do grupo é tão aguardado quanto o desfecho de suas aventuras.  Eles têm como âncora figuras típicas populares que não fazem parte da elite: a mãe de santo Aninha, o pescador Querido de Deus, e o Padre José Pedro, constantemente repreendido por ajudar os meninos.

“Quem o visse falar diria que é um comunista que está falando. E não é difícil. No meio dessa gentalha o senhor deve ter aprendido as teorias deles… O senhor e um comunista, um inimigo da Igreja…”. (pág 155)

A chegada de Dora, única menina do grupo é a reviravolta necessária que mexe com o destino deles. Ela será a mãe, a irmã e a noiva.

Cena filme | Dora – Capitães da Areia

Capitães da Areia revela muito mais que relatos cotidianos de crianças abandonadas. Traz um contexto histórico e social valioso, para além da crítica social do desprezo da população mais abastada em relação aos pobres, destaca a epidemia de varíola que assolou a população da época, a importância da ascensão do cacau na região de Ilhéus, a apresentação de figuras emblemáticas do Nordeste, ídolos dos meninos, como Lampião e a capoeirista Rosa Palmeirão.

O livro destaca, ainda, a incapacidade histórica do Estado em lidar com os problemas sociais, o machismo, a exposição e tipificação da mulher e do negro em cada descrição acentuada de seus atributos e personalidades e os movimentos de classe que envolve o personagem principal, Pedro Bala e seu pai.

Para escrever Capitães da Areia, Jorge Amado viveu no Trapiche com os meninos de rua. Conheceu suas histórias, e isso explica os ricos detalhes desta obra tão viva, de linguagem acessível e leitura descomplicada.

Quantos anos separam o 2020 de 1937, se você fez a conta, ótimo! Se respondeu que são muitos, sim, são mesmo! Mais precisamente 83 anos de problemas relacionados à população pobre, poucos avanços, e um destino miserável que aguarda quem vive nas ruas, independentemente da idade e da época.

Quando a literatura toca em assuntos reais ela incomoda. Em 1937, obras consideradas “propaganda do credo vermelho” foram queimadas em praça pública na cidade de Salvador. Entre elas, diversas obras do escritor Jorge Amado, metade do lote, segundo reportagem do G1, eram exemplares de Capitães da Areia.

Veja o trailer da adaptação de 2010

A adaptação

A mais recente adaptação de Capitães da Areia fez parte das comemorações do centenário do escritor. O roteiro e a direção ficaram a cargo da neta de Jorge Amado, Cecília Amado, e contou com um elenco jovem, escolhido a partir de projetos sociais.

“O doutor deve ficar de olho parece que é criança, mas não é não”.

Maltrapilhos, sujos e malcuidados, é assim que se apresentam os Capitães da Areia. Os principais personagens e suas tramas estão presentes na adaptação, porém de maneira abreviada. Não há uma apresentação de cada personagem, eles já aparecem vivendo alguns fatos descritos no livro, embora a maioria das cenas importantes tenham sido cortadas. É como se o filme fosse direcionado a quem leu o livro e já tenha a bagagem do enredo sem necessidade de maiores explicações, revelando cenários do filme e dando vida a obra literária.

Cena filme | Reunião – Capitães da Areia

Para o leitor, a adaptação serve como apreciação, já para o não leitor é um filme nacional bem produzido, fotografia impecável e cenas que destacam a beleza da Bahia e sua cultura. A propósito, a baianidade de Jorge Amado, o culto as suas tradições, foram mantidos e muito bem representados, reverenciados por uma belíssima trilha sonora assinada por Carlinhos Brown.

O choque inicial para o leitor fica por conta da idade dos meninos, eles realmente são muito novos para fazer tudo o que fazem e passar por tudo o que passam. Porém, cenas polêmicas ficaram de fora, como o estupro praticado por Pedro Bala e o desfecho do Sem Pernas. O fim foi poético, e sensível, trazendo diferenças significativas em relação ao livro.

A adaptação de Capitães da Areia não foi capaz de mostrar toda a alma e a essência dos personagens do livro, contudo um filme é pouco para dar vida a toda a história. Elas pulsam, são vivas e reais.

O filme de fato não passou de uma introdução a obra literária. Neste caso, é importante separar e apreciar as duas obras.

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