Chegou na portaria esbaforido, correndo e com as sacolas batendo nos lados do corpo. Sr. Augusto, o porteiro curioso, como ele pensa, abriu a boca pra perguntar por que a pressa, mas ele já estava dentro do elevador e a porta fechando. A chave do apartamento já estava a postos e foi encaixada de primeira na fechadura. Já entrou jogando tudo no sofá e correu pra janela. Não muito destacado, apenas ali, como quem não quer nada, o regador já preparado. Sempre. Ela chegou de verde. Ele não gosta de verde, porque ela vestiu? Mas estava linda. Sempre. Hoje ela trouxe pães em um saco e um jarro de flor, seria uma orquídea? Ela gosta de orquídea! Fez um gesto de quem vai tirar a blusa, ele virou o rosto, logo em seguida ela reapareceu, já com sua camiseta ‘Vote em Paulão da Serraria-25425’. Absurdamente sexy. Fechou a cortina completamente. Partiria, sabia ele, para longas horas a fio na frente da TV. Pronto, agora seu dia estava completo.

Ele já sabia seu nome, descobriu depois de semanas passando na frente da portaria do prédio vizinho diariamente e cada dia mais simpático com o porteiro. ‘Que sol quente hoje, vou parar aqui perto de você um pouco’. ‘Quer um cigarro?’ ‘Viu que jogo feio do galão ontem, Carlim?’ ‘Que moça bonita essa que entrou, mora aí? Qual nome dela?’ Morava sozinha, Carlim nunca viu com homem, pai e mãe apareciam às vezes, trabalhava de jornalista num jornal aí. Era simpática, mas reservada. Carlim era observador. Ele gostou disso.

Agora ele precisava se aproximar, estava perdidamente apaixonado havia meses e nunca teve coragem nem mesmo de trocar um olhar com ela na janela. Ela era despojada, independente, uma puta mulher. Quando ia se interessar por ele? Retraído, sozinho e recluso, enfiado nos livros dia e noite. Nunca! Foi dormir pensado em um jeito de tentar se aproximar, só queria conversar, conhecê-la, quem sabe amá-la pra sempre.

Dia seguinte não se atrasou, chegou a tempo de colocar uma orquídea no parapeito e esperar ela chegar. Hoje não ia fingir molhar as plantas, ia ficar lá, olhando pra janela dela. Ela chegou e seguiu seus passos diários, exceto que não colocou o casaco no braço do sofá, hoje ela dobrou e levou pro quarto.  Foi pra lá, foi pra cá e saiu na sacada, sem aviso, se apoiou no parapeito e olhou diretamente pra ele. Por essa ele não esperava, ficou tão surpreso que não teve reação. Aqueles olhos lhe encaravam e ele se perdera. Ela analisou a varanda, o chão, as plantas, ele, mas seus olhos pararam na orquídea. É, ela gostava. Depois de um tempo olhando pra flor e ele olhando pra ela, ela o encarou de volta e sorriu. Ela sorriu!

“Ei! Gostei da sua orquídea.”
No dia seguinte ele voltou pra janela na mesma hora, uma camisa vermelha pra chamar atenção dela. E deu certo.
“Gosta de orquídeas?” Perguntou interessada.
“Sim. Desde sempre!”
“São lindas e misteriosas, não são?”
“Misteriosas… essa é a palavra”.
“Você tem outras?” Pareceu curiosa.
“Tenho. Várias”.
“Legal! Quem sabe um dia você me mostra”, ela disse em tom descontraído.
Agora só precisava encontrar um jeito de conversar mais com ela, quem sabe um dia criaria coragem de chamá-la pra ir a seu apartamento. Claro que antes precisaria comprar muitas orquídeas, fazer uma coleção. Precisava também de equipamento de jardinagem. Todo bom cuidador de orquídea os têm. As semanas foram passando enquanto ele buscava se aproximar daquela mulher que tanto queria. Papos na janela. Dicas sobre cuidado de flores. Uma orquídea especial, Caleana Major. Linda e exótica. Ela se interessaria.
“Tenho uma nova…”
“Como é?” Perguntou ela inclinando o corpo no parapeito.
“ Exótica.”
“Muito exótica?” Ela parecia interessada.
“Que ver?”
“Quem sabe uma outra hora, hoje tô sem tempo”.
“Tranquilo! Mas é que ela logo vai murchar. Sabe como é, né?”
Ele não podia falar mais nada ou pareceria muito desesperado. Agora era esperar pra ver se ela ia acreditar.
“Quando posso ir?”
“Vem amanhã, hoje eu tô meio agarrado aqui.”
Precisava pensar no que faria quando ela chegasse, como agir, como se portar, não se sentia assim com relação a uma mulher há muito tempo. Sem falar no quanto ela era especial. Um passo em falso e ele estragaria o momento, estragaria todo seu planejamento de meses.  Mesmo de longe ele a conhecia, sabia de sua rotina, seus gostos e hobbys, suas camisetas favoritas, a caneca que ela tomava café, as músicas que ouvia no fim da tarde, eles combinavam em tanta coisa… Não havia a menor dúvida que aquela janela era a única separação entre ele e seu amor. Assim que ela atravessasse aquela barreira, ele teria a chance de conseguir exatamente o que queria dela.

