Bandidos na TV: O caso Wallace Souza em Manaus

A nova série documental da Netflix apresenta o bizarro caso do apresentador de TV Wallace Souza, acusado de ser o cabeça de uma organização criminosa responsável por uma série de assassinatos em prol de audiência.

Por mais bizarro que esse caso possa ser, a principal pergunta que paira na mente é: onde eu estava que não soube de nada deste caso?

Seria muita presunção como jornalista achar que temos acesso a tudo o que acontece no Brasil, mas é uma história tão chocante que, mesmo dentro da nossa bolha Sul/Sudeste, deveríamos nos lembrar. Após assistir todos os capítulos, o caso não apenas teve grande repercussão no Brasil, com aquela providencial matéria no Fantástico, como também no exterior.

Confira o trailer: 

A Netflix apresenta em sete episódios a história macabra do homem líder de audiência em Manaus, eleito três vezes deputado estadual com ampla margem, chegando até mesmo a ser o deputado mais votado no Brasil, proporcionalmente. A fama e o prestígio popular de Wallace era tanta que seus irmãos, conhecidos como “Irmãos Coragem”, pegaram carona na sua popularidade e também foram eleitos para cargos públicos.

Querido e amado pelo povo, o ex-policial civil construiu sua fama na TV, no comando do programa Canal Livre.  No melhor estilo do jornalismo popular, sensacionalismo puro, com direito a boneco fantoche pra quebrar o clima mórbido, barraco na plateia, personagem aleatório que vendia esfirra ao vivo durante o programa, apresentação de artistas locais e, sobretudo, o apresentador em sua performance habitual firme e rude, que expunha de forma nua e crua as mazelas da população carente. Wallace, que se apresentava como defensor dos oprimidos, crítico ferrenho do Estado e da violência, logo caiu nas graças do povo, se tornando a maior audiência do Amazonas na hora do almoço.

Líder de audiência e faturamento nas alturas com patrocinadores, o programa Canal Livre é um sucesso absoluto, e o seu apresentador uma celebridade cada vez mais popular. 

Na fórmula mágica do jornalismo popular, que explora a desgraça e a miséria do povo, o apresentador se torna o defensor oficial, o representante direto. A performance deste apresentador é essencial para o sucesso do programa. Eles estão ali ora indignados, críticos do sistema, em busca de justiça, destemidos, ora amáveis brincando com os repórteres e expondo a equipe de produção, descontraindo com populares e, sobretudo, buscando sanar suas mazelas diárias. Marcelo Resende e Datena são dois ícones do jornalismo popular brasileiro.

Tem algum problema na rua, na escola, no bairro, basta expor na TV para que os responsáveis tomem alguma atitude. O apresentador é o elo que une quem precisa a quem, de fato, pode solucionar os problemas: polícia e políticos. Quando necessário. o próprio apresentador e seus patrocinadores o fazem.

Obviamente Manaus não é uma exceção a isso. A cidade assolada por crimes entre gangues, violência, pobreza e desemprego vê no Canal Livre uma tábua de salvação. Com o passar do tempo, o programa e o seu apresentador passaram a exercer e ocupar o espaço que o Estado não supria.

Nesse contexto, a série apresenta quem foi Wallace Souza. Foca em trechos do programa, traz depoimento de ex-funcionários, da equipe de produção, que esteve sempre ao seu lado, e da família. Do outro lado, os responsáveis pela investigação policial, membros do Ministério Público e Polícia Federal, e testemunhas de acusação. Há ainda a visão de jornalistas que cobriram o caso, traçando o contexto histórico.

De defensor dos oprimidos a grande vilão

A vida de Wallace mudará drasticamente quando o traficante Moacir Jorge “Moa” é preso numa operação de rotina da polícia local, após uma denúncia anônima. Completamente atormentado, e com medo de perder a vida nas mãos de rivais já presos ao ser enviado para uma prisão comum, Moa decide falar em troca de proteção policial. Assim, Wallace Souza é acusado de chefiar uma facção criminosa, que envolvia tráfico de drogas, violência, e o mais chocante, causar as mortes que seriam destaque em seu programa. Tudo pela audiência e território de venda de drogas.

“Eu queria que as pessoas tivessem o cuidado de ouvir os dois lados desta história”, afirma Wallace em um dos trechos.

Alternando entre as versões da família e das autoridades policiais, a série destrincha a história do apresentador Wallace Souza, mostrando imagens fortes, muitas delas vindas do próprio Canal Livre, que explorava o drama e o sofrimento das pessoas, com alto teor de sensacionalismo, mostrando corpos em estados chocantes, com muito sangue e até mesmo carbonizado, ainda saindo fumaça. Há ainda entrevistas com o próprio Wallace, construindo sua defesa e alegando inocência e perseguição política.

Os capítulos oscilam entre a inocência do então deputado e a gravíssima acusação de chefe de grupo de extermínio. Essa dúvida permanente e as constantes reviravoltas movem a série. Além disto, vários personagens entram e saem da trama. Várias teorias que beiram a conspiração são traçadas em uma trama política emaranhada, cujo prêmio final é o poder. Mortes, violência e muito sangue, é carnifica pura. E o pior de tudo é que é real. Enfim, o caso Wallace mexe com o imaginário popular no sentindo da destruição ou redenção do mito.

Na série Bandidos na TV: O caso Wallace Souza, a Netflix nos apresenta um Brasil desconhecido, com direito a cenas brilhantemente escolhidas, que mostram o encontro dos rios Negro e Solimões.

A produção tem uma pegada jornalística, mesclando imagens reais com dramatização bem produzidas. O enredo é bem construído e amarrado, que te prende e te faz questionar as várias reviravoltas da trama. Ao final de cada capítulo um plottwist bizarramente “real” te faz querer ver mais, saber o que aconteceu com cada personagem, por mais chocante e repugnante que seja a história.

E, ao encerrar os sete curtíssimos capítulos, dá uma busca no Google é praticamente inevitável.

Bandidos na TV: O caso Wallace Souza estreou em 31 de maio. 

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