Amor de mãe

Por: Dra Tereza Cristina 

Minha filha chegou em casa com um convite da escola:

– Mãe, tem uma excursão na escola para o AACD sexta-feira. Posso faltar?

Achei estranho por que ela adora as excursões da escola. São momentos para risos, lanches no ônibus, correrias, esbarrões nos garotos bonitos.

– Por que você não quer ir filha?

– Ah mãe. Eu não sei lidar com aquele tipo de pessoas.

– Como assim? Pessoas têm tipos?

– Não mãe. Mas essas têm uns probleminhas.

– Me explique melhor.

– Acho que têm deficiências e não sei como me aproximar. Da outra vez, fiquei só parada olhando.

– Minha flor, então quero que você vá e fique parada olhando uma coisa: Quero que você veja o mais grandioso sentimento do ser humano, o que realmente nos aproxima de Deus.

– O que é mãe?

– Vou te contar como eu o conheci:

 – Estava no hospital – fazendo residência – e era meu dia de fazer ultrassom pediátrico. Nenhum residente queria ficar nesta escala.

As crianças choravam e mexiam muito. Muitas tinham muito medo, pois algumas já tinham semanas, meses e às vezes até anos de internação. Nós, residentes, também tínhamos medo. Pois éramos inexperientes e jovens.

Cheguei à porta com a ficha na mão e chamei: RN de Laís! RN de Laís! Recém-nascido de Laís! Os bebês que ainda não foram registrados, quando estão internados no hospital, são chamados pelo nome da mãe. Se vão ficar muito tempo, aí então se faz o registro e eles já usam o próprio nome.

Uma moça se levanta. Achei-a tão jovem! Carrega no colo um bebê bem embalado nos lençóis do hospital, aqueles brancos com carimbos verdes. Ela anda devagar e parece que leva nos braços um tesouro. Me olha tímida, mas sorri e diz:

– Doutora, Laís sou eu. Este é meu filho Jonas.

– Pode entrar mãe. Vamos fazer um ultrassom da barriguinha dele, ok? Você pode sentar-se e colocá-lo na cama.

Diminui a luz e peguei um gel quentinho para começar o exame. Ela colocou Jonas no meio da cama e foi abrindo lentamente os lençóis. Ajoelhou-se ao lado para ficar bem pertinho do rosto dele.

– Mãe, tem uma cadeira ali. Pode sentar-se.

– Pode deixar doutora. Assim fico mais perto dele. Não é meu filho?

Sentei na minha cadeira e pela primeira vez olhei aquele bebê. Tomei um susto! O rostinho e o tórax eram normais, mas ele tinha nas costas uma grande massa redonda e escura, que era quase a metade dele. Parecia uma bola marrom grudada nas costas. Lembrei-me logo: Espinha bífida, mielomeningocele. A coluna não se fechou totalmente. Na barriguinha também a bexiga era aberta e havia várias outras malformações.

– Vou deitá-lo de lado.

Eu tremia um pouco. Não sabia por onde começar. Tinha medo de machucar o bebê. Então ouvi a Laís falando baixinho. Olhava bem nos olhos dele.

– Vai ficar tudo bem meu amor. Mamãe está aqui. Isto meu bem!

Ela mesma falava e respondia em um diálogo repleto de palavras de amor:

– Logo vamos embora para nossa casa. Lá tem um bercinho te esperando. Verdade! Ela respondeu. E assim fomos nós.

Enquanto meus aparelhos constatavam o que estava fora do lugar ou incompleto, ela mostrava para Jonas o quão feliz seria sua vida. E conversavam. E ela sorria e contava da casa simples na roça, e ele simplesmente a olhava com calma.

Foi a primeira vez que compreendi. Vi a plenitude do amor de mãe. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas meu coração foi aquecido por uma grande esperança no ser humano. Sim, podemos ser muito melhores. Sim, podemos estar mais perto de Deus pelo amor.

Ao final do exame ela me perguntou bem baixinho:

– Doutora, foi alguma coisa que fiz? Algum remédio que tomei.

Vi a dor da culpa que acompanha toda mãe. A dor de não poder tirar do filho toda dor e levá-la para si.

– Não Laís! Você não fez nada de errado. Apenas ele te escolheu para seguir com ele este caminho por que tinha certeza do seu amor.

Ela sorriu, olhou para o bebê. Então é isso!

Saíram.

Tive que preencher os laudos: tantos diagnósticos, nomes complicados… A vida de Jonas teria muitos percalços, mas tive a certeza: Ele nunca estaria sozinho.

– Filha, você vai no AACD e quem sabe, com sorte, não consegue conhecer o maior sentimento deste mundo: O amor materno.

Texto de autoria da Dra Tereza Cristina Ferreira de Oliveira. Ela é médica radiologista da Redimama e, nas horas vagas escreve  lindos contos e crônicas.  A Dra Tereza cedeu gentilmente seu conto “Sereia Negra” e a crônica “Amor de mãe”, para publicação e nós agradecemos imensamente a confiança. 

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