A noite do dia seguinte chegou como uma segunda-feira chega depois de um final de semana, rápido. Ele comprou um vinho e esperou que ela gostasse. Uma taça já servida dando um ar de casualidade.  Alguns petiscos sobre a mesa, nada muito extravagante ou ela pensaria que ele tinha outros planos. Ela chegou na janela e assoviou, ele chegou o rosto fingindo desinteresse.
“Tá de boa aí?”
“Tô sim, chega aí, apartamento 404.”
“Indo agora.”

Ele tentou conter o nervosismo por sua chegada. Lavou o rosto e disfarçou bem, colocando um tom de indiferença à presença dela. A campainha soou estridente e ele abriu a porta rápido. Ela entrou meio desconfiada, mas foi entrando, os olhos talvez estivessem à procura da flor. Enquanto ela avançava no interior da sala, ele derrubou um pequeno cinzeiro que ficava no aparador ao lado da porta e junto com o som agudo da louça se rompendo em mil pedaços, ouvidos mais atentos poderiam ter captado um som leve e seco de chave girando na fechadura. Ouvidos atentos.

“Vou pegar a Orquídea.”
“Tudo bem, vou sentar aqui.”
Ele notou que seus olhos repousaram no vinho. Pegou sua taça que já estava servida e bebeu um gole lento.
“Quer uma taça?”
“Quero!”
Ele serviu uma taça e entregou na mão dela. Sentou na poltrona ao lado do sofá e tomou outro gole. Ela também bebeu goles lentos, sentindo o sabor da bebida. Depois de alguns minutos de conversa sobre orquídeas e coleções de infância, ela reclamou de uma leve tontura. Disse que precisava ir pra casa, mas antes queria ver a flor.

“Claro! Até esqueci, está lá na cozinha. Eu coloquei um pouco de água e deixei em cima da pia. Pode ir lá, só seguir o corredor, eu vou só juntar estes cacos.”
“Dá licença.”

Ela seguiu pelo corredor e nos primeiros passos um cheiro fétido invadiu seu nariz. Algo que ela não conseguiu identificar de imediato. Muito possivelmente algum resto de carne estragada e jogada na lixeira. Caminhou com passos cada vez mais lentos numa cozinha pequena e limpa, de onde percebeu que o cheiro, agora muito forte, não estava vindo. Vinha da área de lavar. Ela olhou pra trás e não o viu, devia estar ainda catando os cacos do cinzeiro. Abriu a porta devagar, tendo que fazer certa força e seu nariz foi assolado pelo pior cheiro que ela já sentira na vida. Era cheiro de podridão, carne em decomposição. Era cheiro de morte.

No chão, dentro do tanque de lavar roupa, atrás da porta do quartinho de despejo, jaziam corpos femininos em diferentes etapas de decomposição.  Algumas deviam estar ali há meses, outras há semanas.  Nos poucos instantes que conseguiu olhar aquela cena percebeu que havia umas 8 mulheres ali. Algumas estavam esquartejadas e suas partes jaziam em lugares diferentes do quartinho. Todas eram muito semelhantes, e com um choque estarrecedor, ela percebeu que era muito parecida fisicamente com as mortas. Seu olho captou que a única janela estava lacrada para que o cheiro não saísse. A porta também. Vomitou sem nem perceber, fechou a porta sem dar uma última olhada, caiu de joelhos no chão da cozinha pequena e vomitou novamente. Quando ela levantou o olhar, ele estava sentado em uma das poucas e feias cadeiras da cozinha e tinha no rosto a mais pura satisfação.
“Como que vai entrando assim no apartamento de um desconhecido? É muito burra mesmo.”
Ela o olhou de baixo pra cima e percebeu que aquele menino bobo com quem conversara na janela tinha desaparecido completamente. Em seu lugar habitava um homem mais imponente, olhos frios, postura e pose de quem finalmente pode ser o que é de verdade, só dentro daquelas quatro paredes. Sem pensar ela correu, correu pelo corredor como se daqueles passos largos dependesse sua vida, e dependia. A porta estava trancada e ao se virar ele já estava colado em suas costas, as mãos já tocavam seus ombros. Ela sentiu a pressão de seus braços, seu cheiro nojento de morte, e soube, foi assolada com a terrível verdade, ela terminaria naquele quartinho. A última coisa que viu ao cair no tapete sujo foi um único vaso de orquídea, ainda com a etiqueta da loja.

Ele sentou no sofá, cansado. Pingava suor da testa, pingava sangue das mãos. Descansou a faca de caça na mesinha ao lado e olhou ao redor. Um braço e pé esquerdos estavam no tapete central. No corredor repousava o abdome em uma poça de sangue vermelho vivo. Deliciou-se de prazer ao analisar todo cenário enquanto um ar de quase inocência voltava ao seu rosto lentamente.  Seus olhos procuraram a Caleana Major, será que a vizinha do 401 gostava de flores?

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